A Máscara da Invisibilidade
(POV de Lyra)
Três dias. Era tudo o que me separava da fornalha ou do leilão de sangue.
Eu estava sentada no chão frio de pedra da cela número quatorze, no subsolo do Santuário. O ar cheirava a mofo antigo, medo úmido e o doce enjoativo de feromônios de ômega em pânico. Mantive os ombros curvados, a respiração rasa e os olhos fixos nas minhas próprias mãos trêmulas. A máscara da invisibilidade. A máscara da ômega defeituosa. Era a única armadura que eu possuía.
Do outro lado da parede de pedra, um grito agudo cortou o silêncio do corredor. Era a garota da cela treze. Ela estava sendo arrastada. O som de unhas raspando na pedra e o rosnado gutural de um herege me disseram tudo o que eu precisava saber. Eles não estavam apenas a levando para o leilão. Estavam a levando para o abatedouro. O cheiro de ferro e cinza que invadiu o corredor confirmou o destino dela.
Fechei os olhos e forcei meu coração a desacelerar. O instinto do meu lobo interior, uma criatura de prata e sombras que eu mantinha acorrentada há anos, arranhou a porta da minha mente, uivando para que eu agisse. Eu a ignorei. Se eu me movesse agora, se eu deixasse a fera sair, eles saberiam o que eu era. E uma Luna Nascida não sobrevive aos vinte anos nas mãos de Lorde Malakai. Ela vira cinzas antes do primeiro uivo.
Ouvi o som de botas pesadas se aproximando da minha porta. O guarda.
A porta de ferro rangeu ao ser aberta. A luz fraca do corredor invadiu minha cela, cortando a escuridão como uma lâmina cega.
Levantei o rosto devagar, deixando que o medo tomasse conta dos meus olhos. O guarda, um beta de rosto cicatrizado, me olhou com nojo.
— Levante, defeituosa. O Soberano está fazendo uma inspeção no pátio. Todas as ômegas precisam ser alinhadas.
Meu estômago gelou. O Soberano. Kaelen Vane. O Apex. O único alfa capaz de suportar a mente de milhares de lobos sem enlouquecer. Diziam que ele era um tirano feito de cicatrizes e violência, um carcereiro que mantinha o império à beira do abismo através de pura força de vontade. Diziam que ele devorava inimigos com as próprias mãos.
Engoli em seco e me levantei, tropeçando de propósito.
— Deixe-me ajudar você — o beta zombou, agarrando meu braço com força suficiente para deixar hematomas.
Não reagi. Apenas deixei que ele me arrastasse para o corredor, fingindo que meus joelhos cediam ao peso da fraqueza. Cada passo era calculado. Cada respiração era medida. Eu precisava parecer quebrada. Eu precisava parecer inútil.
O pátio do Santuário estava banhado por uma luz cinzenta e fria. Dezenas de ômegas estavam alinhadas, tremendo em seus vestidos finos de linho. O cheiro de terror no ar era tão espesso que eu podia senti-lo na língua, um gosto metálico e azedo. A umidade da manhã grudava na pele, mas o frio que eu sentia vinha de dentro.
Fiquei na última fileira, encolhendo os ombros para parecer ainda menor do que eu era. Meus dedos roçaram a pele da minha coxa, onde as adagas de osso estavam amarradas sob o tecido. A única coisa que eu levaria para a cova.
O silêncio caiu sobre o pátio como uma guilhotina.
Não ouvi passos. Não ouvi ordens. Apenas senti a mudança na pressão do ar. A temperatura despencou, congelando o suor na minha nuca e fazendo meus cílios tremerem.
Então, o cheiro me atingiu.
Não era o cheiro de um alfa comum. Não era madeira, almíscar ou terra. Era chuva pesada, ozônio e sangue velho. Era o cheiro de uma tempestade que havia matado exércitos. Meu lobo interior não apenas uivou; ele se encolheu no fundo da minha mente, tremendo em uma submissão absoluta e aterrorizada. As correntes mentais que eu usava para contê-lo rangiam sob o peso daquela presença.
Abri os olhos lentamente.
No centro do pátio, as outras ômegas estavam de joelhos, a testa tocando o chão de pedra. Mas eu não conseguia olhar para o chão. Meus olhos estavam presos na figura alta que caminhava lentamente entre as fileiras.
Kaelen Vane.
Ele era mais alto do que as lendas diziam. Vestia preto dos ombros aos pés, o couro gasto pelo combate, mas a postura era a de um rei entediado. Seu rosto era uma máscara de frieza absoluta, com mandíbula travada e olhos que varriam o pátio como se procurasse uma falha na armadura do mundo. Ele não andava. Ele caçava.
Ele parou ao lado de uma ômega loira. O lobo dela estava em pânico, o cheiro de doce de leite azedo pelo medo. Kaelen nem sequer olhou para ela. Ele apenas respirou fundo, como se o ar ali o enojasse, e continuou andando.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. Forcei meus pulmões a se expandirem em um ritmo lento. Eu sou defeituosa. Eu não tenho cheiro. Eu sou invisível.
A sombra dele caiu sobre mim.
Parei de respirar. O cheiro de ozônio e sangue velho era tão forte que me deu tontura. Meu instinto gritava para que eu corresse, para que eu sacasse as adagas e lutasse, mas a biologia me traía. Meu corpo, traindo anos de condicionamento, começou a exalar um cheiro que eu não sentia desde a infância. Oceano e ozônio. O cheiro de uma Luna Nascida em pânico.
Tentei suprimi-lo, fechando a mente, mas era tarde demais. O vínculo psíquico do lugar já havia captado a frequência errada.
Kaelen parou bem na minha frente.
Ele não disse nada. O silêncio dele era mais ensurdecedor que um grito. Lentamente, ele estendeu a mão enluvada de couro n***o. Os dedos frios roçaram meu queixo, e ele ergueu meu rosto.
Quando meus olhos encontraram os dele, o ar fugiu dos meus pulmões. Os olhos dele, que as lendas diziam ser castanhos como a terra, estavam transbordando para um vermelho sangue, as pupilas dilatadas em fendas de predador. A dor crônica dele vazava pelo ar, uma pressão pesada que fazia meus dentes doerem.
Ele inclinou a cabeça, aproximando o rosto do meu pescoço. Senti o calor irradiando do corpo dele, uma fornalha contida por pura força de vontade. O couro da luva raspou minha pele, deixando um rastro gelado que minha pele jurou ser fogo.
Ele inalou profundamente, e eu senti o vínculo mental dele roçar o meu, uma parede de espinhos e loucura contida que quase me fez chorar. Não era apenas um alfa. Era uma catástrofe caminhando.
Kaelen se afastou apenas o suficiente para olhar nos meus olhos. A voz dele, quando finalmente veio, foi um rosnado baixo e rouco que vibrou diretamente nos meus ossos.
— Você não tem cheiro de ômega, pequena mentirosa — ele sussurrou, os olhos vermelhos queimando com uma promessa de ruína. — Você tem cheiro de minha perdição.