capitulo 2 Estela

1326 Words
CAPÍTULO 2: O REFLEXO NA JANELA E A PAZ QUE EU ESCOLHO O sol do Rio de Janeiro já começa a castigar o asfalto, e o trânsito da manhã se torna aquele tapete de metal e buzinas, mas eu não me irrito. Não faz sentido lutar contra o que não posso mudar. Em vez disso, coloco uma música baixa um instrumental suave, nada que grite, nada que invada. Gosto quando o som acompanha o pensamento, funcionando como uma trilha sonora delicada para a minha própria vida, não como algo que tenta dominá-la. Dirigir sempre me acalmou. É o meu momento de transição. Entre as mãos no volante e o olhar na estrada, sinto que estou indo para algum lugar sem precisar explicar o motivo a ninguém. É um dos poucos momentos de solidão que eu realmente saboreio antes de mergulhar no dia. O escritório fica em um prédio antigo, reformado com um cuidado que só quem ama arquitetura entende. É um lugar que mistura concreto aparente, janelas altíssimas e muitas plantas penduradas, criando um pulmão verde no meio da selva de pedras. Assim que coloco os pés lá dentro, sou abraçada pelo cheiro de café recém-passado e pelo burburinho leve de gente trabalhando o clique rítmico dos teclados, risadas abafadas e passos apressados, mas sem aquele caos que me assusta. — Bom dia, Estela! — escuto de três direções diferentes antes mesmo de chegar à minha mesa. — Bom dia, gente! — respondo automaticamente, distribuindo sorrisos. Minha mesa fica estrategicamente perto da janela. Sempre pedi para ficar ali. Gosto de ver o dia acontecendo lá fora enquanto trabalho; ver as nuvens se movendo me ajuda a pensar. Tenho uma pequena planta ao lado do monitor que eu rego com a ponta dos dedos todos os dias, um porta-lápis colorido que eu mesma pintei e fotos antigas com meus pais em viagens simples, mas felizes. Eu gosto de lembrar de onde venho enquanto construo coisas novas. — Você chegou voando hoje, hein? — comenta Deka, se aproximando com sua caneca inseparável. Deka é minha melhor amiga no trabalho. Ela tem o riso fácil, o cabelo curto e moderno, e usa roupas sempre confortáveis. Tem uma sinceridade que às vezes assusta os outros, mas nunca me machuca. A gente se escolheu sem perceber, como acontece com as amizades que são para ser. — Acordei atrasada — respondo, largando a bolsa e ligando o computador enquanto tento recuperar o fôlego. — Quase esqueci o tablet no ateliê. Foi uma correria. — Isso explica o cabelo ainda meio rebelde — ela brinca, esticando o braço para tocar uma mecha que insiste em cair sobre o meu olho. — Rebeldia controlada, por favor — sorrio, ajeitando o fio atrás da orelha. — A reunião das dez é com o cliente do paisagismo, né? Aquele exigente? — É ele mesmo — confirmo, abrindo os arquivos de renderização. — Trouxe até amostra de orquídea física. Quero convencer ele de que plantas não são só enfeite, são estrutura emocional. Se ele quer uma casa que cure, precisa de verde. — Você fala isso com essa sua cara doce e essa voz calma, e o cliente sai daqui acreditando até que samambaia muda o destino da humanidade — Deka ri, balançando a cabeça. — É um dom, Estela. Use com sabedoria. Dou de ombros, sentindo um calorzinho no peito. — Eu só acredito de verdade no que eu faço, Deka. Espaço sem alma é só depósito de móveis. .... A reunião corre maravilhosamente bem. Eu explico cada escolha, mostro como a luz vai incidir no jardim no inverno, e desenho à mão livre em um papel de seda quando sinto que a tela do computador não está traduzindo a suavidade que eu quero passar. O cliente me escuta em um silêncio quase hipnótico. Quando saio da sala de reuniões, sinto aquele alívio gostoso de dever cumprido. — Mandou bem pra caramba — Deka diz, batendo levemente no meu braço quando passo por ela. — Como sempre, a encantadora de clientes atacou novamente. — Obrigada, boba — respondo, sentindo-me leve. Volto para minha mesa e começo a organizar as anotações do projeto quando percebo alguém parado perto demais do meu espaço. Uma sombra que não deveria estar ali. Levanto os olhos e encontro o Henrique. Henrique é um dos arquitetos do outro setor, focado em projetos comerciais de alto padrão. Ele é bonito de um jeito óbvio: sempre impecável, camisa passada, um sorriso confiante demais para o meu gosto. Ele nunca foi m*l-educado comigo, mas também nunca foi exatamente discreto. — Oi — respondo, mantendo a minha polidez habitual. — Vi sua apresentação agora há pouco pela porta de vidro — ele diz, apoiando-se levemente na divisória da minha mesa. — Você fala de projeto como quem fala de um sentimento profundo. É raro ver alguém tão envolvida. — Eu acredito que o espaço também sente, Henrique. Se a gente não colocar amor, o prédio nasce morto — respondo, sendo sincera, como sempre sou. Ele sorri mais ainda, um sorriso que tenta ser charmoso. — É exatamente isso que me chamou atenção em você, Estela. Você é... fascinante. Sinto um leve desconforto, um aperto sutil no estômago, mas continuo sorrindo. Não gosto de criar climão, não gosto de confrontos. — Obrigada. É gentil da sua parte. — Eu estava pensando… você quase nunca sai com o pessoal do escritório, né? Sempre vai direto para casa. — É verdade. Gosto de aproveitar minha família e o meu ateliê — admito. — Que tal mudar isso hoje? — ele pergunta, baixando um pouco o tom de voz. — Tem um barzinho novo aqui perto, bem tranquilo. Nada barulhento, prometo. A gente podia ir hoje, depois do expediente. Só nós dois. Para não falarmos de trabalho. Sinto o estranhamento crescer. Eu não tenho nada contra ele, mas eu simplesmente não sinto essa vontade. Minha rotina é o meu tesouro. — Ah… — penso rápido, tentando não ser ríspida. — Eu agradeço muito o convite, Henrique. De verdade. Mas eu não estou procurando nada agora. Ele parece surpreso. Não ofendido, mas genuinamente confuso, como se não estivesse acostumado a ouvir um "não" vindo de alguém tão calma. — Nada? Nem um jantar amigável? Um drink? — Nem um jantar — confirmo, mantendo o tom gentil, mas firme. — Eu gosto muito da minha vida exatamente como ela é. Gosto da minha rotina, da minha paz. Ele ri, meio sem graça, ajeitando a gola da camisa. — Você é diferente mesmo, Estela. Difícil de decifrar. — Já me disseram isso — sorrio, voltando meus olhos para o monitor, sinalizando que a conversa terminou. Henrique se afasta, ainda simpático, mas com a frustração estampada nos ombros. Deka desliza na cadeira com rodinhas imediatamente para o meu lado. — Ele deu em cima de você na cara dura, né? — Deu — suspiro. — E você foi educada demais, como sempre — ela revira os olhos, embora tenha um brilho de admiração neles. — Eu teria dito para ele que o meu tempo vale mais que o gel de cabelo dele. — Eu não gosto de machucar ninguém, Deka. Ele só foi... ele mesmo. — Isso ainda vai te dar trabalho um dia, amiga — ela diz, mas sorri de canto. — Mas, honestamente? Essa sua doçura é a coisa mais bonita que eu já vi nesse meio de cobras. Volto ao computador. À minha mesa cheia de plantas. À minha vida organizada. Não me sinto triste por ter negado o convite, nem confusa, nem arrependida. Eu gosto de quem eu sou. Gosto do amor simples que me espera em casa com o meu pai ciumento e a minha mãe serena. Gosto de ser essa pessoa que pede desculpas ao vento. Enquanto eu salvo o projeto no tablet, olho para o meu reflexo no vidro da janela. Eu estou em paz. E, por enquanto, nada no mundo parece capaz de quebrar esse espelho.
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