Fernanda acordou com a casa estranhamente quieta.
Nenhuma porta batendo. Nenhuma voz ao telefone. Apenas o silêncio pesado que parecia se espalhar pelos corredores. Ela passou a mão no rosto, ainda grogue, e só então percebeu: o celular não estava no criado-mudo.
— Ótimo… — murmurou.
Vestiu a primeira coisa que encontrou — o pijama simples, camiseta branca e shorts — e desceu as escadas devagar. Cada degrau rangia, anunciando sua presença.
Paulo já estava na cozinha.
Camisa escura, mangas dobradas, café servido com precisão quase irritante. Ele estava de costas, mas sorriu antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.
— Bom dia, bela adormecida — disse, sem se virar. — Achei que não ia acordar antes do meio-dia.
Fernanda parou no último degrau.
— Onde está meu celular?
Paulo levou a xícara à boca com calma exagerada.
— Guardado. Você anda perdendo o privilégio de usá-lo.
Ela entrou na cozinha, os passos firmes apesar da raiva crescendo no peito.
— Você não pode simplesmente pegar minhas coisas.
Ele finalmente se virou. O olhar foi rápido, automático, descendo por um segundo além do rosto dela — rápido demais para ser descarado, lento demais para passar despercebido. Paulo disfarçou quase imediatamente, apoiando a xícara no pires.
— Pode sentar — disse. — O café esfria.
— Não me dá ordens — ela rebateu.
— Dou, sim. Especialmente hoje.
Fernanda cruzou os braços.
— Por quê? O que você vai fazer hoje que exige esse show de controle logo cedo?
Paulo puxou a cadeira oposta e se sentou, apoiando os cotovelos na mesa.
— Vou sair. Missão de trabalho. Não sei que horas volto.
Ela sentiu um alívio imediato… que durou pouco.
— E você vai ficar aqui — ele completou. — Trancada.
Fernanda riu, incrédula.
— Você enlouqueceu de vez.
— Não. Eu previ suas próximas decisões — respondeu ele, tranquilo. — E nenhuma delas me agrada.
— Você não pode me manter presa numa casa!
Paulo inclinou a cabeça, avaliando-a como se fosse um problema matemático.
— Posso, sim. Enquanto essa casa for legalmente minha responsabilidade… e sua também.
— Isso é abuso de poder.
— Isso é prevenção.
Ela deu a volta na mesa, parando bem à frente dele.
— Você tem medo de quê, Paulo? Que eu fuja? Que eu fale com alguém? Ou que eu descubra algo que você não quer que eu descubra?
Por um segundo, o olhar dele endureceu. Mas o sorriso voltou logo depois, ensaiado.
— Você se acha mais perigosa do que realmente é.
— Então por que me trancar?
Silêncio.
Paulo se levantou, alto, imponente, pegando as chaves no balcão.
— Porque você ainda não entende limites — disse. — E eu não posso correr riscos.
— Eu não sou um risco. Eu sou um problema pra você.
Ele se aproximou até parar a poucos passos dela.
— Ainda não — respondeu, baixo. — Mas está se esforçando.
Paulo caminhou até a porta, parando antes de sair.
— Tem comida. Tem água. Tem tempo suficiente pra pensar — disse, sem olhar para trás. — Quando eu voltar, espero que esteja mais… cooperativa.
A porta se fechou.
O som da chave girando do lado de fora ecoou pela casa inteira.
Fernanda ficou parada no meio da cozinha, o café intocado, o coração acelerado.
Ela não estava apenas presa fisicamente.
Ela estava sendo testada.
Resolveu subir e ir para o quarto.
Passou o dia inteiro lendo e vendo TV.
A casa estava escura quando Paulo entrou.
A porta se fechou atrás dele com cuidado incomum. O braço esquerdo doía sob a faixa improvisada, o sangue já seco repuxando a pele a cada movimento. Não fora grave — um tiro de raspão — mas suficiente para deixá-lo alerta, irritado e perigosamente cansado.
Ele parou na sala.
Fernanda dormia no sofá.
Estava encolhida de lado, o corpo relaxado de quem finalmente tinha cedido ao cansaço depois de um dia inteiro presa. O shorts do pijama tinha subido um pouco enquanto ela se mexia dormindo, e Paulo desviou o olhar quase no mesmo instante em que percebeu.
O coração acelerou.
Ele respirou fundo, passando a mão livre pelo rosto.
— Concentra — murmurou para si mesmo.
Aproximou-se devagar e tocou o ombro dela com cuidado.
— Fernanda… acorda.
Ela resmungou, virando o rosto contra a almofada.
— Para… deixa eu dormir…
A voz saiu baixa, manhosa, carregada de sono. Paulo sentiu o corpo inteiro tensionar, mas manteve o tom firme.
— Não aqui. Você vai acordar toda travada.
Ela reclamou algo incompreensível quando ele passou um braço por baixo das pernas e o outro pelas costas, erguendo-a com cuidado, apesar da dor latejante no braço ferido.
— Você é impossível… — ela murmurou, abrindo os olhos só pela metade. — Me põe no chão…
— Fica quieta — ele respondeu, mais áspero do que pretendia.
Quando chegaram ao corredor, Fernanda abriu os olhos de vez.
— Espera… — ela franziu a testa. — Seu braço…
Paulo a segurou com mais firmeza automaticamente.
— Depois.
Mas ela já tinha visto.
— Você tá machucado — disse, agora totalmente desperta.
Ele entrou no quarto dela e a deitou na cama com cuidado, afastando-se logo em seguida. Fernanda se sentou devagar, o olhar preso na faixa improvisada, já manchada.
— O que aconteceu? — perguntou, a voz sem ironia pela primeira vez.
Paulo ficou alguns segundos em silêncio. Depois puxou a cadeira e se sentou, apoiando o braço ferido com cuidado.
— Trabalho — respondeu. — Uma operação que saiu do controle.
— Você levou um tiro? — ela perguntou, assustada.
— De raspão — ele corrigiu. — Nada que vá me derrubar.
Fernanda engoliu seco.
— Você disse que ia voltar só amanhã…
— As coisas mudaram.
Ela abaixou o olhar por um instante, depois voltou a encará-lo.
— E mesmo assim você se preocupou em me tirar do sofá.
Paulo soltou uma risada curta, sem humor.
— Não começa.
— Não tô começando nada — ela respondeu. — Só… — hesitou — você podia ter acordado alguém pra cuidar disso.
— Eu resolvo meus próprios problemas.
Fernanda observou o braço dele com atenção, o maxilar travado, a postura rígida de quem se recusa a demonstrar fraqueza.
— Isso dói, né? — ela perguntou, mais baixo.
Paulo sustentou o olhar dela.
— Não muda nada entre nós — disse. — Não confunda as coisas.
Ela se recostou no travesseiro, ainda alerta, mas mais silenciosa.
— Eu não confundi — respondeu. — Só notei.
Silêncio.
Paulo se levantou.
— Dorme. Amanhã a gente conversa.
Ele saiu do quarto antes que ela pudesse responder.
No corredor, apoiou a mão na parede por um segundo a mais do que gostaria.
Ele estava louco por uma garota que acabou de fazer 18 anos.
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