Apesar de estar na casa de pessoas muito atenciosas, Erik ainda se sentia deslocado. Tentava entender o que de fato havia acontecido consigo mesmo. Lorde Derby mais de uma vez lhe disse que era alguém com estudos e que sabia falar duas línguas fluentemente, então, devia ser de uma família abastado, se não, rica. Talvez, fosse filho de um nobre. E que o ajudaria a encontrar sua família.
- Com certeza, vamos encontra-los, Erik - lorde Derby garantiu - Eu já contratei um detetive particular para seu caso. Vamos encontra-los aqui em Londres. Se ao menos soubéssemos seu sobrenome, tudo ficaria mais fácil.
Daphne, a irmã de lorde Derby, teve a brilhante ideia de espalhar cartazes nas ruas de Londres, com o rosto de Erik, informando que ele estava procurando por sua família. Charles, o irmão do meio, ficou horrorizado com a ideia. Não com toda a ideia em si, somente o fato de que Daphne iria ajudar a colar os cartazes pelos postes. Ele não queria que ela se expusesse tanto.
- É permitido que faça o retrato dele. Mas, não vai sair pelas ruas, colocando o retrato dele nas ruas. Isso não é algo para damas, Daph - Ela o fitou com petulância. Não iria ficar em casa sem fazer nada. Absolutamente não. Mas, dessa vez, até seu irmão Jonathan não iria permitir que ela saísse.
- Charles tem razão. Não pode simplesmente sair na rua e fazer isso. Para isso, temos empregados que podem ajudar - ele argumentou - Agora, para de nos amolar e vá fazer o retrato de Erik.
Ela saiu do escritório do irmão, desejando bater a porta com força. Mas, não fez isso. Apenas deixou-a aberta, para ouvir Charles reclamando da porta aberta. Deu uma risadinha vitoriosa. Conseguira tirar os dois do sério. E isso era um feito e tanto para ela, que não podia fazer nada a não ser, se portar como uma boa dama.
Ela já estava beirando a solteirice, com seus vinte e quatro anos. Mas, não se importava com isso. De maneira alguma. Gostava de saber que poderia ser livre para escolher qualquer pretendente para se casar. Apesar disso, fugia do casamento com horror. Não queria o casamento que seus pais tiveram.
Sua mãe, Aneska, amava tanto seu pai, que tinha um ciúme doentio por ele. Além do fato de ter um irmão gêmeo, que era conhecido por ser um grande libertino. Os dois eram iguais, infelizmente. Se ele traia sua esposa, Daphne não fazia a menor ideia. Mas, sua mãe vivia reclamando pelos cantos, chorosa e dizendo que seu pai era infiel. A reputação dos irmãos Harris era de ser resolutos, libertinos, jogadores contumazes e ótimos de pontaria. E sua mãe parecia ter se arrependido de ter escolhido um deles para se casar. Mas, morreu tão cedo.
Daphne sentiu tanta falta dela. Havia morrido por tuberculose. Os pulmões já eram fracos demais. Ela ficou isolada, em um sanatório, para se tratar. O local era de péssimas condições sanitárias e os pacientes também não eram bem tratados pelos enfermeiros. Foi então que viu seu pai adoecer. Ele parecia estar enlouquecido com isso. Começou a beber demais, por estar separado da esposa. Daphne, muito pequena ainda para entender tudo aquilo, percebeu que seu pai estava ficando doente, por não ter a esposa consigo. E ele, no desespero, a trouxe de volta para casa. Isso somente piorou a situação dela. Que veio a falecer, dentro de poucas semanas, vencida pela doença. Seu pai faleceu um ano depois. Desenganado pelos médicos. Todos eles pediam que Colin parasse com a bebida, mas ele não parecia se importar, tão pouco isso. Estava depressivo pela morte da esposa. Daphne presenciou as fases terríveis da doença dele.
Ela respirou fundo, desviando o pensamento da condição dele. Da barriga protuberante. Da pele amarelado. Dos olhos injetados. Não era uma visão agradável, afinal, Colin era um rapaz atraente e muito bonito em sua juventude. E fora perdendo o viço e seu brilho, conforme o vicio falava mais alto. Já ingeria álcool há muitos anos, desde muito jovem, quando entrou para a universidade. E os médicos diziam a ele que pela quantidade ingerida de álcool, estava causando a sua doença. Mas, Colin era tão teimoso, que preferia morrer envenenado, a ficar só, sem sua amada esposa. Daphne achava irônica a situação, pensando melhor. Aneska culpava o pai de ser infiel e ele estava chorando por ela, pelos cantos. Esqueceu-se de viver, esqueceu-se dos filhos, falava sozinho com as paredes. E jurava ver a alma da falecida, rondando os corredores, chorando em um pranto estridente. Ele se trancava horas em seu quarto, dizendo que estava com ela. E que partiria com ela em breve. Não demorou um ano e seu pai jazia sem vida sobre a cama. Pobre Jonathan. Seu irmão que o viu primeiro. Ele estava em choque. Com apenas quinze anos, precisou assumir o condado. E ter uma sobrecarga de responsabilidades que não poderiam ser suportadas por um menino. Claro que seu tio ajudou muito. Mas, ele só ajudou até que Jonathan estivesse preparado para as responsabilidades. O tio deles era um homem livre. Vivendo no mundo, aspirando novos horizontes. E não queria estar preso em nenhum lugar. Um nômade. Mas, com o dinheiro a disposição. E sempre pedia para chama-lo de tio John. Afinal, Jonathan, seu sobrinho, tinha o mesmo nome. Colin havia homenageado o próprio irmão, colocando o nome no primogênito. Amava-o tanto, que espalhava isso aos quatro cantos do mundo.
Então, por que ele não viveu pelo irmão, pela família? Daphne se sentia tão indignada. Por isso, mesmo, não, não iria se casar. Para que o casamento, se só causava dor e sofrimento? A família, é claro, trazia alegrias. Os irmãos, os filhos. Daphne pensava que o amor fraternal era o menos arriscado. Muito mais tranquilo e doce. E fora com esse pensamento, ao ver seu pai morrer, que deu tanto amor aos seus irmãos. Eles precisavam disso. E depois, havia Louise, sua prima querida. Que nasceu para dar alegria a todos. Sua tia Antonietta passou a ficar mais presente na vida deles, depois que ela nasceu. Estava afastada, pois vivia no campo e com a morte do marido, depois de um duelo em nome da honra de Antonietta, ele havia perdido muito sangue, pois o tiro havia acertado sua barriga e ele veio a falecer. Então, a tia de Daphne começou a olhar mais pela família e cuidar do debute de Daphne. Por ser muito arredia, Daph não deu atenção alguma aquilo. Antonietta e ela brigavam muito. Atualmente, estava em paz, mas sua tia não desistia de casa-lo com seu primo Ethan, que estava atualmente lecionando Direito e Oxford. Ethan poderia ser muito charmoso, mas Daph não queria casamento algum.
Daphne chegou à sala de música, pois fora lá que escutou uma melodia doce. E vinha do piano. Daphne adorava tocar ali, mas não era boa musicista. Não era o forte da sua família. Talvez, do seu pai, mas não era o dela ou da sua tia, que insistia em dizer que era uma ótima cantora e pianista. Estava mais longe da verdade possível. Lady Klyne sempre tinha um comentário mordaz sobre isso. Sentia falta das visitas dela. Mas, ela estava na França, com seu marido. Não lhe disse os motivos para a viagem tão precipitada e Daph não sabia para onde enviar uma carta.
Ao abrir as portas no estilo francês, ela se deparou com Erik, tocando o piano de calda de cor preta. Ele parecia concentrado, de olhos fechados. Parecia escutar uma melodia em sua mente, que só ele sabia qual era. E Daphne sentiu o coração bater mais forte. Como um homem poderia ser tão profundo e misterioso? E tocar de forma tão bonita, parecendo falar com a alma dela. Não que ele soubesse disso. E a composição era algo que ela nunca havia escutado na vida. Sabia das composições de Mozart, Beethoven, mas aquela, nunca havia escutado em saraus, bailes ou eventos de música clássica. Ali estava um homem que sabia muito bem o que estava fazendo e como prender a atenção do publico. E com uma composição inteiramente original. Pelo menos, era o que ela pensava.
Ele abriu os olhos e se deparou com Daphne, muito perto do piano, quase se recostando, com uma expressão de embevecimento. Deparou-se com os olhos verdes vibrantes da jovem e seus cabelos negros emoldurando seu rosto pálido e delicado. Ele engoliu seco. Aquela jovem parecia mexer com seus sentidos. Ele quase quis beijar sua boca rosada e pedir para que ela o beijasse. Queria inclina-la sobre o piano e f********r com ela. Preciso se concentrar, para não falar uma bobagem.
- Vejo que eu tenho publico. E estou sendo apreciado – ele disse a primeira coisa que veio a mente. E se sentiu um completo i*****l por ser tão vaidoso.
Ela lhe brindou com um sorriso torto.
- Com certeza, que tem. O senhor é muito modesto – ela provocou e se recostou no piano – E já que estamos aqui, me responda uma pergunta. Se puder. O senhor se recordou de algo, aqui, hoje? Pois, toca muito bem.
Erik franziu o cenho. Ele não se recordara de nada, agora que ela fizera a pergunta.. Ele simplesmente quis entrar e ver a sala. Tocar as teclas. Sentir o pedal sobre o pé. E então, acabou se lembrando de algo, que não sabia se era uma lembrança. Alguém falando com ele com uma voz doce. Ensinando-a tocar o piano. Ele não se recordava do rosto dela. Poderia ser sua mãe? Dentro do seu peito, ele sentia que sim. E que sentia falta dela, mais do que tudo no mundo.
- Infelizmente, eu não me recordo de nada – ele respondeu sincero. E pode ver que ela ficou com uma expressão desanimada – Mas, me recordo de alguém, tocando comigo. Uma mulher. Era mais velha que eu. E eu me senti como uma criança.
- Poderia ser sua mãe? – ela deduziu.
- Acredito que seja. Sonho com ela. Não me lembro do seu rosto. Mas, da sua voz. E tenho certeza que tem cabelos loiros. Mas, às vezes, é escuro, como o seu – ele comentou. E era curioso isso. Sentia que eram as mesmas mulheres.
- Entendo – ela disse pensativa – Queria muito ajuda-lo. Deve ser difícil não se lembrar de nada. Eu ficaria perdida sem minha família. Mas, não pense que está só. Estaremos aqui para você.
O coração dele se aqueceu ao ouvir isso. Aquela jovem se mostrava cada vez mais doce e tocando a fibra mais intima do seu ser. Ele nem deveria pensar nela, em qualquer termo. Enquanto estava desmemoriado, não sabia quem ela. E nem sabia se poderia dar-lhe um futuro. E sentiu que queria um, com ela. Mesmo m*l a conhecendo. Mas, estava sendo precipitado. Recordou-se de uma expressão, de repente. Estava se portando como um t**o apaixonado. Nem sabia se estava deslumbrado demais por sua beleza. Precisava se acalmar. Acalmar seu coração e seu corpo que despertava por ela.
- Eu agradeço por sua ajuda, senhorita – ele disse, tentando não olhar para ela. Mas, era quase impossível desviar o olhar daqueles olhos expressivos. E da sua boca rosada. Engoliu seco, apertando os punhos sobre as coxas.
- Bom, eu adorei vê-lo tocar – ela disse – E gostaria de ver mais vezes. Poderia tentar outros instrumentos – ela gesticulou. Havia uma harpa, um violino em um pedestal e um violoncelo. Todos eles Erik parecia sentir que sabia tocar – Mas, eu vim para outro motivo. Estava o procurando, quando ouvi sua linda música – Isso inflamou o ego dele. Ele nem sabia que era bom músico – Eu queria ajuda-lo a encontrar seus parentes. E pensei em desenhar seu rosto. Com esse desenho, podemos imprimir mais deles. Eu posso pedir para um conhecido para fazer isso. Ele é dono de uma editora. A editora Harrison. Seu nome e Antony Morgenstein. É primo de Henrietta Vaine, viscondessa de Klyne.
- Entendo. Bom, e a senhorita sabe fazer o retrato? – ele perguntou surpreso por ela conseguir fazer um retrato de uma pessoa. Estava cada vez mais encantado por ela.
- Sim, a única coisa que sei fazer nada vida. Desenhar. Com grafite. Não sou tão boa com pintora. Mas, desenhar é meu forte – ela sorriu, um pouco envergonhada, com as bochechas coradas – Então, eu pensei se o senhor me deixaria desenha-lo. O senhor me permite?
- Sim...é claro...eu...- seria péssimo ter que mostrar seu rosto ferido para ela e retirar a mascara que ganhou de lorde Derby, mas para que o retrato fosse fiel, teria que ser feito daquela maneira – Podemos começar, então – ele disse, por fim.
- Então, tudo bem. Gostaria de fazer aqui, nessa sala? – ela perguntou.
- Seria ótimo – ele aceitou.
- Eu já volto. Vou pegar o material que preciso para fazer seu retrato.
Ela saiu da sala, enquanto Erik aguardava. E ele ficou ansioso demais para vê-la de novo. Ao mesmo tempo em que estava receoso de posar na frente dela e mostrar seu rosto. O que ela pensaria dele? Será que ficaria com asco do seu rosto machucado? Será que ela ficaria com pena? Não gostava da pena. Preferia o nojo, a pena. Iria se sentir mais vulnerável se ela tivesse piedade.
Ela voltou à sala e ele percebeu que ela vestia um vestido elegante, para o dia. Era de cor amarelo, com mangas curtas, com uma saia rodada, espartilho apertado, com um formato redondo nos s***s. Os cabelos negros estavam em coque elegantes, deixando alguns cachos soltos na parte da frente. E as luvas que usava eram de crochê, de cor branca. Bom, parecia um pouco machada de tinta preta, para um observador mais atento. Ela pegou um banquinho e sentou-se a frente dele. Pediu que ele ficasse com uma postura relaxa e retirasse a mascara. Com uma prancheta e um papel, ela ia fazendo o esboço do seu rosto, com um lápis. E olhava atentamente para ele e para o papel. Ele se sentiu desconfortável, sendo observado daquela maneira. Era um olhar estudado, sem qualquer emoção. Ela estava concentrada, mordendo a ponta do lápis, com o vinco na testa, depois, olhava novamente para ele. Parecia avaliar o desenho e se era verossímil com o modelo vivo.
Depois do que pareceu muito tempo, ela terminou. E mostrou a ele. Os traços eram quase realistas. E ele se sentiu como aqueles homens em cartazes que via, quando estavam sendo procurados pela policia.
- Então, o que achou? – ela perguntou, apertando os dedos uns nos outros e parecendo estar receosa. Ele observou que seus dedos estavam manchados nas pontas.
- É perfeito – ele respondeu deslumbrado com seu talento. Olhava para seus traços e via seu nariz afilado, queixo quadrado, olhos penetrantes, sobrancelhas grossas e cabelos indomados. Aquilo não era exatamente bom, porque deveria ter penteado os cabelos, ao menos. Estava deselegante. E a parte que o mais deixou surpreso era a forma como ela desenhou a parte danificada do rosto. A pele queimada na altura do olho e da maçã, até a testa. Eram impressionantes os detalhes que ela deu com o sombreamento.
- Verdade? – ela perguntou, entusiasmada – Então, vou mandar imprimir agora.
Ela puxou a folha da mão dele e se levantou, decidida. Ele se levantou também, colocando a mascara de volta.
- Poderia acompanha-la? – ele se ofereceu.
- Não precisa. É aqui perto – ela disse – Eu volto em um instante.
- Não deveria sair desacompanhada – ele atalhou indo atrás dela, que já estava indo para a porta de saída – Leve seus irmãos ou uma acompanhante.
- Perfeito, então vou levar Louise – ela disse, continuando a andar e saiu da sala de música.
Ele a seguiu, um pouco confuso com o modo livre da jovem. Pelo menos, ele sabia que uma jovem não deveria sair sozinha. E deveria estar acompanhada.
- A senhorita Louise deve ter sete ou oito anos. Não serve como acompanhante – ele apontou.
Daphne parou de andar, com um olhar de aborrecimento para ele. E ele percebeu que ela comprimia os lábios rosados de forma adorável.
- O senhor é muito irritante, sabia? – ela disse.
- Eu sou? – ele se perguntou – Bom, eu acredito que sou cuidadoso. E tem uma reputação a zelar. Então, está decidido. Eu irei com a senhorita.
Ela ficou com o rosto tingido de vermelho. Parecia muito irritada.
- O senhor é impossível – ela disse, dando as costas para ele e indo em direção à escadaria.
- Eu sou. E vou ficar aqui na base da escada, esperando por você – ele disse, com um tom polido. Mas, rindo por dentro.
Ela subiu as escadas como se fosse um raio. E voltou depois, com uma bolsinha de conta no pulso, chapéu amarelo sobre a cabeça, um casaco estilo bolero de cor amarela, com mangas curtas e uma sombrinha branca na mão.
- Está encantadora – ele a elogiou, quando ela chegou até ele na base da escada.
Ela o fulminou com o olhar, ignorando o braço que ele oferecia para se apoiar e passou por ele, segurando a saia do vestido, para andar.
- E o senhor precisa pentear os cabelos – ela provocou.
Erik apenas gargalhou. E não desistiu de segui-la, quando mordomo abriu a porta para ela. Ele sabia bem que ela seria difícil de lidar. Mas, ele parecia saber que tinha um ímpeto muito maior dentro de si e que não desistia fácil de um desafio. E ela era um desafio para ele. Muito interessante.