POV: Jonah Montenegro
O primeiro tiro não me assustou.
Aqui no morro, ninguém se assusta com um tiro só.
O susto vem quando o primeiro é seguido por outros três, quatro, cinquenta — porque aí você não está ouvindo tiro.
Você está ouvindo a intenção.
E a intenção daquela noite era matar.
Eu vi o caveirão e não vi mais nada, só procurei Kauany e Hannah na multidão , Hannah se agarrava em Cauã e achei Kauany agachada no chão se tremendo toda.
— Kauany! — gritei antes mesmo de pensar.
O galpão explodiu em caos. Gente correndo, gente caindo, gente pisando em gente. A música morreu no meio de um grave. O chão tremia. O ar parecia mais pesado.
Eu vi o vulto dela no meio da confusão. Pequena, assustada, cercada por adultos desesperados. Corri sem pensar, abrindo caminho com ombro, braço, corpo inteiro.
— Vem cá! — agarrei ela pela cintura no segundo em que um homem esbarrou nela.
Ela tremia como uma folha no vento.
— Jonah… tem muita gente … eu to com medo… — a voz dela era um fiapo.
— Eu tô aqui. Não solta de mim. Nunca.Bora sair daqui!
Meu olhar varreu o galpão. A fumaça que entrava pela porta aberta parecia anunciar algo pior.
Muito pior.
Foi quando ouvi.
O ronco do Caveirão.
Não era motor. Era sentença.
O BOPE de Costa da Lua tinha subido a p***a do morro.
Puxei o fuzil que eu sempre escondia ali, atrás da caixa de som.
O clique do ferrolho engatando foi mais alto do que qualquer grito.
— Atrás de mim, Kau. Sempre atrás.
E então ele apareceu.
Primeiro os passos.
Depois as sombras.
Depois os fuzis erguidos.
A tropa do Sol n***o.
O BOPE de Costa da Lua.
Máscaras pretas, postura implacável, mira certeira.
E no centro…
o homem que eu nunca quis ver de novo.
Os olhos azuis atravessaram a fumaça como lâmina molhada.
Eu vi ele.
Ele me viu.
E eu soube:
Nathanael não estava ali pra me prender.
Ele tava ali pra me matar.
E não ia descansar até conseguir.
Nathanael Blackwolf.
O Ceifador da Lua.
Meu ex-melhor amigo.
Meu irmão de treino.
O homem que dividiu suor comigo na academia, que correu comigo no sol de 40 graus, que sonhou comigo o mesmo sonho.
A veia no meu pescoço pulsava tão forte que eu ouvi.
— SE ENTREGA, DELACRUZ! — ele rugiu, subindo o tom como se fosse cortar o teto. — ESSE É O TEU FIM!
Eu ri. Um riso nervoso, debochado, quase histérico.
— PREFIRO MORRER, p***a!
— ENTÃO HOJE EU TIRO A TUA VIDA!
Não houve mais conversa.
A gente atirou ao mesmo tempo.
PÁ!
PÁ!
PÁ!
Vidro voou.
Pessoas gritaram.
O mundo virou eco de morte.
Desci do camarote atirando, protegido pela fumaça. Kauany grudou nas minhas costas, os dedos dela enterrados na minha camisa.
Nathanael avançou.
Como sempre avançava: rápido, frio, preciso, predador.
Eu recuava, puxando a menina comigo.
— SOLTA ESSA MULHER E VEM MORRER COMO HOMEM! — ele gritou.
— VAI SE FO.D.ER!
Outra troca de tiros.
O barulho rasgou meus ouvidos.
O galpão virou campo de batalha.
Kauany chorava baixinho, e isso me deixava mais desesperado do que as balas.
De repente, ele parou.
Do nada.
Congelado no meio da fumaça.
Os olhos dele — que antes só tinham ódio — ficaram diferentes.
Abriram.
Reconheceram.
Perceberam.
Kauany.
Ele viu ela colada nas minhas costas.
E Nathanael, o Ceifador da Lua, o homem que atira sem tremer…
não atirava em criança.
— RECUAR! — ele berrou pros homens. — TEM CRIANÇA AQUI! RECUAR AGORA!
Mas o universo não tava a fim de ajudar ninguém naquela noite.
Porque naquele exato segundo…
Juninho correu.
João Henrique da Silva.
Aluno da Hannah.
Menino de 13 anos que fazia reforço com ela.
Que vivia dizendo que seria engenheiro.
Que ficava vermelho quando acertava as contas de matemática.
Ele correu bem no meio entre eu e Nathanael. Nathanael reagiu primeiro e então o tiro que já tinha sido disparado para me atingir — o tiro que Nate não conseguiu parar — acertou o peito do garoto.
— NÃO! — minha garganta rasgou.
O corpo dele dobrou pra frente como se alguém tivesse arrancado o ar do mundo.
A mão sujou de sangue na mesma hora.
Os olhos ficaram perdidos.
Ele tropeçou e caiu de joelhos.
Me joguei no chão pra segurar ele.
— Juninho… olha pra mim, olha pra mim… — eu tremia.
— Tio Jonah … Av… avisa a tia Hannah que… eu fui bem na prova… — ele sussurrou.
O resto da frase não veio.
A vida dele também não.
Kauany chorava baixinho atrás de mim, implorando pra sair dali.
Eu ergui o olhar pro Nathanael.
E vi o impossível.
O Ceifador estava…
chocado.
Sério.
Chocado.
Ele olhou o garoto.
Depois olhou pra mim.
Depois pra Kauany.
O fuzil dele baixou meio palmo.
E então ele GRITOU pros homens dele:
— PARA! PARA TUDO! RECUAR ! CA.RA.LHO!
Mas era tarde.
Muito tarde.
O menino tava morto.
E a culpa ia estourar na mídia.
Ia destruir a operação.
Ia colocar Costa da Lua em guerra com o morro.
Nathanael tirou a máscara.
O rosto suado, o maxilar travado, os olhos azuis ardendo num ódio tão grande que parecia vivo.
— ISSO É TUDO SUA CULPA, DELACRUZ! — ele urrou.
— MINHA? — levantei, puxando Kauany pra trás. — VOCÊ QUE ATIROU, PO.R.RA!
— Eu quis te matar! NÃO ELE! — ele berrou, quase cuspindo raiva. — VOCÊ PUXOU A CRIANÇA PRA GUERRA!
— EU TÔ SALVANDO UMA! — respondi, segurando Kauany. — E VOCÊ ACABOU DE MATAR OUTRA!
O olhar dele escureceu tanto que parecia noite sem lua.
— Eu vou acabar com você. — ele prometeu. — Custe o que custar.
Eu respirei fundo.
— Então vem.
Mas eu sabia que ficar ali era suicídio. Não esperei ele reagir.
Puxei Kauany com força.
— Kai, corre. Agora.
Ela correu comigo pela lateral do galpão, passando por trás das caixas, desviando de gente caída, pulando obstáculo que nem eu entendi de onde surgiu.
A fumaça era tanta que parecia um véu.
E no meio dela…
eu vi Cauã.
Carregando a Hannah nos braços, protegendo ela com o corpo enquanto segurava um fuzil.
Eles fugiam por outra rota.
Os olhos de Cauã encontraram os meus por meio segundo.
Sem palavras.
Sem gesto.
Só promessa.
Só irmão.
Eu virei pra saída.
Antes de sumir, olhei pra trás.
E vi Nathanael parado no meio do galpão destruído.
Máscara na mão.
Fuzil no braço.
Olhos azuis brilhando com a fúria de um homem que perdeu o controle.
Ele me viu fugindo.
E sorriu.
Um sorriso pequeno.
Assustador.
Promessa de que aquilo não terminava ali.
Promessa de guerra.
E eu soube, com cada fibra do meu corpo:
Isso não era o fim.
Era o começo.