POV: Cauã Delacruz
Eu estava escondido.
Num ponto que só quem nasceu ali saberia alcançar. Entre duas lajes, na sombra do concreto gasto, com ferragem exposta e vista aberta pra tudo. Um lugar fora de mapa, mas atento a cada movimento.
Dali, eu enxergava o baile inteiro.
— Não, p***a… isso não…
O ar travou no peito.
Lá embaixo, bem na frente do baile, Hannah estava sendo conduzida em direção a uma viatura. Não tinha algema, não tinha empurrão, mas o jeito dizia tudo. Cercada. Exposta. Errada no lugar errado.
A visão me atravessou seco.
O sangue subiu rápido demais, quente demais. A cabeça ficou leve, a raiva tomou conta antes de qualquer pensamento direito. Dei um passo à frente sem perceber, o corpo reagindo sozinho.
Meu coração inteiro estava ali, descendo o morro sem mim.
E então eu vi quem estava com ela.
Nathanael Blackwolf.
O Ceifador de Costa da lua.
O filho da p**a que só aparecia ali quando alguém não ia voltar pra casa. O tipo de presença que não precisava levantar arma pra avisar o que tinha vindo fazer.
— Não… Hannah — murmurei de novo, sentindo o maxilar travar.
Hannah levantou o rosto no meio da confusão.
Não procurou saída.
Não olhou em volta.
Olhou direto pra onde eu estava.
Hannah levantou o rosto no meio da confusão.
Não procurou saída.
Não chamou por ninguém.
Ela me procurou.
Os olhos dela encontraram os meus na sombra, e o mundo pareceu perder o som por um segundo. O desespero estava todo ali, escancarado nos olhos caramelo esverdeados, arregalados, brilhando de um jeito que doía de ver.
Ela balançou a cabeça.
Devagar.
Com força.
Não vem.
Os lábios dela se mexeram sem som, formando as palavras que ela não podia gritar. Se pudesse, teria berrado pra eu ficar. Pra eu não descer. Pra eu não morrer ali.
Não faça isso. Os lábios delas disseram sem som.
O peito apertou tanto que faltou ar.
Mesmo assim, eu me movi.
Um passo à frente. Depois outro. O corpo indo antes do juízo, o instinto empurrando mais forte que qualquer lógica. Não dava pra ficar parado vendo aquilo.
Ela era meu coração fora do peito.
Ver Hannah ali, exposta, cercada, era como ter algo arrancado de mim e colocado em risco diante de todo mundo. Não existia estratégia que segurasse isso. Não existia pensamento que calasse o impulso.
Ela negou de novo com a cabeça, os olhos marejados, implorando em silêncio.
Mas eu já estava indo.
Porque proteger ela não era escolha.
Era reflexo.
Uma mão forte me puxou de repente.
O corpo reagiu antes da cabeça.
Virei na mesma hora, a Glock já erguida, pronta pra estourar os miolos de quem fosse. O dedo firme no gatilho, o pulso duro, o sangue quente.
Mas era Jonah.
Meu irmão.
Meu braço direito.
— Qual foi, p***a! — ele sussurrou, segurando meu braço com força. — Tu quer morrer aqui agora?
A viatura parou por um segundo lá embaixo. Um dos policiais virou o rosto, desconfiado, varrendo o alto das casas com o olhar.
Jonah me puxou mais pra sombra, colando o corpo no meu, forçando minha arma pra baixo.
— Baixa isso, Cauã. — a voz saiu firme, urgente. — Tá chamando atenção c*****o!
Respirei fundo, tentando puxar o mundo de volta pro lugar. O coração batendo tão forte que parecia denunciar a gente.
Lá embaixo, Hannah foi colocada dentro da viatura.
E eu fiquei ali, travado entre o impulso de descer e a mão do meu irmão me impedindo de morrer.
Jonah apertou meu braço até eu sentir os ossos. Puxou meu corpo pra mais sombra, colou a cara na minha como se fosse me soprar razão na nuca.
— Tu acha que eu não quero meter bala nesse filho da p**a? — ele cuspiu, os dentes rangendo. — Eu também tô no ódio aqui, p***a.
O som veio cortando como faca. Fiquei prestes a falar, a justificar, a descer. A Glock pesava mais que o mundo na minha mão.
— Mas se tu descer agora, ele revida. — Jonah não tirou os olhos da rua lá embaixo. — E se ele revidar… ela pode morrer. Tu quer que ela se machuque ?
A respiração dele saiu curta. Ele era irmão dela antes de ser meu parceiro. Isso eu sabia. Vi a dor estampada no rosto dele, igual à minha.
— c*****o, Jonah… — eu comecei, a voz falhando. — Ela tá ali, mano. Tão tratando ela como criminosa.
Jonah balançou a cabeça rápido, sem drama, como quem corta pensamento r**m:
— Exato. Tão fazendo teatro. — disse rápido. — É provocação. É pra ver qual de nós perde a linha. Se um de nós desce agora, vira caso. Postal. Eles multiplicam isso, vem reforço, invadem casa, levam criança. Não é só nossa vida em jogo. Tem a dela, a Kauanny ,tem a família, as crianças po.
Meu peito apertou ao ouvir Kauany e meus filhos. Pensei na minha família. Pensei em tudo.
— Não quero que tu entenda errado, cunhado. — Jonah falou baixo, quase quebrando. — Eu tô doido pra quebrar a cara daquele filho da p**a. Mas eu quero quebrar a cara dele vivo, não no caixão. Se a gente fizer merda agora, quem volta pra cuidar daqui? Quem segura o morro?
Ele puxou meu queixo, me obrigando a olhar pros olhos dele firmes, molhados de raiva.
— A gente espera. Monta plantão. Passa palavra. Fica cada um na sua posição, Na contenção. — falou caloroso, prático. — Quando a cortina cair, a gente reage. Não agora. Agora, a prioridade é trazer ela de volta inteira. Entendeu?
Por um segundo pensei em desobedecer. Pensei em pular, arrancar a porta do carro, em tirar ela dali. Mas tudo que eu era me dizia que Jonah tinha razão: se eu morresse, quem faria o resto? Quem seguraria o legado? Quem protegeria a quebrada que a gente construiu?
— E se ele tirar ela daqui e sumir com ela, e a gente vai ficar sem reação? — minha voz saiu baixa, afogada.
Jonah sorriu, meio triste, meio feroz.
— Ele não é maluco. — garantiu. — Eles não vão sumir com ela sem motivos assim. E se ele tentar, a gente acha ela. Eu juro por tudo. Ele bateu no meu ombro com força como quem sela um pacto. — Tamo junto, firme.
Fiquei lá, sentindo a mão dele, a promessa firme. A raiva ainda queimava, o medo apertava, mas a cabeça começou a encaixar. Respirei fundo.
— Tá. — falei curto. — Ficar. Plantão. A gente não dá mole.
Jonah assentiu, olhos duros.
— Cê é meu irmão, não vamos se entregar. — ele murmurou. — Agora vamos sustentar.
E seguramos.
Olhei de lado pra Jonah.
Por um segundo, vi Hannah nele. Não só na aparência — no jeito de observar tudo antes de agir, na calma tensa, na cabeça sempre um passo à frente. Jonah era esperto, analítico, inteligente. O tipo de cara que enxergava saída onde o resto só via parede.
Sem ele, eu já teria rodado fazia tempo.
Com ele do meu lado, mesmo naquela merda toda, eu sentia que ainda tinha um caminho. Que, de algum jeito, tudo ia dar certo.
Ou pelo menos… que a gente ia aguentar até lá.
Em minutos, toda a polícia tinha descido o morro, deixando pra trás só o caos m*l resolvido. O baile morreu ali mesmo. O som não voltou. As pessoas foram se espalhando pelos becos enquanto o céu começava a clarear, um azul sujo surgindo por trás dos prédios.
Já era dia.
Eu não consegui me mover.
O corpo travado. A cabeça zunindo. O peito apertado como se alguém tivesse fechado a mão em volta do meu coração.
Chutei a primeira coisa que vi pela frente.
— p***a… aquele maldito… — esfreguei as mãos no rosto com força, sentindo o cansaço bater junto com a raiva.
Eu não presto nem pra defender ela…
O pensamento veio seco, sem drama. A raiva e o orgulho ferido queimaram juntos, como brasa que não apaga.
Balancei a cabeça.
Não.
Não agora.
Não quero pensar em dano nenhum.
Não quero pensar em consequência, em guerra, em depois.
Até ela voltar… segura.
Jonah se aproximou.
— Vamos ficar de plantão até ela voltar.
Assenti devagar.
— Cadê a Kauany? Pergunto.
— Em casa. Segura. Ele responde.
Olhei pro morro acordando aos poucos, gente abrindo porta, criança chorando longe, vida insistindo em continuar como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha.
E eu ia ficar ali.
Esperando.
Esperando por ela.
Rezando, mesmo sem costume, pra que Hannah voltasse inteira. Bem. Respirando. Porque, naquela hora, esperar era tudo que eu podia fazer.
Os pensamentos me corroíam por dentro, queimando lento, como ácido em metal , não explodiam, mas enfraqueciam tudo aos poucos.
E essa era a pior parte.
Não era o medo.
Não era a raiva.
Era saber que, naquele dia claro demais, meu poder não alcançava quem eu mais amava.