Erik começou a pensar no que a pequena Louise disse sobre seu rosto. Não tinha espelhos do seu c*******o. Somente o olhavam com asco, então, não fazia ideia de como era seu rosto. E para se barbear durante aquelas semanas, ele contou com a ajuda do valete de lorde Derby, o senhor Richard. Era um homem muito polido em suas maneiras e nunca demonstrou nada além de respeito.
Precisava de um espelho e precisava naquele instante. Quando Richard entrou, Erik já estava ansioso, andando de um lado a outro.
- Senhor? – ele disse – Está tudo bem?
- Richard, que bom vê-lo – Erik disse e naquele momento, preocupado com seu próprio rosto e o que sua visão poderia causar nas pessoas – Há algum espelho por aqui?
- Sim. Eu posso providenciar ao senhor – o valete respondeu, solicito.
Como todos os empregados, ele vestia roupas de roupas de libré, com luvas brancas. E nunca olhava demais para os outros. Tinha um comportamento irrepreensível. Então, a pergunta que Erik queria fazer poderia não ser respondida com sinceridade. Mas, perguntou, mesmo assim.
- Há algo errado como meu rosto? – Erik perguntou.
O valete ficou tenso. Estava vermelho.
- Perdão? – ele disse, sem olha-lo nos olhos.
- Eu perguntei se há algo errado com meu rosto. Seja sincero – Erik exigiu.
Sentiu o frio da expectativa. Aquela criança não havia mentindo. Havia algo errado com seu rosto. Por Deus. Estava suando frio. Lembrou-se das criadas que iam até o quarto, evitando olha-lo, evitando ficar perto. Evitando conversar. A única pessoa que olhou direto em seus olhos foi lorde Derby, a senhorita Daphne e a pequena Louise.
- Eu não compreendi sua pergunta senhor – Richard respondeu, com a coluna reta e os ombros retesados – Irei buscar um espelho para o senhor. Com sua licença.
- Não, espere Richard...- a porta bateu quando ele tentou chama-lo.
Ele respirou fundo, contendo a ansiedade. O que havia de errado com ele. Passou a mão em seu rosto, sentindo a pele ressecada. E do outro lado, lisa. Havia algo muito errado. Como se deu conta disso só naquele momento? Talvez, não quisesse nunca ter se dado conta. Já era terrível não se lembrar de nada do seu passado. Saber que seu rosto estava marcado por alguma coisa o enervava. Ele foi até a sacada, para ver se o vidro fazia reflexo, mas não conseguiu ver nada. Apenas seus contornos. O sol estava a pino do lado de fora e Erik teve a visão da frente da mansão. Havia um chafariz de querubins do lado de fora, uma grama muito verde e aparado e um caminho de pedras. Lá fora, as carruagens passavam e pessoas iam e vinham. Será que ele poderia viver como eles, algum dia? Despreocupado, apenas caminhando, sabendo quem era e qual era seu proposito no mundo?
A porta se abriu de novo e Richard entrou. Parecia evitar mais do que nunca olha-lo e deixou o espelho sobre a mesinha de cabeceira, ao lado da cama.
- Aqui está, senhor. Eu voltarei em instante, para vesti-lo - ele disse, fazendo uma reverência curta e saindo do quarto, fechando a porta atrás de si.
Erik respirou fundo, sentindo as pernas tremulas e coração disparado. A boca seca. O frio intenso do medo. Do inesperado. Não poderia ser tão r**m? Poderia? Andou a até a mesinha de cabeceira e tomou o espelho em suas mãos.
O que viu não era o que esperava, nem de longo.
*
Daphne escutou um grito, vindo do andar de cima. Se sobressaltou. Subia tranquilamente as escadas para seu quarto, no momento. Ela apressou os passos, pois ouviu algo se quebrando no chão. Correu e percebeu que era do quarto do homem misterioso, que só tinha um nome. Erik. Ele era tão interessante e com um passado apagado pela falta de memória.
Ela não devia estar fazendo o que estava prestes a fazer, mas fez mesmo assim. Movida pela curiosidade, abriu a porta e viu ele de costas, respirando fundo. Pedaços de espelho estavam espalhados no chão. Ela se perguntou o que poderia ter acontecido para que estivesse no chão.
- Senhor? - ela perguntou, receosa.
Ele se virou, assustado e pisou em um caco de vidro. Soltou um silvo de dor. Seu olhar para ela, depois era irascível.
- Saia! - ele ordenou.
Ela abriu um pouco mais a porta.
- Mas, o senhor se feriu. Está sangrando - ela constatou, vendo o sangue rubro manchar o chão de madeira.
- Já mandei sair - ele vociferou.
Para ter se transformado em outra pessoa. Ela ficou assustada e por isso não conseguiu pensar em se mover. Estacou no lugar. Ele andou até ela, sem parecer se importar com a ferida em seu pé e a encarou com raiva.
- A senhorita é s***a? Saia agora - ele falou de uma forma ríspida e estava com os olhos dilatados. Parecia ver além dela, como se ela fosse seu inimigo.
- Vou pedir para alguém ver seu machucado, senhor - ela disse, tentando manter a voz firme. Vê-lo tão de perto, ver seu rosto queimado e a outra parte lisa e perfeita era algo chocante. Não que ela estivesse com asco dele, mas nunca havia visto uma pessoa com problemas físicos tão de perto. Mas, sua beleza não havia se perdido pela carne queimada. Tinha grandes olhos verdes, como esmeralda. Eram tão parecidos com os seus.
- Não preciso de ajuda. Preciso que saia - ele disse, entredentes. Mas, começava a respirar mais lentamente - Não quero que me veja - ele disse, em voz baixa.
- Como disse? - ela perguntou. Mas, tinha ouvido claramente. Sua duvida era com relação ao receio dele. Ao receio de ser visto.
- Meu rosto - ele respondeu - Vê como é marcado? Como sou um monstro que sempre disseram que sou?
Ela abriu a boca, em espanto.
- Mas, o senhor não é um monstro. É uma pessoa normal, assim como eu. Como pode pensar isso de si mesmo?
- Pois, acabo de me lembrar que era tratado assim, quando criança. E talvez, a vida toda - ele parecia pensativo, distante. Como se estivesse vendo sua vida desenrolar diante de seus olhos - Saia, senhorita. Não quero ninguém aqui agora.
Ela reprimiu a vontade de confortá-lo. Não poderia acreditar que alguém chegou a feri-lo tanto. Ele não poderia ter sido sempre tratado como animal. Com certeza, teve uma boa educação, pelos seus modos e pela forma que falava. Algo terrível aconteceu com aquele homem para estar naquele estado. Confuso, selvagem e sozinho.
Daphne não podia se conter, quando via uma criatura em sofrimento. Apenas ajudava. Então, entrou em seu quarto, passando por ele, mesmo sabendo que ele não a queria ali.
- O que a senhorita pensa que está fazendo? - ele perguntou, entre confusão e irritação.
- Quero ver sua ferida, senhor. Sei tratar muito bem de machucados. Afinal, tive dois irmãos inconsequentes e a mim mesma para tratar.
Ele arqueou as sobrancelhas, incrédulo.
- A senhorita não tem o mínimo de decoro, tem? - ele perguntou.
- Tenho quando é necessário. O seu caso exige que eu intervenha. Vai ficar com o pé machucado e não fará nada sobre isso. E não posso suportar.
Ele mordeu os lábios, contendo o riso. Mas, explodiu em seguida. Sacudia o ombro, em espasmos involuntários. O que a deixou sem folego, não foi a cena, mas a sua voz. Era rica e masculina. Um timbre que a envolvia, como se estivesse diante da mais linda melodia. E entendia muito bem de música para saber que a voz dele era bela. Respirou fundo, desconsertada pelas sensações estranhas e novas, em seu ser. Nunca sentiu nada por qualquer cavalheiro. Debutou quatro vezes e nenhum despertou a mais remota paixão. Flertava nos salões, conforme o recomendado. Mas, nenhum arrebatou seu coração. Considerava-se arrebatada naquele instante, por um simples desconhecido.
- Está bem, senhorita - ele disse, depois que a crise de riso passou - Eu deixaria que veja meu machucado, mas creio que não gostara nem um pouco.
- Me toma por uma dama frágil, senhor. Mas, não sou - ela protestou.
- Está bem, farei como queira - ele se sentou na cama e ergueu o pé ferido.
Ela analisou, vendo que era um pequeno corte, apenas. O sangue já estava estancando. Só teria que remover os cacos do espelho, com uma pinça e enfaixar o pé. Isso era simples.
- Pela sua expressão, acredito estar diante de um médico - ele zombou, mas com um sorriso de aprovação em seu rosto.
- Eu poderia ser uma, mas fui feita para casar - ela disse, irônica - Um dia as mulheres terão seu devido lugar.
- Ah, é mesmo? - ele perguntou - E como sabe disso?
- Lady Klyne, amiga da nossa família, esta lutando com a câmara dos Lordes para que possamos ingressar na universidade. E um dia isso será nossa vitória - ela disse, com um sorriso sonhador.
- Um dia os homens terão as mentes abertas, senhoritas. Por enquanto, o decoro é necessário e a senhorita precisa sair.
Aquela frase fora um balde de água fria em suas aspirações. Mas, precisava tratar do machucado dele.
- Eu irei, em seguida. Quando cuidar do senhor - ela insistiu.
- A senhorita é muito teimosa - ele suspirou - Quer me enlouquecer?
- Não, apenas ajuda-lo - ela negou, mordendo os lábios, contendo o riso - Eu voltarei em instantes.
Não tinha certeza, mas ele sorriu de volta. Um sorriso minúsculo.
*
Erik deixou que a senhorita Daphne tratasse de seu machucado e enfaixasse seu pé. Estava achando tudo muito hilário e não sabia o motivo. Talvez, porque ela fosse uma dama e não deveria sujar suas delicadas mãos. Mas, na verdade, a forma como eles conversavam era algo que não esperava. Não se lembrava de ter uma conversa franca faz tempo. A não ser como lorde Derby.
E ele apareceu no quarto, brigando com sua irmã por atrapalhar o seu hospede com bobagens. Além de reforçar mais uma vez que ela devia parar de bancar a enfermeira.
- Quer que nosso pai revire no túmulo, Daphne? Vai nos colocar em uma saia justa, qualquer dia desse. Para nossa sorte, Erik é muito compreensível.
- Ele não é muito. Quebrou o espelho, sem qualquer motivo - ela contrapôs, olhando séria para Erik.
Ele ficou corado, pela vergonha de ter agido com irracionalidade. Sentiu tanto horror em ver seu rosto. A carne queimada, do lado direito. O olho repuxado. Mas, diante de si via grandes olhos verdes, como os de Daphne. Era tão estranho ter aquela cicatriz. Por isso todos o olhavam com asco. E ele foi tratado como fera. Mas, sabia que seu rosto não foi queimado daquele lugar. Devia ter sido antes. Então, entrou em choque ao se recordar de algo. Lembrava-se claramente de uma mulher ruiva ajoelhada no chão, chorando copiosamente, pedindo que ele saísse do quarto. Ele a chamava de maman. Ela respondia em francês, que ele deveria sair. Mas, ele era corajoso e ficou. Então um homem de chapéu entrou no quarto, com um olhar azul metálico. Erik tinha raiva dele, por tocar em sua maman.
Avançou contra ele, mas por ser apenas uma criança, não teve tanta sorte. O homem o pegou pelo braço e o mandou para um rapaz, que aguardava do lado de fora. Pediu para que Erik tivesse o tratamento esperado, pois estava sendo um grande estorvo. Então, seu rosto foi queimado com fogo, quando foi trancando em uma sala. A dor era excruciante. Ainda doía, apenas de pensar. Sua vida era miserável desde a nascença. Agora sabia disso. Por isso atirou o espelho. Pois, não queria ver, não queria ver que nunca pode proteger aquela mulher ruiva, que era sua mãe. O que não fazia sentindo algum, pois em seus sonhos, sonhava com um anjo de cabelos loiros, que cuidava dele. Sua mente estava confusa, partida. E ele não tinha repostas ainda sobre si mesmo. E talvez, não quisesse tê-las.