O vento gelado cortava sua pele enquanto Isabela caminhava pelas ruas de São Paulo, tentando processar a enormidade do que acabara de descobrir. O choque ainda a envolvia, e o som abafado dos passos era a única coisa que parecia fazer sentido.
Noivado arranjado.
Assim que seu noivado com Rodrigo terminou, seu pai já tinha outro pretendente à sua espera, como se ela fosse uma peça em um tabuleiro, movida sem consideração pelos seus sentimentos. Como sempre.
Isabela respirou fundo, tentando manter a calma, mas as palavras de seu pai ainda ressoavam em sua mente. A reunião em casa fora rápida e decisiva, como sempre acontecia quando se tratava de negócios familiares. O senador Antunes tinha um futuro brilhante para ela, com um homem influente e poderoso, que seria uma grande aliança política e financeira. Tudo já estava decidido. Ela não tinha escolha. Seu destino já estava traçado.
Ela, que passou os últimos anos em Londres, buscando a independência e tentando deixar para trás o passado doloroso, agora se via novamente aprisionada pelos laços de uma vida que nunca escolheu. E a pior parte disso tudo era que ela não podia contestar. O peso da responsabilidade do sobrenome Antunes não a deixava fazer mais nada a não ser obedecer. Era uma prisão dourada.
Por mais que tivesse tentado seguir em frente, as lembranças de Caio ainda a perseguiam. Seu sorriso, a forma como a tratava com uma ternura que ninguém mais conheceu, o toque de suas mãos... Ele ainda estava lá, naqueles espaços silenciosos em seu coração. Mas o que ela faria? Ele havia desaparecido de sua vida, e agora ela não tinha mais o direito de desejar algo que o destino não lhe permitiria.
Isabela parou diante do portão de sua casa, um casarão imponente, com colunas altas e jardins perfeitamente cuidados. Era ali, entre aquelas paredes, que ela tinha sido criada. Mas agora, algo havia mudado. Ela já não se sentia mais em casa. Havia algo de opressor naquele lugar, algo que a fazia se sentir sufocada.
Dentro da casa, tudo parecia calmo. Seus pais estavam na sala de estar, o pai com seu semblante rígido, a mãe com um sorriso superficial, tentando manter as aparências de uma família perfeita. Isabela se forçou a sorrir quando entrou.
— Filha, já estávamos te esperando. — A voz suave de sua mãe a acolheu, mas não havia conforto nas palavras.
O senador Antunes, sentado na poltrona de couro, olhou para ela com um olhar que parecia vazio de afeto. Ele já estava acostumado a tomar decisões por ela, e isso a angustiava profundamente.
— Isabela, você precisa entender que este é um passo importante para o seu futuro. O noivado com o Felipe vai garantir que você tenha tudo o que merece. Segurança, estabilidade, e, mais importante, respeito. Você não pode continuar vivendo no passado.
Aquelas palavras a atravessaram como lâminas afiadas. O passado. O passado que ela ainda carregava, o amor que nunca deixou de sentir por Caio. Mas seu pai não compreendia, não queria compreender. Para ele, tudo se resumia a alianças políticas e financeiras, a interesses que ela jamais entenderia.
— Pai, eu... — Isabela começou a falar, a voz trêmula, mas o senador a interrompeu com um gesto impaciente.
— Não há mais o que discutir, Isabela. Está decidido. Felipe é o melhor para você, e você fará o que for melhor para a família. Agora, vá se arrumar para o jantar com ele. Ele virá aqui mais tarde.
Isabela sentiu a pressão no peito aumentar, e uma sensação de impotência a invadiu. Ela queria gritar, dizer que não queria isso, que ela já tinha vivido uma história, uma história que estava mais viva dentro dela do que qualquer plano de seu pai. Ela queria dizer a ele que Caio era o único homem que ela realmente desejava, mas sabia que essas palavras seriam inúteis.
Felipe. O homem que seu pai havia escolhido. Ela m*l o conhecia. Um homem de negócios de sua idade, educado nas melhores escolas, bem-vestido, com os cabelos sempre arrumados, mas sem nenhum tipo de afinidade com ela. Para ele, ela era apenas um prêmio a ser conquistado, uma mulher que ele teria como parte de seu portfólio de sucesso.
Ela se afastou sem dizer mais nada, subindo as escadas com o coração pesado, os pensamentos confusos. Como ela se afastaria de tudo isso? Como poderia deixar de seguir seu coração, de lutar pelo amor que ela ainda sentia por Caio?
Chegou até o quarto e fechou a porta com força, deixando-se cair na cama. A dor de ser forçada a seguir uma vida que não escolheu a consumia, e as lembranças de Caio a invadiam com força. Ele ainda estava lá, em algum lugar, esperando por ela. Ou não.
As lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto ela tentava se convencer de que não importava. Ela tinha que seguir em frente, por mais que fosse difícil. Felipe seria seu futuro, o marido que seu pai escolhera para ela, o homem que a manteria no mundo de ouro e cristal do qual ela não podia escapar.
Mas, mesmo enquanto tentava se resignar, a única coisa que ela sabia era que seu coração ainda pertencia a Caio. E, por mais que tentasse negar, isso a fazia sofrer mais do que qualquer outra coisa.
A casa parecia ainda mais silenciosa após o confronto com seu pai. Isabela estava sozinha em seu quarto, a dor e a confusão apertando-lhe o peito com uma intensidade que m*l conseguia suportar. Ela se recostou na cabeceira da cama, com os olhos fechados, tentando encontrar algum tipo de clareza, algum alívio para o turbilhão de emoções que a consumia.
Ela sabia que as palavras do pai estavam feitas de intenções que visavam o bem dela, ou pelo menos, o que ele acreditava ser o melhor para ela. Mas, como poderia ele entender o que realmente importava? Como poderia ele perceber que ela não queria um futuro que fosse imposto, mas que desejava algo que fosse seu? Ela queria viver uma história onde o amor fosse a base, e não a segurança de alianças políticas.
Seu pensamento logo foi interrompido pelo som da campainha que ecoou pela casa. Era Felipe, o noivo escolhido por seu pai. Ele chegara antes do esperado. Isabela sentiu um nó na garganta. Já havia se encontrado com ele em algumas ocasiões, mas o vínculo entre eles sempre pareceu superficial. Ele era educado, claro, mas ela não sentia nenhuma conexão real, nenhuma chama de desejo ou de algo mais profundo. Era apenas uma formalidade, algo necessário para a imagem de sua família.
Respirando fundo, ela se levantou e foi até o espelho. Observou sua imagem por um longo momento. O reflexo que ali encontrava era de uma mulher que parecia segura, pronta para atender às expectativas de todos, mas por dentro, ela sentia-se dilacerada. O sorriso que ela colocou em seu rosto antes de sair do quarto era falso, um escudo para o turbilhão que se passava em sua mente.
Quando desceu as escadas, seus pais já estavam à mesa, esperando. Felipe estava sentado, com um sorriso educado nos lábios, olhando para ela com um interesse que parecia ser apenas o esperado de alguém que fosse, em breve, seu marido. Mas, por dentro, Isabela não conseguia ver nada além de um futuro vazio ao lado dele.
— Isabela, querida, que bom que você chegou. — A voz suave de sua mãe, sempre atenta à imagem perfeita, chamou sua atenção.
Felipe levantou-se para cumprimentá-la, e ela forçou um sorriso enquanto apertava sua mão.
— Boa noite, Isabela. — Ele disse com sua voz firme e confiante.
Ela acenou com a cabeça, tentando demonstrar civilidade, mas sua mente estava longe, já perdida em pensamentos de Caio. Aquele que a havia amado, que a protegia. O homem que ela não conseguia esquecer, que ainda dominava seus pensamentos mais profundos. Onde ele estaria agora? O que ele pensava sobre tudo isso? E, mais importante, ele ainda a lembrava?
Enquanto o jantar seguia, com conversas superficiais sobre negócios e eventos sociais, Isabela m*l conseguia se concentrar nas palavras de Felipe. Ele falava sobre suas conquistas no mundo dos negócios, suas viagens, sua família, mas Isabela se sentia como se estivesse observando tudo de uma distante bolha, sem realmente participar. O som da sua voz era monótono e distante, e ela só conseguia pensar no quanto aquele futuro parecia um peso, um fardo, que ela tinha de carregar sem poder questionar.
Felipe, por sua vez, parecia cada vez mais à vontade, como se fosse o homem que tivesse o direito de estar ali, de ser parte da vida de Isabela. Ela não podia culpá-lo. Ele era apenas o reflexo de uma expectativa que ela não conseguia controlar. Ela não queria pensar em suas palavras, mas sua mente voltava, sem querer, para o homem que ela realmente desejava. Caio.
À medida que a noite avançava, as palavras de Felipe ficaram mais distantes e os olhares de seus pais mais atentos, exigindo que ela se comportasse, que fosse a mulher que eles esperavam. Ela sentiu a pressão crescente, como se estivesse sendo moldada por mãos invisíveis. Isabela sabia que seus pais estavam preocupados com sua felicidade, mas o que ela mais desejava não era um casamento arranjado, mas a liberdade de viver sua vida ao lado de quem realmente amava.
Após o jantar, Felipe se ofereceu para levá-la até a porta, com uma gentileza que ela apenas respondeu com um sorriso educado.
— Posso te acompanhar até o carro? — Ele perguntou, a expressão de cortesia em seu rosto.
Isabela hesitou por um momento antes de acenar com a cabeça.
— Claro, Felipe. — Ela respondeu, sua voz mais fria do que pretendia.
Caminharam até o carro em silêncio, e, ao chegar à porta, ele a olhou nos olhos.
— Eu sei que isso é difícil para você, Isabela. Eu sei que você não tem escolha, mas posso te garantir que cuidarei de você. Vou ser o homem que você precisa, aquele que te dará tudo o que você merece.
Ela olhou para ele, seus olhos fixos nos dele, tentando encontrar alguma sinceridade no olhar. Mas tudo o que viu foi o reflexo de um futuro que ela não queria. Não havia paixão, não havia fogo, apenas promessas vazias.
— Eu aprecio suas palavras, Felipe, mas — Ela fez uma pausa, sentindo o peso da situação. — Eu preciso de tempo. Para entender o que eu quero. Para... descobrir o que é certo para mim.
Felipe não parecia surpreso. Ele sabia que ela ainda estava lidando com o fato de que sua vida havia sido traçada sem sua permissão. Mas ele não queria apressar nada. Ele teria tempo. E, de qualquer forma, estava convencido de que ele seria capaz de conquistá-la, mais cedo ou mais tarde.
— Claro, Isabela. Eu entendo. Mas saiba que estou aqui para você. Sempre estarei.
Com um último olhar, ela entrou no carro e fechou a porta, seu coração pesado com a inevitabilidade do que estava por vir. Enquanto o carro se afastava da casa, ela se perguntou se algum dia poderia ser feliz em um futuro com Felipe. Ela sabia que ele era um bom homem, mas sua mente e seu coração estavam em outro lugar.
Eles estavam em mundos diferentes.
E, no fundo, Isabela sabia que sua alma ainda pertencia a alguém mais. Aquele que a conhecia melhor do que qualquer outro. O homem que a havia amado de uma maneira que ela nunca esqueceria. Caio.