Dante
Três dias se passaram desde a reunião.
Três dias tentando convencer a mim mesmo de que o que senti foi curiosidade.
Mentira. Foi fome.
O rosto dela continua me atravessando em flashes. O som da voz, o modo como manteve o queixo erguido quando tentei dominá-la pela palavra. Nenhum adversário faz isso.
Selena Duarte não recua, e isso é… viciante.
Na tela do computador, relatórios piscam. Não leio uma linha.
O telefone vibra, alguém pergunta sobre contratos, eu apenas aceno. O mundo inteiro continua se movendo, e eu estou preso num ponto.
Decido que preciso entender o que é essa sensação — e destruí-la antes que se torne fraqueza.
Abro o calendário: sexta, vinte horas.
Envio uma mensagem curta, profissional, calibrada para parecer inocente:
De: Dante Moreau
Para: Dra. Selena Duarte
“Precisamos alinhar alguns detalhes da fusão. Jantar de negócios, discreto. Amanhã, às 20h, no Althea.
— D. M.”
Assim. Sem emotivos, sem espaço para recusa.
Aperto “enviar” e fico olhando o e-mail aberto, como se esperasse que ele queimasse.
Um minuto. Dois.
Nada.
Então o som da notificação:
Recebido.
“Estarei lá, senhor Moreau.”
Sem saudações, sem hesitação.
Ela aceitou.
Sinto algo no estômago que não é satisfação — é expectativa.
Perigosa, indecente, deliciosa.
Na noite seguinte, chego ao restaurante antes da hora.
Escolho a mesa do fundo, onde a luz é baixa e as janelas refletem a cidade. Peço vinho. Não bebo.
E quando ela chega, o ambiente muda.
Vestido carmim. Ombros à mostra. O cabelo solto como na primeira noite.
Os olhares ao redor se voltam, mas ela não vê ninguém além de mim.
— Pontual, doutora.
— Pontualidade é respeito, senhor Moreau.
Sento-me. Ela também.
A distância entre nós é uma linha invisível e vibrante.
Conversamos sobre fusões, cláusulas e números — mas as palavras são desculpas. Cada pausa é uma faísca.
No meio da conversa, ela levanta a taça e me encara.
— Você sempre precisa controlar tudo, não é?
— O controle evita surpresas.
— Algumas surpresas são inevitáveis.
— Nem todas.
Ela sorri.
— Então por que estou aqui?
O golpe é preciso.
Respondo antes de pensar:
— Porque quis.
O silêncio seguinte é uma confissão.
Ela desvia o olhar primeiro, e eu percebo que o jogo mudou: não se trata mais de negócios.
Quando o jantar termina, a deixo caminhar à frente. O som dos saltos ecoa pelo corredor.
Na porta, ela se volta:
— Boa noite, senhor Moreau.
— Ainda não terminou, doutora.
Ela inclina a cabeça, intrigada.
— O que mais falta alinhar?
Chego um passo mais perto.
— As intenções.
Ela segura o olhar por um segundo a mais do que seria seguro.
Depois sorri — um sorriso pequeno, lento, promissor.
E vai embora.
Fico ali, parado, assistindo o reflexo dela desaparecer no vidro da porta.
A cidade lá fora é um labirinto de luzes, mas o fogo agora está dentro de mim.
Selena
Fingir que nada aconteceu é uma arte.
Três dias de e-mails frios, reuniões mornas e noites longas demais.
Mas o corpo lembra. O corpo sempre lembra.
Quando o convite chegou, eu soube que era uma armadilha.
E ainda assim, aceitei.
Talvez porque precisava testar meus próprios limites. Talvez porque parte de mim queria ver o d***o de perto outra vez.
Passei a tarde escolhendo o vestido — não o mais provocante, nem o mais discreto. O suficiente para fazê-lo perder meio segundo de raciocínio.
O suficiente para lembrar a mim mesma que ainda tenho o controle.
Ao entrar no Althea, senti o olhar dele antes mesmo de vê-lo.
Dante Moreau sentado no fundo do salão é um eclipse: tudo ao redor perde cor.
— Pontual, doutora — ele disse.
Respondi com calma, fingindo indiferença.
Mas por dentro, o coração batia num ritmo estranho, como se cada batida dissesse cuidado.
Durante o jantar, ele tentou manter o tom neutro.
Falou de contratos, prazos, estatísticas. Eu também.
Mas nossas vozes diziam outra coisa.
Em certo momento, percebi que não respirava direito.
O olhar dele me prendia, o timbre grave se infiltrava entre as palavras.
E quando perguntei por que eu estava ali, a resposta veio como um golpe: porque quis.
A sinceridade dele foi o erro que me fez vacilar.
Por um instante, vi o homem por trás do poder — e isso é sempre o início da queda.
O jantar terminou rápido demais.
Do lado de fora, o vento da noite era uma benção fria sobre a pele quente.
Ele caminhou comigo até a porta.
Quando disse que “as intenções ainda não estavam alinhadas”, uma parte de mim quis rir.
Outra quis descobrir o que ele faria se eu dissesse então alinhe-as.
Mas não disse.
Porque o jogo precisa continuar.
E quem mostra desejo primeiro perde.
No carro, olhei pelo retrovisor.
Ele ainda estava ali, parado, observando.
Como um predador paciente.
A cidade passava pelas janelas como um borrão, e dentro de mim algo queimava devagar.
Não era apenas raiva. Nem apenas atração.
Era o reconhecimento de que eu estava começando a entender o que move aquele homem.
E, talvez, o que me move também.
Chego em casa, tiro o vestido e o penduro na cadeira.
O perfume dele ainda está na minha pele.
Deito e fecho os olhos.
Não sonho.
Apenas ouço o eco da voz dele:
As intenções.
E percebo que o inferno está mais perto do que imaginei.
Dois jogadores, um convite, um tabuleiro novo.
Ele chama de estratégia.
Ela chama de risco calculado.
Mas ambos sabem o nome verdadeiro: desejo.
Dante
Ela aceitou o convite — e foi embora antes que eu pudesse entender o que aquilo significava.
Três dias. Três dias de silêncio calculado. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Apenas ausência, e o eco da voz dela dentro da minha cabeça.
Absorvi-me no trabalho como se números pudessem queimar o desejo. Não queimam. Eles só o reorganizam.
Cada decisão que tomo, cada reunião que presido, parece feita para mantê-la longe — e, paradoxalmente, tudo me lembra dela.