Quando eu subi a última parte da ladeira até minha casa, o céu já estava mudando de cor. O fim de tarde no Coroa n***a sempre vem rápido — um dourado forte que vira laranja e depois sombra. Eu destranquei o portão devagar, sem fazer barulho. Não sei por quê. Talvez porque eu já estivesse acostumado a entrar em silêncio. Talvez porque, no fundo, eu quisesse preservar aquela paz que eu deixei mais cedo. Antes de sair de manhã, eu disse pra ela que podia ficar. — Fica à vontade. A casa é segura. Ela tinha assentido com aquele jeito meio desconfiado, como quem ainda não acredita totalmente na própria sorte. Eu empurrei a porta da sala e entrei. E ali estava ela. Marcela estava dormindo no sofá. O corpo de lado, uma perna levemente dobrada, os pés descalços apoiados na almofada. Ela usav

