Lorenzo Crakauer🏈
O treino finalmente terminou.
O que normalmente significava uma coisa muito simples:
Ir para casa.
Tomar banho.
Comer.
Dormir.
Mas aparentemente a vida tinha decidido complicar até os finais de treino.
Os jogadores começaram a sair do campo.
As líderes também.
Aos poucos os grupos foram se misturando perto das arquibancadas e dos armários externos.
Eu estava guardando algumas coisas quando ouvi alguém me chamar.
— Lorenzo!
Levantei a cabeça.
Uma das líderes.
Depois outra.
E mais algumas.
Claro.
Muito normal.
Principalmente depois de uma vitória estadual.
— Você vai na festa da Cheryl?
— Ainda não sei.
— Como assim não sabe?
— Porque aparentemente minha presença foi confirmada sem minha autorização.
Elas começaram a rir exageradamente.
— Isso é tão Cheryl.
— Concordo.
— Você vai acabar indo.
— Essa parece ser a opinião de todo mundo.
— Porque é verdade.
Suspirei dramaticamente.
— Eu sinto que perdi meus direitos civis.
Mais risadas.
Uma delas tocou meu braço.
Outra comentou sobre a final.
Outra elogiou uma jogada específica.
E eu conversava normalmente.
Porque sempre foi assim.
Eu não era i****a.
Percebia os olhares.
Percebia os sorrisos.
Percebia quando uma garota arrumava o cabelo antes de falar comigo.
Ou quando encontrava desculpas para prolongar uma conversa.
Eu sempre percebi.
Desde os quinze anos.
E seria mentira dizer que odiava isso.
Qualquer garoto que dissesse que não gostava de receber atenção provavelmente estaria mentindo.
Eu gostava.
Era bom ser admirado.
Era bom ouvir elogios.
Era bom sentir que as pessoas gostavam de você.
Nada de errado nisso.
Só que...
Ultimamente aquilo parecia menos interessante do que costumava ser.
Não sabia exatamente por quê.
Talvez porque tivesse virado rotina.
Talvez porque eu já soubesse exatamente como aquelas conversas terminavam.
Ou talvez por outro motivo.
Foi então que uma movimentação chamou minha atenção.
Do outro lado das arquibancadas.
Bella.
Finalmente.
Ela apareceu.
E imediatamente percebi que alguma coisa estava errada.
Porque Bella parecia... Mais irritada? c*****o.
O maxilar estava travado.
Os braços cruzados.
Os passos rápidos.
Ela vinha andando como alguém que tinha acabado de perder a paciência.
— Lorenzo?
Nem ouvi quem falou.
Porque estava olhando para Bella.
Ela passou pelas arquibancadas.
Passou pelas líderes.
Passou pelos jogadores.
Passou por todo mundo.
Sem parar.
Sem sorrir.
Sem conversar.
Sem olhar para ninguém.
Nem para mim, merda isso me incomodou.
Chegou ao banco onde tinha deixado suas coisas.
Pegou a mochila.
Jogou a alça no ombro.
E continuou andando.
Simples assim.
Sumiu.
Como uma tempestade loira..deliciosa e extremamente irritada.
Fiquei observando por alguns segundos.
Até ela desaparecer completamente.
— Certo.
Olhei para o grupo ao meu redor.
— O que aconteceu com ela meninas ?
As meninas trocaram olhares.
Ah.
Então elas sabiam.
Interessante.
— Cheryl.
Claro.
— O que Cheryl fez?
Uma delas fez uma careta.
— Insistiu na festa, tipo..muito.
Outra completou.
— Muito.
— Muito mesmo.
— Bella odeia festas.
Pisquei.
— Odeia?
— Odeia.
— Tipo... odeia mesmo.
— Tipo vai embora depois de uma hora.
— Ou nem aparece.
— Ou tenta inventar desculpas para faltar.
Fiquei em silêncio.
Porque isso explicava muita coisa.
Muito mais do que eu imaginava.
A cantina.
A reação dela.
A discussão no treino.
Tudo.
Uma das meninas suspirou.
— Ela vai acabar indo.
— Vai?
— Vai.
— Porque Cheryl não desiste.
— Nunca.
Todas concordaram imediatamente.
O que parecia preocupante.
Muito preocupante.
Olhei novamente para ela sumindo da minha vista.
Pensando em Bella praticamente fugindo da escola.
Então uma ideia me ocorreu.
— Espera.
Todas olharam para mim.
— Vocês estão me dizendo que a capitã das líderes de torcida...
— Sim.
— Uma das pessoas mais populares da escola...
— Sim.
— Não gosta de festas?
— Sim.
— Nem um pouco?
— Nem um pouco.
Isso era tão inesperado que me fez rir.
Porque de todas as teorias que eu tinha criado sobre Bella Vernôn...
Nenhuma incluía ela odiando exatamente o tipo de evento que o resto da escola parecia viver esperando.
— Interessante.
— O quê?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Mas enquanto me despedia e seguia para o estacionamento, uma imagem continuava voltando à minha cabeça.
Bella atravessando o campo.
Irritada.
Pegando a mochila.
E desaparecendo sem olhar para ninguém.
Como se estivesse fugindo de alguma coisa.
Ou de alguém.
E, pela primeira vez, fiquei genuinamente curioso para descobrir o motivo.
Bella Vernôn🌻
Eu estava irritada.
Não.
Irritada era pouco.
Eu estava furiosa.
O que era raro.
Muito raro.
Porque normalmente eu era paciente.
Controlada.
Educada.
Mas Cheryl tinha conseguido realizar um verdadeiro milagre.
Ela tinha acabado com a minha paciência.
— Você precisa relaxar.
A voz dela ainda ecoava na minha cabeça.
— Vai ser divertido.
— Todo mundo quer vocês lá.
— Você e Lorenzo são os capitães, todo mundo vai onde vocês estão.
— A escola inteira está animada.
Meu Deus.
Como se isso fosse ajudar.
Era exatamente o problema.
Quanto mais pessoas envolvidas.
Mais vontade eu tinha de desaparecer.
Atravessei o estacionamento praticamente marchando.
Não olhei para ninguém.
Não respondi acenos.
Não respondi despedidas.
Nada.
Só queria chegar ao carro.
Entrar.
E ir embora.
Abri a porta.
Joguei a mochila no banco do passageiro.
Entrei.
E bati a porta.
Forte.
Muito forte.
O carro inteiro pareceu tremer.
— Ótimo.
Murmurei.
Cruzei os braços.
Encostei a cabeça no banco.
E fechei os olhos.
Respira.
Só respira.
Não era o fim do mundo.
Era só uma festa.
Uma festa completamente desnecessária.
Uma festa cheia de pessoas.
Uma festa onde provavelmente toda a escola apareceria.
Uma festa que eu não queria frequentar.
Uma festa que aparentemente eu já tinha confirmado presença sem saber.
Maravilhoso.
Respira.
Um.
Dois.
Três.
TOC TOC.
Quase pulei do banco.
— AÍ MERDA!
Abri os olhos imediatamente.
Meu coração disparado.
Levei um segundo para perceber que alguém tinha batido na janela.
Outro segundo para virar o rosto.
E um terceiro para querer desaparecer.
Porque era Lorenzo.
Claro que era.
Claro.
Claro.
Claro.
Por que não seria?
Fechei os olhos por um instante.
Droga.
Ele provavelmente tinha visto.
A porta.
A batida.
Minha crise silenciosa.
Perfeito.
Simplesmente perfeito.
Suspirei.
E abaixei o vidro da janela.
— Oi.
Lorenzo apoiou um braço na porta.
Um sorriso claramente divertido tentando escapar.
— Oi.
— O que foi?
— Nada.
— Lorenzo.
— Nada, sério.
— Aí Lorenzo nã—
Ele finalmente perdeu a batalha contra o sorriso.
— Você quase declarou guerra ao seu carro.
Fechei os olhos.
— Ótimo.
— Eu ouvi daqui.
— Melhor ainda.
— Foi impressionante.
— Obrigada, estou lisonjeada.
— Acho que a porta perdeu.
— Eu também acho.
Ele riu.
E a pior parte?
A pior parte era que eu quase ri também.
Quase.
— Dia r**m?
Suspirei.
— Cheryl.
A compreensão apareceu imediatamente no rosto dele.
— Ah.
— Exatamente.
— Então era isso.
Franzi a testa.
— Era isso o quê?
— Você parecia pronta para cometer um crime depois do treino.
Fiquei encarando ele.
— Eu parecia tão r**m assim?
— Um pouco.
— Ótimo.
— Você passou por todo mundo como um furacão.
Gemido interno.
Perfeito.
Absolutamente perfeito.
— Eu estava irritada.
— Eu percebi.
— Ela não para de falar daquela festa.
— Eu percebi isso também.
Pela primeira vez ele pareceu genuinamente cansado.
— Acho que metade da escola falou comigo sobre essa festa hoje.
— Só metade, Lorenzo?
— Talvez três quartos.
Aquilo me arrancou uma risada.
Pequena.
Mas ainda assim uma risada.
Lorenzo sorriu.
E por um instante a irritação diminuiu.
Só um pouco.
— Você realmente odeia festas?
Lá estava.
A pergunta.
Cruzei os braços.
— Elas são barulhentas.
— Justo.
— Cheias de gente.
— Justo.
— E cheias de pessoas tentando me convencer de que estou me divertindo.
— Isso é muito específico.
— Porque é verdade.
Ele riu.
De novo.
E eu odiei o fato de gostar daquele som.
— Então você não vai?
Olhei para ele.
Por um segundo.
— Eu ainda estou tentando descobrir uma forma de escapar.
— Entendi.
— E você?
Ele apontou para si mesmo.
— Eu também fui sequestrado socialmente.
Outra risada escapou.
Droga.
Droga.
Droga.
Porque agora eu estava calma.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
Porque Lorenzo tinha uma capacidade irritante de me fazer esquecer que eu estava de mau humor.
E isso não ajudava em absolutamente nada.
Nenhuma.
Enquanto ele continuava apoiado na porta do carro, sorrindo daquele jeito fácil e descontraído, uma parte muito inconveniente do meu cérebro fez uma observação.
Eu tinha passado o dia inteiro tentando evitar pessoas.
Mas, estranhamente...
Não parecia querer que Lorenzo fosse embora tão cedo.