(POV HANNAH MONTENEGRO)
Minhas mãos suavam tanto que o contrato entre meus dedos parecia deslizar.
O silêncio na sala de Daniel Blackwolf não era calmo. Era o silêncio de uma floresta antes do bote do predador.
— O que tem o lugar onde eu moro? — forcei a pergunta, a voz saindo mais fina do que eu pretendia.
Daniel e Rubi trocaram um olhar que gelou minha espinha. Um código que eu não conseguia decifrar.
— É um ambiente insalubre para uma funcionária da nossa linhagem — Daniel disparou, a voz vibrando como um trovão baixo nos meus ossos.
Rubi abriu uma pasta. Não eram apenas panfletos. Eram fotos.
Imagens de um condomínio de luxo com vista para o mar. Janelas de vidro do teto ao chão. Segurança armada vinte e quatro horas.
Uma gaiola de ouro.
— Apartamentos funcionais — Rubi explicou, os olhos castanho-avermelhados me fixando com uma precisão cirúrgica. — Piscina, área de recreação, academia. E o mais importante: segurança absoluta.
Engoli a seco. Aquilo cheirava a controle.
— Eu não posso pagar por isso — murmurei, sentindo o peso da minha realidade de favelada me esmagar.
— Você não vai pagar nada, Hannah — Daniel se inclinou, o cheiro amadeirado e selvagem dele invadindo meu espaço pessoal. — Nós cuidamos dos nossos. A mudança será feita amanhã.
Amanhã? A urgência dele me deu náuseas.
Eles não queriam me ajudar. Eles queriam me tirar do Morro da Jaguatira.
Eles queriam me monitorar.
— Eu... eu agradeço — menti, sentindo o suor frio escorrer pelas costas.
Saí da sala atordoada, sentindo o mármore do corredor vibrar sob meus saltos.
Eu precisava chegar em casa. Precisava esconder as certidões de nascimento dos meninos antes que a equipe de mudança da Blackwolf chegasse.
Mas o destino tinha outros planos para o meu coração.
*POW!* 💥
Um estouro rasgou o silêncio do corredor.
Me joguei contra a parede, cobrindo a cabeça, o trauma do morro falando mais alto que a razão.
Confetes coloridos choveram sobre mim.
— Surpresa! — o grito de Babi ecoou, estridente e alegre demais para o meu estado de nervos.
Minha melhor amiga estava lá, cercada por Beth, Johanna e Yara. Champanhe estourando. Risadas.
— Parabéns, amiga! — gritaram em coro.
Eu queria sorrir. Queria abraçá-las. Mas o medo de ser vista com Babi — uma das mulheres mais poderosas da cidade — me paralisou.
Se Daniel percebesse nossa proximidade, ele cavaria mais fundo. E se ele cavasse, encontraria o rastro de sangue e segredos que eu protegia.
— Vocês me assustaram... — sussurrei, o rosto queimando de vergonha sob os olhares dos funcionários que passavam.
— Você merece o mundo, Hannah! — Babi me abraçou, o perfume caro dela me sufocando por um segundo.
Eu estava prestes a pedir para sairmos dali quando o ar da sala simplesmente desapareceu.
Uma voz masculina ecoou atrás de mim. Grave. Rouca. Perigosa.
— Hannah?
O tempo parou.
Cada célula do meu corpo reconheceu aquele tom antes mesmo de eu virar.
Samael.
O homem que eu amei até me transformar em cinzas. O pai que nunca soube que tinha dois herdeiros escondidos em um beco da Jaguatira.
Me virei devagar, sentindo meus joelhos fraquejarem.
Lá estava ele. Os olhos azuis elétricos — a marca registrada dos Blackwolf — me perfurando com uma intensidade que eu não sentia há sete anos.
Ele estava imponente. O terno escuro abraçava os ombros largos. A presença dele era uma força da natureza que exigia submissão.
— Samael... — meu nome saiu como um suspiro de agonia.
Ele deu um passo à frente. O cheiro dele era o mesmo: chuva e perigo.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, a voz carregada de algo que parecia mágoa e fúria contida.
— Ela vai trabalhar aqui! — Babi anunciou, sem notar o abismo que se abria entre nós.
Samael me encarou. O olhar dele desceu para a minha mão, procurando uma aliança, e depois subiu para os meus olhos, buscando a verdade que eu estava disposta a morrer para esconder.
Eu precisava fugir. Agora.
Se ele olhasse por tempo demais, ele veria a si mesmo refletido na minha alma. Ou pior, veria as feições dele nos rostos dos meus filhos.
— Eu preciso ir — tentei me afastar, mas minhas pernas não obedeciam.
— Você desapareceu como se eu fosse nada, Hannah — ele sibilou, a voz tão baixa que era apenas um fio de veneno entre nós. — Você me deve uma explicação de por que me deixou no inferno há dez anos.
O mundo girou. Ele achava que eu o tinha abandonado por vontade própria. Ele não sabia que eu carregava o fruto daquela última noite em dobro nos meus braços.
— Eu não te devo nada, Samael — menti, sentindo meu coração sangrar.
— Veremos — ele respondeu, um sorriso gélido brincando nos lábios. — Agora que você está na minha folha de pagamento, eu tenho todo o tempo do mundo para arrancar a verdade de você.
O "apartamento funcional" de Daniel e o reencontro com Samael não eram coincidências.
Eu tinha acabado de entrar no covil dos lobos. E desta vez, eles tinham as chaves da minha cela.