POV: Samael Blackwolf
Inclinei meu corpo sobre o dela, esticando o braço para alcançar a fivela do cinto de segurança que ela estava com dificuldade de achar.
— você está nervosa… – eu murmuro analisando ela. Não era uma pergunta.
O movimento deveria ser rápido. Impessoal. Apenas uma medida de segurança automática de quem dirige.
Mas o espaço dentro do carro era pequeno demais para nós dois.
Quando puxei a tira de nylon, meu braço roçou no ombro dela. O clique da trava ecoou alto, definitivo, como se trancasse nós dois numa realidade paralela.
Então eu desço o olhar.
Devagar.
Paro nos lábios dela.
A respiração dela falha sinto a a******a.
— Honey…? — eu sussurro.
O clique do cinto ecoou alto demais dentro do carro.
Eu ainda estava inclinado sobre ela.
E sabia disso.
Sabia que já tinha tempo demais para me afastar e não me afastei.
— Sam… — ela sussurrou.
Meu nome saiu da boca dela do jeito antigo. Do jeito que só existia quando éramos jovens demais para entender o tamanho das consequências.
Meu coração disparou.
Eu tava perto demais para fingir que era só cuidado.
Perto demais para mentir para mim mesmo.
O cheiro de Hannah me atingiu de uma vez quente, familiar, antigo. Como se meu corpo lembrasse antes da cabeça ter tempo de reagir. A respiração dela acelerou. Eu senti. Sempre senti.
Ela não se afastou.
E isso foi o que me desmontou.
Por alguns segundos perigosos, ela permitiu o toque. Não como decisão. Como memória. Como quem esquece, por um instante, tudo o que veio depois.
Meus olhos encontraram os dela. Castanhos caramelados, atentos, queimando daquele jeito silencioso que sempre me puxou para perto.
“Sai daí, Samael. Recua. Agora.”
Mas eu não obedeci.
Aproximei o rosto devagar. Sem urgência. Sem ataque. Como no primeiro beijo. Como se qualquer pressa pudesse quebrar algo frágil demais.
Nossos lábios se tocaram.
O contato foi imediato e avassalador. A boca dela cedeu sob a minha, quente e convidativa. Senti o gosto dela, aquele sabor que era minha perdição, invadir meus sentidos. Meu corpo inteiro acendeu quando minha língua deslizou para encontrar a dela que respondeu a minha, aprofundei o beijo com uma urgência desesperada.
Então, ela recuou.
O afastamento foi um choque físico. Ela se soltou dos meus braços, a respiração entrecortada e o rosto corado.
— Não… — disse ela, erguendo uma barreira invisível entre nós. — Não deveríamos.
Engoli em seco, sentindo o gosto dela na minha boca — fraco demais para saciar, forte demais para esquecer.
Ao meu lado, senti Hannah se recompor. Ela respirou fundo, os ombros ficando rígidos, erguendo novamente as barreiras que eu tinha acabado de derrubar.
— Você é casado… — disse ela, encarando as próprias mãos. — É complicado. Não é certo.
A frase não soou como uma acusação, mas como uma sentença. O peso daquelas palavras abafou o impulso que ainda queimava em mim. Passei a mão pelo rosto, tentando esfriar a cabeça, lutando contra a vontade insana de ignorar o mundo lá fora e ficar naquele carro com ela. Mas o mundo existia. E ele cobrava seu preço.
— Você tem razão. — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — Eu perdi a cabeça… Me desculpa.
O silêncio dela foi a pior resposta. Hannah virou o rosto para o vidro escuro, buscando uma paisagem que eu não podia ver. A atmosfera no carro mudou, tornando-se fria e estranha, onde antes havia apenas calor e cheiro de pele.
— Vamos… — falei, tentando retomar o controle da situação. — Você deve estar cansada.
Ela assentiu, muda. Liguei o carro. O motor roncou baixo e estável, um contraste c***l com a bagunça dentro de nós. O silêncio que nos acompanhou no caminho não era vazio; era pesado, cheio de coisas que não podíamos dizer e de sentimentos que, eu sabia, não iriam embora tão cedo.
O trajeto até o pé do morro foi preenchido por um silêncio denso, carregado de tudo o que a gente não teve coragem de dizer.
Quando estacionei, puxei o freio de mão, mas meus dedos continuaram travados ali, recusando-se a deixá-la ir. Hannah hesitou antes de falar, a voz suave quebrando a tensão do carro:
— Obrigada. Por hoje. Por ter me defendido do Nathanael.
Olhei para ela, tentando manter uma máscara de controle que eu não sentia por dentro.
— Fiz o que era certo — respondi, rouco. Então, a mão dela cobriu a minha sobre o câmbio. O toque foi simples, mas o calor da pele dela me atravessou como uma descarga elétrica.
Ela se inclinou devagar e, quando os lábios roçaram minha bochecha, o contato durou segundos demais para ser apenas gratidão.
“Não faz isso… se você continuar, eu não vou conseguir te deixar sair desse carro.”
Meu coração disparou, batendo contra as costelas com a força de uma memória antiga, de quando eu tinha vinte anos e o mundo era só nós dois. Hannah se afastou com a respiração alterada, abriu a porta e desceu, levando todo o oxigênio do ambiente com ela. Com um sorriso triste nos lábios, ela se despediu:
— A gente se vê no escritório. Tchau, Sam.
Ela se virou e começou a subir a rua íngreme.
Fiquei paralisado, assistindo a figura dela se misturar ao cenário do morro, sentindo o gosto amargo da perda.
Foi quando a atmosfera mudou. Cauã surgiu das sombras.
O índio maldito apareceu do nada, a postura rígida, a carranca fechada de quem estava pronto para a guerra, caminhando direto para ela.
Ele falou algo ríspido que fez Hannah travar no lugar, o corpo dela reagindo com um medo ou tensão que fez meu sangue ferver instantaneamente.
E então, os olhos escuros dele subiram e encontraram os meus através do para-brisa.
Havia desafio ali. Havia posse.
“Tira a p***a dos olhos dela.”
Algo dentro de mim rosnou, primitivo e violento, abafando qualquer resquício de razão. Sem pensar duas vezes, chutei a porta do carro e desci, batendo-a com força atrás de mim.
Comecei a marchar na direção deles, ignorando o perigo, ignorando o morro, focado apenas na ameaça nos olhos dele.
Fosse o que fosse que ele estivesse dizendo, eu não ia ficar parado assistindo.