Lia Desde que me mudei pra cá, o vento fala comigo. Mamãe diz que é só imaginação, mas às vezes ele sussurra palavras que ninguém mais ouve. Hoje, por exemplo, ele me chamou pelo nome. Não um chamado qualquer — foi suave, quente, como se o vento tivesse boca e alma. “Lia.” Olhei pela janela, e o mar brilhava dourado. As ondas vinham e iam como respiração. E, por um segundo, achei que ouvi risadas dentro da água. A casa é antiga. Faz barulho quando respiro perto demais das paredes. Mas eu gosto disso. Parece que ela quer conversar o tempo todo. Mamãe diz que eu tenho uma imaginação fértil. Eu acho que tenho um coração cheio demais. Tem coisas que a gente sente sem saber por quê — como se já tivesse vivido antes. E, às vezes, quando encosto na madeira da escada, sinto um calo

