O Teatro das Aparências

939 Words
Alessia Marino. Como Lyana poderia esquecer aquele nome? Assim que a loira atravessou a porta da sala de café, Lyana sentiu o estômago revirar. Os olhos castanhos da mulher se arregalaram ao vê-la ali, sentada à mesa como se nada tivesse acontecido nos últimos cinco anos. A mesma beleza de sempre, o mesmo jeito elegante de andar, como se o mundo fosse um palco e ela a estrela principal. — Lyana, há quanto tempo — disse Alessia com um sorriso forçado, a voz doce e falsa como mel envenenado. Lyana ergueu os olhos devagar, mantendo a xícara de café nos dedos. Ela não se levantou, não se abalou. — Como vai, Alessia? Sebastião não disse uma única palavra. Apenas observava, com aquele olhar entre o tédio e o prazer de ver as faíscas se formando no ar. Ele adorava aquele tipo de espetáculo. E isso só inflamava mais a raiva de Lyana. — O que você vem procurar aqui depois de cinco anos longe, depois de ter abandonado meu primo? — Alessia perguntou, sua voz agora mais afiada, quase desafiadora. Ah, então finalmente a cobra mostrava a língua. Lyana tomou mais um gole de café, com calma, como se nada pudesse tocá-la. — O que eu faço aqui só diz respeito a mim e ao seu querido priminho — respondeu, firme. Alessia riu com desdém e se virou para Sebastião. — Veja como ela é! Sempre maltratando os outros, sempre essa menina m*l-educada... A paciência de Lyana explodiu. Ela bateu a mão na mesa com força e se levantou, os olhos brilhando de fúria. — Educação? — perguntou. — Você quer falar de educação? Você, que sempre rastejou atrás de um homem que nem é seu? Uma cobra peçonhenta, é o que você sempre foi! O rosto de Alessia ficou vermelho de raiva, e Sebastião, como se tudo fosse parte de um teatro, se levantou no exato momento em que o mordomo apareceu na porta, avisando que os homens da vinícola o esperavam para uma reunião. — Com licença — disse Sebastião, contornando a mesa sem olhar para nenhuma das duas. Assim que ele saiu, Alessia se aproximou, agora livre para mostrar o veneno. — Então você veio buscar o quê? — sussurrou. — O divórcio? Foi isso que disse? Lyana apertou os olhos. Ela sabia o que estava por trás daquela pergunta. Alessia queria ter certeza. Queria ouvir da boca dela que Sebastião estaria livre para ela. — É, você ouviu direito — disse Lyana. — Vim buscar minha liberdade. O que você faz com ela depois disso não me interessa. Mas claro que interessava. Lyana se lembrava de cada olhar, cada sorrisinho m*****o, cada momento em que Alessia se fazia de boazinha diante da família, enquanto minava seu casamento por baixo dos panos. E todos diziam que ela era louca por sentir ciúmes da “prima”. Ela deixou a mesa, ignorando completamente Alessia, e saiu pela propriedade a pé. Precisava de ar. Precisava de espaço. A fazenda era linda. As videiras formavam desenhos perfeitos nas colinas suaves, e o cheiro da terra era reconfortante. Tudo ali era paz — exceto o que vivia dentro dela. Pegou o celular do bolso. A tela acendeu com o nome da mãe. Respirou fundo antes de atender. — Mamãe... — disse, seca. — Filhinha, só queria saber como você está. Quando vai voltar de vez pra casa? A raiva ferveu de novo. — Voltar? VOLTAR? Depois de tudo que vocês me fizeram? Como você e papai tiveram coragem de dizer a esse homem que eu voltaria? Vocês sabiam o que eu vivi naquele inferno! Do outro lado, a mãe tentou justificar. — Sebastião é um bom homem. Sempre te amou. Esses cinco anos, Lyana... ele sempre te acompanhou. Sempre foi atrás de você, mesmo sem você saber. Ele alugou seu apartamento, sabia da sua rotina, da sua amiga de quarto... — O QUÊ?! — gritou, o coração quase parando. — Você tá dizendo que minha vida foi uma mentira esse tempo todo? Que ele controlava tudo? — Era por amor... — tentou dizer a mãe, mas Lyana já não escutava. Desligou o telefone com a mão trêmula. Lágrimas escorriam pelos olhos, mas ela as limpou rapidamente. Não podia chorar. Não mais. “Tenho que sair desse inferno.” Entrou na casa decidida. Subiu as escadas até o quarto de hóspedes, pegou a maleta pequena e desceu em passos firmes. Um dos trabalhadores da vinícola passava pela porta. — Por favor, preciso ir até a cidade. É urgente. Pode me levar? O homem hesitou por um segundo, depois assentiu. Mentiu que era uma emergência de trabalho, que precisava resolver algo no hotel onde estava hospedada. Em minutos, estavam a caminho. Não olhou para trás. Não queria nem saber se Sebastião perceberia sua ausência. Talvez fosse melhor assim. Chegando ao hotel, foi direto para o quarto. Trancou a porta, jogou a mala no canto e desabou na cama. Por um momento, respirou. Achou que estava livre. Mas ainda precisava resolver o mais importante. Pegou o celular e ligou para o advogado. — Doutor? É Lyana. Preciso que acelere tudo. Ele está negando o divórcio e eu não aguento mais essa situação. Faça o que for preciso. Eu quero isso resolvido. Estava ainda falando, a voz embargada de exaustão, quando a porta do quarto se escancarou com violência. O celular caiu da sua mão. Na porta, parado com os olhos faiscando de raiva, estava Sebastião. Ele a encarava como se nada mais existisse. Como se ela fosse sua única obsessão. — Você achou mesmo que podia fugir de mim de novo, Lyana?
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