Dante Faz dias que o fogo cessou. Dias longos, silenciosos, como se o mundo estivesse aprendendo a existir sem chamas. Mas o inferno não desaparece — ele apenas muda de lugar. Agora ele vive dentro de mim, quieto, como uma fera enjaulada esperando o momento certo pra lembrar que ainda respira. O corpo carrega as cicatrizes. Marcas finas, traços escuros que sobem pelos braços como veias de carvão. Às vezes queimam. Outras, parecem pulsar. Mas o que mais arde não é a pele. É o vazio. Selena tenta fingir que acredita na paz. Sorri, fala de futuro, recolhe flores pelo caminho. Mas eu a vejo à noite, quando pensa que durmo. Vejo o olhar perdido, o medo que tenta esconder. O medo de que eu acorde outra vez com o inferno nos olhos. E, às vezes, tenho o mesmo medo. Hoje acordamos a

