NARRAÇÃO: DANTE O céu da Maré começou a sangrar um tom de roxo pesado, aquele crepúsculo que avisa que a noite vai ser de cão. Eu continuava ali, submerso até a cintura naquela água nojenta do Beiral, sentindo o lodo entrar pelas feridas das minhas mãos, mas meus sentidos tavam mais aguçados que bico de fuzil. O radinho escondido na minha bota deu três vibrações curtas. Era o código. O bonde dos Alemão já tinha atravessado a vala e tava posicionado no ponto cego do Setor Sul. Lá em cima, os dois moleques da escolta tavam sentados num latão de lixo, rindo alto enquanto dividiam um baseado. O fuzil de um deles tava encostado na mureta, a dois metros de distância. O excesso de confiança é o caixão do bandido, e esses moleques tavam com um pé na cova e nem sabiam. — O sol tá indo embora, D

