POV: Hannah Beatriz Montenegro
Ele me conduziu pela delegacia.
Sem tocar em mim.
Sem pressa.
Como quem já tinha decidido que eu não ia sair dali tão cedo.
O corredor era estreito, iluminado demais. O som das botas dele batendo no chão ecoava seco, calculado. Gente passando rápido, vozes baixas, teclados batendo, o barulho distante de uma impressora cuspindo papel. Olhares curiosos que vinham e iam como lâminas rápidas, afiadas, curiosidade misturada com julgamento.
Aquela não era a primeira vez que eu andava ao lado de Nathanael por um corredor.
Mas era a primeira em que eu sentia que cada passo nos afastava irreversivelmente de quem já fomos.
Ele abriu uma porta de vidro fosco e indicou com o queixo.
— Senta aí.
A sala era grande.
Grande de um jeito calculado.
Nada ali era exagerado, mas tudo gritava poder. Mesa larga de madeira escura, polida demais. Cadeiras confortáveis demais para um lugar onde ninguém deveria relaxar. Uma estante discreta com pastas organizadas por cor. Um relógio de parede moderno, minimalista, sem números.
Tic.
Tac.
O som era baixo, mas constante.
Como se fosse feito para incomodar.
Ele me colocou sentada de um lado.
Depois deu a volta.
Sentou do outro.
De frente pra mim.
O ar condicionado estava no máximo. Frio demais. O tipo de frio que não refresca, entra por baixo da pele, se instala nos ossos. Um arrepio subiu lento pela minha espinha. Cruzei os braços, tentando parecer confortável.
Não estava.
Ele percebeu.
Sempre percebeu.
— Confortável? — perguntou, com um meio sorriso que não tinha nada de gentil.
— Não é esse o objetivo de uma sala de interrogatório. — respondi.
— Isso aqui não é um interrogatório. Ainda.
A palavra ficou suspensa no ar.
Ainda.
O silêncio se instalou pesado. Não era ausência de som. Era excesso de coisa não dita. O barulho da delegacia parecia distante, como se aquela sala estivesse isolada do mundo.
Tic.
Tac.
— Nunca imaginei te ver sentada aí. — Nathanael disse, finalmente.
A voz não era agressiva. Também não era gentil. Era neutra demais para quem me conhecia tão bem.
— Nem eu imaginei te ver desse lado da mesa. — respondi.
Os olhos azuis me estudaram com atenção. Não como investigador. Como alguém que lembrava de mim sentada em outras mesas, outros lugares, outros sonhos.
— Você sabe por que está aqui, Hannah.
— Sei. — falei. — E você sabe até onde pode ir, Nathanael.
Um canto da boca dele se mexeu. Não chegou a ser um sorriso.
— Continua afiada.
— E você continua achando que sabe de tudo.
Ele abriu uma pasta devagar. Sempre gostou de controlar o ritmo, de deixar o outro esperando a próxima pancada.
— Hannah Beatriz Montenegro. — leu. — Professora voluntária na comunidade. Estudante de Direito 7 período. E Casada com Cauã Delacruz.
Meu estômago apertou.
— Conhecido como o dono do Morro da Jaguatira. — ele completou, levantando os olhos. — O Chacal.
Não respondi.
O tic-tac do relógio ficou mais alto na minha cabeça. Minha perna balançava de forma frenética.
— E irmã de Jonah Montenegro. — acrescentou. — Braço direito do dono do morro , outro nome recorrente nos nossos relatórios.
Respirei fundo antes de responder e cruzei os braços antes de responder. O ar gelado arranhou o peito.
— Vínculo familiar não configura crime. — falei. — Você aprendeu isso comigo.
Ele levantou os olhos da pasta.
— Eu sei. — disse. — Mas também sei que vínculo cria contexto.
— Contexto não é a mesma coisa que prova.
— Mas justifica interesse.
O frio parecia mais intenso agora. Apoiei as mãos na mesa para não demonstrar o leve tremor nos dedos.
— Você estava em um local conhecido por atividade criminosa. — Nathanael continuou. — Baile sob domínio do tráfico. Operação em curso. Isso justifica sua condução.
Assenti devagar.
— Justifica a abordagem. — corrigi. — Não a imputação de culpa. Nem uma retenção indefinida.
— Ninguém falou em culpa. — ele rebateu. — Ainda.
Aquela palavra caiu pesada entre nós. De novo.
Ainda.
Tic.
Tac.
— Então vamos alinhar. — falei. — Se isso não é um interrogatório formal, eu não sou obrigada a responder perguntas que extrapolem a abordagem.
— Sempre gostou de alinhar tudo. — ele comentou. — Lembro disso.
— Lembra de muita coisa. — respondi. — Só esqueceu o essencial.
— E o que seria o essencial?
— Que eu nunca fui ingênua!
Os olhos dele escureceram levemente.
— Você não se comportou como alguém comum essa noite. — disse. — Não gritou. Não correu. Não implorou, parecia alguém bem à vontade.
— Porque nada disso mudaria o procedimento.
— Mudaria. — ele rebateu. — Pessoas desesperadas erram.
— Ou talvez eu só tenha aprendido a não errar na frente de quem espera isso.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços. A postura relaxada contrastava com o peso da sala.
— O morro ficou quieto quando você saiu.
O ar frio atravessou o peito como lâmina.
— O morro ficou com medo. — respondi. — Medo não é coordenação.
— Quieto demais pra ser só medo.
— Interpretação sua.
— Leitura de território.
— Leitura não é prova.
O silêncio voltou a se esticar entre nós.
Tic.
Tac.
Meu olhar percorreu a sala sem querer. A mesa impecável. A cadeira dele mais confortável que a minha. Um porta-retratos virado para baixo, como se o passado ali não fosse permitido. Tudo naquele espaço falava de controle. De alguém que construiu o lugar para nunca ser surpreendido.
— Você convive diariamente com pessoas investigadas. — Nathanael disse. — Isso torna seu conhecimento relevante.
— Convivência não implica ciência. — respondi. — Nem participação.
— Mas implica proximidade.
— Proximidade não autoriza coação.
Ele se levantou.
Deu a volta na mesa devagar. Cada passo parecia medido. Parou atrás de mim. Perto demais. O cheiro dele veio antes da voz. Limpo. Forte. Familiar demais para a situação.
Meu corpo reagiu antes da cabeça. Ombros tensos. Respiração contida.
— Você sabe o que acontece quando alguém tenta se esconder atrás da lei? — perguntou, baixo.
— A lei existe pra impedir abusos de autoridade. — falei. — Inclusive o seu.
Ele ficou ali mais um segundo. Depois voltou para a cadeira.
Sentou.
— Você é inteligente, Hannah. — disse. — Sempre foi, gosto disso.
— Então haja como alguém inteligente também, Nathanael.
O olhar dele me segurou por alguns segundos longos demais. Ele suspira fundo e depois fala:
— Você não vai sair agora.
Meu estômago afundou.
— Então formaliza. — falei. — Ou me libera.
— Não. — ele respondeu. Simples. — Ainda não.
Tic.
Tac.
O relógio parecia zombar.
Cruzo os braços e ergo o queixo para ele.
— Quero fazer uma ligação. — falei.
Os olhos dele se estreitaram.
— Pra quem?
— Isso não te diz respeito.
Ele me avaliou em silêncio. Calculando. Não como homem. Como estrategista.
— Uma ligação. — disse, por fim. — Cinco minutos.
Levantou-se.
— Não demore. — completou. — Eu volto logo.
Ele saiu.
A porta se fechou atrás dele com um clique seco.
Fiquei sozinha.
O silêncio agora era outro. Mais pesado. Mais íntimo. O frio pareceu aumentar sem o corpo dele ali. O tic-tac do relógio preenchia tudo.
Tic.
Tac.
Peguei o celular. A tela acendeu clara demais naquele ambiente frio.
Meu primeiro pensamento foi Cauã.
Não.
Ele já estava no limite. Qualquer ligação minha agora só empurraria tudo para o lado errado. Sangue errado.
Jonah.
Não.
Ele reagiria antes de pensar. Sempre reagiu.
Minha mãe.
Não.
Ela se quebraria. Tentaria vir. Se colocaria em risco.
Fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo.
Quem entende o jogo.
Quem não age por impulso.
Quem sabe exatamente até onde a lei vai…
e onde ela deixa de ir.
Meu peito apertou.
Eu sabia.
Desbloqueei o celular.
Disquei o número de memória.
A chamada começou a chamar.
Tic.
Tac.
E o silêncio ficou insuportável.
Apertei o celular com força.
O tempo esticou.
E eu pensei, sem voz, sem orgulho, sem estratégia nenhuma sobrando:
“Por favor… atenda.”