O DESPERTAR DA HERDEIRA NARRAÇÃO: ESTELA Eu fechei os olhos com força, deixando minha cabeça pender contra o colete tático do Marlon, sentindo a dureza do material e o calor do corpo dele por baixo. O cheiro de pólvora, metal e aquele perfume amadeirado dele era a única coisa que me ancorava na realidade, porque todo o resto estava flutuando em um abismo sem fim. A minha vida inteira... cada aniversário com bolos perfeitos, cada Natal iluminado naquela mansão impecável do Leblon, eu me pegava olhando para as minhas mãos e me perguntando de onde vinha o traço do meu desenho, de quem eu tinha herdado aquele olhos profundo dos olhos que não combinava com os de Lídia ou Renato. Não era por falta de amor; eles me deram o mundo em uma bandeja de prata, mas o vazio da origem sempre esteve ali,

