Capítulo 18 — A linha cruzada

1244 Words
POV DE SAMAEL A batida na porta veio insistente. Seca. Fora de ritmo. Errada para aquele horário. Abri os olhos no mesmo segundo. — Já vou. A frase m*l saiu da minha boca quando o som explodiu de novo. Ding dong. Batidas fortes. Socos agora. Sem paciência. Sem educação. Sem tempo. Puxei a camisa do encosto da cadeira e enfiei os braços às pressas. Abotoei errado o primeiro botão, xinguei baixo, desfiz, refiz. O corpo funcionava no automático, mas a mente já estava em outro lugar. As batidas continuavam. — Já vai! — repeti, mais alto, atravessando o corredor largo da cobertura. E hoje dia eu estava sozinho. Aurora tinha viajado. De novo. Viagem marcada em cima da hora, malas caras, destinos vazios de significado. Sempre alguma boutique nova, algum spa exclusivo, algum evento inútil que consumia dinheiro e deixava silêncio no lugar. Eu ficava. Sempre ficava. Mais sozinho naquela cobertura de luxo do que deveria estar em um casamento. A cama grande demais. A casa silenciosa demais. A sensação incômoda de que a minha vida estava sempre em pausa enquanto a dela corria — longe. Ding dong. Quando a porta se abriu, era Babi. Ergui uma sobrancelha, surpreso. Babi ali, antes do sol nascer, nunca era coisa boa. — Você não sabe ver a hora, não? — ele resmungou, passando a mão pelo rosto. — Ainda tá de madrugada praticamente. Babi não respondeu. Entrou direto, como se a casa fosse dela. Passos rápidos, decididos demais para alguém que tinha acabado de bater à porta de uma cobertura de luxo antes do sol nascer. Nem olhou em volta. Nem pediu licença. — O seu irmão enlouqueceu de vez! — exclamou, exasperada, largando a bolsa no sofá como quem joga um problema em cima da mesa. Fechei a porta devagar atrás dela. Devagar demais para o que estava começando a se formar dentro de mim. — Parece que ele acorda todo dia pensando em como fazer merda… — Babi disparou, a voz cortada, nervosa. — E hoje ele conseguiu! Piscar foi automático. O maxilar travou. A língua pressionou o céu da boca por um segundo longo demais. “Confusão de família logo cedo, ninguém merece..” Não era o tipo de manhã que eu tinha planejado. — Bom dia pra você também. — respondi, seco. Babi cruzou os braços, a postura fechada, impaciente. — Não tô com paciência pra brincadeiras, Samael. Suspirei, passando a mão pelo rosto. Mas a pergunta era capciosa. Eu já sabia a resposta. De todos os meus irmãos, só um conseguia deixar Babi daquele jeito. Só um tinha o dom de endurecer o olhar dela, travar o maxilar, acender aquela mistura perigosa de raiva e urgência. Nate. Sempre Nate. Então, quando ela não respondeu de imediato, eu apenas esperei. Porque algumas respostas não precisam ser ditas em voz alta. — O i*****l do Nathanael prendeu a Hannah! — Babi disparou, sem fôlego. — Então se veste e vamos lá, porque hoje eu vou dar na cara dele. Ela jogou aquilo em mim como quem arremessa uma granada. E tudo parou. Por um segundo, o mundo ficou mudo. Depois, o sangue ferveu. Subiu rápido demais, quente demais, como se alguém tivesse acendido um incêndio dentro do meu peito. O corpo reagiu antes da cabeça. A coluna se endireitou num reflexo antigo. Os músculos tensionaram. O coração bateu pesado, violento, batendo nas costelas como se quisesse sair. O cansaço evaporou. Os olhos escureceram. Como esse desgraçado ousou fazer isso? Hannah. Logo ela. Não era só uma mulher conduzida. Não era só um nome em uma sala fria. Era Hannah. A única coisa que Nathanael nunca deveria ter tocado. A única linha que ele sabia — desde sempre — que não se cruza. Ele enlouqueceu. Meu maxilar travou com tanta força que doeu. — Como é que é? — perguntei, a voz saindo baixa demais, perigosa demais. A voz de quem não estava pedindo explicação. Estava confirmando uma sentença. — Isso mesmo que você ouviu. — Babi respondeu, já andando pela sala, inquieta demais pra ficar parada. — Ela acabou de me ligar. Da sala dele. Sozinha. Ela tava com medo. Sozinha. Com medo. A palavra bateu mais forte do que qualquer outra. A imagem veio sem pedir permissão: Hannah sentada naquela sala, o ar condicionado no máximo, o silêncio esmagando, Nathanael jogando com o tempo. O meu irmão usando exatamente os truques que aprendeu… comigo. Meu estômago revirou. — Eu vim correndo. — Babi continuou. — Porque se o Nathanael resolveu cruzar essa linha… alguém precisa puxar ele de volta antes que vire coisa pior. O ar da cobertura ficou pesado. Denso. Difícil de respirar. Hannah. Delegacia. Nathanael. As peças se encaixaram rápido demais, com uma clareza c***l. Peguei o paletó quase arrancando do sofá. As mãos estavam quentes. O metal das chaves gelado demais contra a pele. A mente a mil, calculando rotas, consequências — mas uma parte de mim já sabia: não ia ser só conversa. — Então vamos. — falei, já andando em direção à porta. A voz saiu controlada. Fria. Enganosa. — Antes que ele faça algo que seria imperdoável de vez. Porque, se Nate tiver encostado um dedo em Hannah… eu não ia falar quando chegasse lá. Eu hoje esqueço que ele é meu irmão gêmeo . E aquela manhã não terminaria bem pra ninguém. Eu e Babi entramos no elevador. Ela estava inquieta. Os olhos heterocromáticos denunciavam tudo: um verde intenso, o outro caramelo quase amarelo, sempre vivos demais para fingir calma. O cabelo castanho caía solto, com mechas loiras misturadas aos fios, claramente desalinhado. Pressa pura. A pele bronzeada, a beleza de vitrine — daquelas que davam dinheiro, passarela, contrato. Babi já tinha trabalhado como modelo. E ainda assim, não era o tipo de beleza normal. Era presença. Era enigmática. Até eu já tinha tido uma queda. Quem não teria? A roupa não combinava. Primeira que viu, sem pensar. O dia ainda nem tinha começado e ela já estava em guerra. O elevador descia rápido demais. E ainda assim, não rápido o suficiente. Entramos no Range Rover Vogue preto, o primeiro que vi. Grande, pesado, espaçoso — feito pra impor presença. Babi jogou a bolsa no banco do passageiro enquanto eu assumia o volante sem pensar. O banco de couro cedeu sob o peso do meu corpo. Minhas mãos fecharam no volante com força demais. O motor respondeu grave, contido, como um animal preso. Cada segundo ali dentro era uma tortura. O peito apertava. A respiração vinha curta. A raiva queimava constante, subindo quente pelo corpo inteiro. A cidade passava rápido do lado de fora, ruas vazias, faróis borrados — mas, pra mim, tudo estava lento demais. A mente corria, mas uma imagem não saía do lugar: Hannah naquela sala. O ar gelado. O relógio na parede. O silêncio esmagando. Nathanael. Ele cruzou a linha. Quando o carro parou em frente à delegacia, desci antes mesmo do motor esfriar. Passos apressados. Portas se abrindo. Olhares virando. E então eu vi. Nathanael. Postura impecável. Farda alinhada. Calmo demais para a tempestade que tinha provocado. Nossos olhares se encontraram. Ele sorriu. Foi ali. Tudo ficou vermelho. O sangue rugiu nos ouvidos, a visão estreitou, o mundo reduziu a um único ponto. Não havia som. Não havia freio. — SAMAEL! — Babi gritou atrás de mim. Eu não ouvi. Porque, naquele instante, não existia mais ninguém além dele. E eu avancei. E nem o inferno inteiro ia me parar.
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