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Lidia
sabe o que é f**a? Trabalhar a vida inteira e não conseguir construir nada. Trabalho de segunda a sábado, que nem uma cachorra, e não consigo pagar nenhum plano de saúde para minha mãe. Há semanas que ela está passando m*l e nós estamos esperando uma consulta ser marcada no postinho aqui perto. Eu já fui lá, já fiz barraco, já gritei, já surtei, mas não adianta. Eles falaram que só têm vaga para fevereiro. Como uma pessoa doente espera até fevereiro? Me diz, porque aqueles filhos da p**a devem ter a resposta. Como não é a mãe deles, eles estão pouco se fodendo.
Comecei a andar de um lado para o outro, até que entrei no Insta e vi as fotos da minha amiga Sara. Eu não sei o que ela está fazendo, porque até onde eu sei, ela nunca bateu um prego na vida e vive viajando e luxando, coisa que eu, como CLT, não consigo. Não é inveja, tá ligado? É indignação. Gente, agora tem mais vagabunda que vagabunda que consegue viajar, e eu, que sou uma cachorra que trabalha de segunda a sábado, não consigo fazer nada na minha vida. Eu tô praticamente vendendo o almoço para poder comprar a janta. É f**a, na moral.
Saí dos meus pensamentos quando o seu Joaquim, meu chefe, me chamou no balcão. Hoje é dia de pagamento e eu não quero nem ver os descontos, porque eu tive que faltar duas vezes essa semana para poder levar a minha mãe ao médico, e ele não quis aceitar meu atestado de acompanhante. Eu juro por Deus que quando eu sair daqui, eu vou enfiar um processo bem grande nesse r**o gordo dele para ele deixar de ser o****o, mas por enquanto eu vou colocar um sorriso falso nesse meu lindo rostinho e vou pegar o meu dinheiro, né?
Joaquim: Tá aqui seu pagamento. Confere antes de guardar para depois não falar que eu estou te roubando.
Porra, ele acha que receber um salário mínimo não é um roubo. Contei o dinheiro e o safado realmente descontou as duas faltas. Minha vontade era voar nele, mas eu só olhei e falei:
Lidia: Tá certinha, obrigada.
Saí de perto dele cheia de ódio no coração. Não demorou muito para dar minha hora de ir embora. Graças a Deus eu trabalho de manhã, porque se eu fosse do turno da noite, quando essa p***a vira pensão, eu já tinha matado alguém.
Cheguei na minha casa e encontrei a minha mãe dormindo, o que não é normal. Me aproximei dela e vi que ela estava com febre. Sacudi ela com força, mas ela não me respondeu.
Lidia: Mãe, pelo amor de Deus, socorro! Socorro! - eu saí gritando feito uma desesperada, até que meu vizinho veio me ajudar. Ele pegou minha mãe no colo e jogou no carro, e nós fomos direto para o famoso Hospital da Lagoa. Eu tenho pavor desse lugar. Entramos e ela foi direto para a emergência. Não me deixaram subir e eu fiquei em pé, com cara de choro. Agradeci meu vizinho por trazer ela. Ele até se ofereceu para ficar, mas eu disse para ele ir embora descansar, porque amanhã ele ia ter que trabalhar. Fiquei durante horas sentada na recepção, sozinha, olhando para a cara dos seguranças, até que uma médica veio andando na minha direção e perguntou se eu era acompanhante da dona Leda. Eu falei que sim e ela disse que precisava conversar comigo na sala da assistência social. Eu já comecei a ficar nervosa, porque esse bagulho de assistente social não é para amadores. Quando a gente tem que falar com elas, é porque vem p**a.
Médica: Boa tarde, meu anjo. Qual é o seu nome?
Lidia: Eu me chamo Lídia. Boa tarde.
Médica: A dona Leda é sua mãe?
Lidia: Sim, ela é minha mãe.
Médica: Olha, o que a sua mãe tem é uma condição chamada dissecção da aorta, que é como se fosse um r***o na principal artéria do corpo dela, a aorta. A aorta é a responsável por levar o sangue para todo o corpo, então, quando ela se rasga, pode causar um grande sangramento interno. Isso é muito sério e, sem a cirurgia, o risco de ela sofrer uma ruptura total da aorta é muito alto, o que pode levar à morte.
A boa notícia é que, se conseguirmos operar dentro de sete dias, ela tem uma boa chance de se recuperar bem, e a cirurgia vai reparar esse r***o, evitando complicações graves. A má notícia é que nós não conseguimos fazer esse tipo de operação aqui e que você provavelmente vai ter que procurar um hospital particular, porque ela não tem tempo para esperar na fila do SUS.
Eu comecei a chorar feito uma desesperada e a psicóloga até tentou me consolar, mas eu não queria consolo, eu queria uma solução. Eu não posso deixar minha mãe morrer, eu não posso deixar isso acontecer. Saí da sala da assistente social com o peso nas costas, fiquei do lado de fora chorando e depois subi para poder ficar com a minha mãe. Fiquei olhando para ela apagada, deitada na cama, e fiquei me perguntando como eu ia fazer para conseguir esse dinheiro. O seu Joaquim com certeza não vai querer me dar um adiantamento desse tamanho e, se eu tiver que ficar acompanhando a minha mãe, ele com certeza vai me mandar embora. p**a que pariu! Comecei a pesquisar no Google quanto custava essa cirurgia e vi que podia custar de 10 a 30 mil, e que esse valor podia ser ultrapassado caso ela precisasse de UTI e outros cuidados pós-operatórios. Minha cabeça começou a doer e o meu mundo começou a girar. Eu não posso perder a minha mãe, ela é a única pessoa que eu tenho no mundo. Eu não quero ficar sozinha e, principalmente, eu não quero que ela sofra passando por essa doença. Fechei os olhos, respirei fundo, tentando pensar em uma solução que provavelmente eu não iria encontrar.