Capítulo 2 – Pacto de papel e sangue

1153 Words
(POV HANNAH MONTENEGRO) O vidro espelhado da Internacional Blackwolf Corporation devolvia uma imagem que eu odiava. O sol de Costa da Lua batia no prédio de oitenta andares, transformando o aço e o vidro em uma muralha de fogo. Eu via a minha própria distorção naquelas paredes. O terninho emprestado da minha melhor amiga pinicava na minha pele suada. O cheiro de amaciante caro que impregnava o tecido não era meu. Nada ali era meu. Ajustei a saia, sentindo o tecido barato esticar. Meus pés queimavam dentro dos saltos arranhados. Cada passo no mármore polido do saguão ecoava como uma batida de martelo, gritando para todos que eu era uma intrusa. Eu sentia o suor frio escorrendo pelas minhas costas, contrastando com o ar-condicionado aristocrático que parecia querer congelar o meu sangue. Entrar ali era um erro. Mas eu já tinha cometido erros piores e sobrevivido. Respirei fundo, sentindo o ar pesado de perfume importado e poder. — Isso é por eles... — sussurrei para o meu próprio reflexo. Pensei nos meus filhos. O motivo de cada noite em claro. De cada humilhação engolida com gosto de bile. Eles eram o meu segredo mais perigoso. Ninguém naquela torre de cristal poderia sonhar com a linhagem que corria nas veias daqueles meninos. Eles nunca poderiam saber quem era o pai. Se o sangue Blackwolf descobrisse a existência deles, a minha vida não valeria um centavo furado. Caminhei em direção à recepção, sentindo as unhas cravarem na bolsa de couro sintético. O saguão estava lotado de lobos em pele de grife. Candidatos com dentes perfeitos e currículos impecáveis me olhavam como se eu fosse um inseto prestes a ser esmagado. — Hannah Beatriz Montenegro. A voz da secretária foi um chicote. Meu estômago deu um solavanco violento. Levantei, ajeitando o cabelo preso às pressas que teimava em soltar algumas mechas rebeldes. O corredor que levava às salas de diretoria parecia um túnel sem fim. As paredes eram de um branco gélido, tão limpas que pareciam estéreis. Eu me sentia nua. Dissecada por mil olhos invisíveis que vigiavam cada movimento meu. Parei diante da porta de madeira pesada. O brasão do lobo entalhado no centro parecia rosnar para mim. Empurrei a maçaneta de metal frio e entrei. O ar lá dentro era diferente. Era denso. Carregado de um magnetismo selvagem que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem instantaneamente. Rubi Montserrat estava sentada à esquerda. Vestido vinho, postura de rainha e um olhar que parecia ler a minha alma através das camadas de mentiras. Mas foi o homem ao lado dela que fez o meu coração parar. Daniel Blackwolf. O cheiro dele me atingiu antes mesmo que ele abrisse a boca. Amadeirado. Selvagem. Letal. Era o cheiro de um predador alfa no topo da cadeia alimentar. Daniel não me olhava. Ele me analisava com uma precisão cirúrgica que me dava náuseas. Senti meus poros dilatarem. Tive a sensação perturbadora de que ele estava farejando o meu medo. Farejando o rastro de vida que eu tentava esconder. — Sente-se, Hannah. — Rubi disse, com uma voz que não aceitava recusas. Meus joelhos quase cederam quando me acomodei na cadeira de couro. — Seu histórico é... interessante. — Rubi folheou os papéis como se estivesse mexendo em uma ferida aberta. Ela falava de "foco" e "coragem". Eu só conseguia pensar no boleto do aluguel vencido e na tosse seca da minha mãe que não me deixava dormir. "Coragem" é o nome que os ricos dão para a falta de opção dos pobres. Daniel permaneceu em silêncio absoluto. Ele se inclinou para frente, os dedos longos batendo ritmicamente na mesa de ébano. O som era o de um coração batendo. Ou de um relógio contando os minutos da minha execução. — Decidimos oferecer o cargo de Assessora Jurídica Júnior. — Rubi disparou, observando minha reação. O ar fugiu dos meus pulmões. Plano de saúde premium. Auxílio escolar. Estabilidade. A salvação para os meus filhos estava a apenas uma assinatura de distância. — Eu... eu aceito. — minha voz saiu rascante, como se eu tivesse engolido vidro. — Há condições, darling. — Daniel falou pela primeira vez. A voz dele era um rosnado baixo, vibrando diretamente nos meus ossos, fazendo cada fibra do meu ser entrar em estado de alerta. Ele deslizou uma pasta preta, pesada, na minha direção. — Nossa espécie não tolera vazamentos. — ele disse, as palavras saindo carregadas de uma ameaça que não precisava ser gritada. Nossa espécie. O estômago virou. O segredo que eu carregava latejou atrás dos meus olhos. Eu sabia exatamente o que acontecia com quem cruzava o caminho de lobos como ele. — Lealdade aqui se paga com a vida. — ele completou, o olhar gélido cravado no meu rosto. Sustentei o olhar dele, mesmo sentindo a minha garganta fechar. — Eu entendo as regras. — respondi, tentando manter a voz firme como aço. — Já convivi com o seu tipo antes. Um pequeno sorriso, c***l e quase imperceptível, curvou o canto dos lábios dele. Peguei a caneta com a mão trêmula e comecei a assinar. Folha após folha. Meu nome se espalhava pelo papel branco como uma mancha de sangue. Eu estava vendendo a minha alma para salvar a minha pele e a dos meus. E faria de novo, se fosse preciso. Quando a última rubrica foi feita, senti um peso absurdo ser removido dos meus ombros. Eu ia conseguir. Mochilas novas. Remédios. Comida na mesa sem precisar contar os centavos. Rubi levantou-se e estendeu a mão. O toque foi firme, selando um pacto que eu sabia ser perigoso. — Bem-vinda à Blackwolf, Hannah. Forcei o meu melhor sorriso, sentindo a esperança florescer em meio ao pântano que era a minha vida. Levantei para sair, ansiosa para respirar o ar impuro da rua, que agora parecia mais doce. — Mais uma coisa, Hannah. — a voz de Daniel me travou no lugar como um tiro. Virei devagar. O coração batia contra as costelas como um bicho encurralado na jaula. O olhar de Daniel não era mais analítico. Era predatório. — É sobre o lugar onde você mora atualmente. O sangue sumiu do meu rosto instantaneamente. A respiração travou no meu peito. — Sobre o Morro da Jaguatira. — ele completou, a voz subitamente gélida. O pânico subiu pela minha espinha. Se eles sabiam onde eu morava, estavam a um passo de descobrir a existência dos meninos. Estavam mais perto da verdade do que qualquer um deveria estar. — Não achou que deixaríamos uma Blackwolf morando em um ninho de ratos, achou? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha. A humilhação queimou no meu peito, misturada com um terror puro e visceral. Nada naquela corporação vinha de graça. Eu percebi ali, sob o olhar de Daniel Blackwolf, que eu não tinha acabado de conseguir um emprego. Eu tinha acabado de colocar uma coleira. E a corrente estava nas mãos de um monstro.
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