O Convite

1008 Words
Dante Três dias se passaram desde a reunião. Três dias tentando convencer a mim mesmo de que o que senti foi curiosidade. Mentira. Foi fome. O rosto dela continua me atravessando em flashes. O som da voz, o modo como manteve o queixo erguido quando tentei dominá-la pela palavra. Nenhum adversário faz isso. Selena Duarte não recua, e isso é… viciante. Na tela do computador, relatórios piscam. Não leio uma linha. O telefone vibra, alguém pergunta sobre contratos, eu apenas aceno. O mundo inteiro continua se movendo, e eu estou preso num ponto. Decido que preciso entender o que é essa sensação — e destruí-la antes que se torne fraqueza. Abro o calendário: sexta, vinte horas. Envio uma mensagem curta, profissional, calibrada para parecer inocente: De: Dante Moreau Para: Dra. Selena Duarte “Precisamos alinhar alguns detalhes da fusão. Jantar de negócios, discreto. Amanhã, às 20h, no Althea. — D. M.” Assim. Sem emotivos, sem espaço para recusa. Aperto “enviar” e fico olhando o e-mail aberto, como se esperasse que ele queimasse. Um minuto. Dois. Nada. Então o som da notificação: Recebido. “Estarei lá, senhor Moreau.” Sem saudações, sem hesitação. Ela aceitou. Sinto algo no estômago que não é satisfação — é expectativa. Perigosa, indecente, deliciosa. Na noite seguinte, chego ao restaurante antes da hora. Escolho a mesa do fundo, onde a luz é baixa e as janelas refletem a cidade. Peço vinho. Não bebo. E quando ela chega, o ambiente muda. Vestido carmim. Ombros à mostra. O cabelo solto como na primeira noite. Os olhares ao redor se voltam, mas ela não vê ninguém além de mim. — Pontual, doutora. — Pontualidade é respeito, senhor Moreau. Sento-me. Ela também. A distância entre nós é uma linha invisível e vibrante. Conversamos sobre fusões, cláusulas e números — mas as palavras são desculpas. Cada pausa é uma faísca. No meio da conversa, ela levanta a taça e me encara. — Você sempre precisa controlar tudo, não é? — O controle evita surpresas. — Algumas surpresas são inevitáveis. — Nem todas. Ela sorri. — Então por que estou aqui? O golpe é preciso. Respondo antes de pensar: — Porque quis. O silêncio seguinte é uma confissão. Ela desvia o olhar primeiro, e eu percebo que o jogo mudou: não se trata mais de negócios. Quando o jantar termina, a deixo caminhar à frente. O som dos saltos ecoa pelo corredor. Na porta, ela se volta: — Boa noite, senhor Moreau. — Ainda não terminou, doutora. Ela inclina a cabeça, intrigada. — O que mais falta alinhar? Chego um passo mais perto. — As intenções. Ela segura o olhar por um segundo a mais do que seria seguro. Depois sorri — um sorriso pequeno, lento, promissor. E vai embora. Fico ali, parado, assistindo o reflexo dela desaparecer no vidro da porta. A cidade lá fora é um labirinto de luzes, mas o fogo agora está dentro de mim. Selena Fingir que nada aconteceu é uma arte. Três dias de e-mails frios, reuniões mornas e noites longas demais. Mas o corpo lembra. O corpo sempre lembra. Quando o convite chegou, eu soube que era uma armadilha. E ainda assim, aceitei. Talvez porque precisava testar meus próprios limites. Talvez porque parte de mim queria ver o d***o de perto outra vez. Passei a tarde escolhendo o vestido — não o mais provocante, nem o mais discreto. O suficiente para fazê-lo perder meio segundo de raciocínio. O suficiente para lembrar a mim mesma que ainda tenho o controle. Ao entrar no Althea, senti o olhar dele antes mesmo de vê-lo. Dante Moreau sentado no fundo do salão é um eclipse: tudo ao redor perde cor. — Pontual, doutora — ele disse. Respondi com calma, fingindo indiferença. Mas por dentro, o coração batia num ritmo estranho, como se cada batida dissesse cuidado. Durante o jantar, ele tentou manter o tom neutro. Falou de contratos, prazos, estatísticas. Eu também. Mas nossas vozes diziam outra coisa. Em certo momento, percebi que não respirava direito. O olhar dele me prendia, o timbre grave se infiltrava entre as palavras. E quando perguntei por que eu estava ali, a resposta veio como um golpe: porque quis. A sinceridade dele foi o erro que me fez vacilar. Por um instante, vi o homem por trás do poder — e isso é sempre o início da queda. O jantar terminou rápido demais. Do lado de fora, o vento da noite era uma benção fria sobre a pele quente. Ele caminhou comigo até a porta. Quando disse que “as intenções ainda não estavam alinhadas”, uma parte de mim quis rir. Outra quis descobrir o que ele faria se eu dissesse então alinhe-as. Mas não disse. Porque o jogo precisa continuar. E quem mostra desejo primeiro perde. No carro, olhei pelo retrovisor. Ele ainda estava ali, parado, observando. Como um predador paciente. A cidade passava pelas janelas como um borrão, e dentro de mim algo queimava devagar. Não era apenas raiva. Nem apenas atração. Era o reconhecimento de que eu estava começando a entender o que move aquele homem. E, talvez, o que me move também. Chego em casa, tiro o vestido e o penduro na cadeira. O perfume dele ainda está na minha pele. Deito e fecho os olhos. Não sonho. Apenas ouço o eco da voz dele: As intenções. E percebo que o inferno está mais perto do que imaginei. Dois jogadores, um convite, um tabuleiro novo. Ele chama de estratégia. Ela chama de risco calculado. Mas ambos sabem o nome verdadeiro: desejo. Dante Ela aceitou o convite — e foi embora antes que eu pudesse entender o que aquilo significava. Três dias. Três dias de silêncio calculado. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Apenas ausência, e o eco da voz dela dentro da minha cabeça. Absorvi-me no trabalho como se números pudessem queimar o desejo. Não queimam. Eles só o reorganizam. Cada decisão que tomo, cada reunião que presido, parece feita para mantê-la longe — e, paradoxalmente, tudo me lembra dela.
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