O braço de Paulo se fechava em torno do de Fernanda como uma algema viva. O barulho do local parecia distante demais, como se o mundo tivesse sido colocado no mudo no instante em que ele surgiu.
— Me solta — ela sussurrou, os olhos queimando de ódio e pânico.
Paulo não respondeu de imediato. O olhar dele varreu o ambiente, calculista, avaliando quem observava, quem poderia interferir. Depois se inclinou, a voz baixa, cortante:
— Você realmente achou que podia sair de casa, beber, rir… fingir que nada mudou?
Fernanda puxou o braço com força, conseguindo se soltar por um segundo.
— Você não manda em mim.
Paulo sorriu de lado, um sorriso frio, sem humor.
— Mando mais do que você imagina.
Sabryna se levantou num impulso.
— Ei, ela disse pra soltar—
— Isso não é assunto seu — Paulo cortou, sem sequer olhar para ela. — Fernanda vem comigo.
Will e Viny trocaram olhares, desconfortáveis. Não havia clima de festa ali. Havia algo errado, pesado demais para ignorar.
— Quem você pensa que é? — Will perguntou, tentando soar firme.
Paulo finalmente o encarou.
— O homem que o pai dela escolheu para cuidar do futuro dela.
Fernanda sentiu o estômago despencar.
— Não ouse falar do meu pai — ela rosnou.
Paulo se aproximou mais uma vez, invadindo o espaço dela.
— Seu pai confiou em mim. E deixou isso claro no testamento. Você pode fugir, espernear, se rebelar… — ele inclinou a cabeça, a voz quase um sussurro c***l — mas o destino já foi decidido.
— Você não é meu destino — ela respondeu, tremendo, mas sem baixar os olhos.
Por um instante, algo perigoso brilhou no olhar dele. Não raiva. Posse.
— Ainda vai entender que é.
Uma sirene distante cortou o ar. Talvez apenas trânsito. Talvez algo mais. Paulo afrouxou a postura, recompôs o rosto.
— Vamos conversar em casa — disse, agora num tom falsamente calmo. — Isso aqui já virou espetáculo.
Fernanda respirava rápido. Cada instinto gritava para correr. Para desaparecer. Mas ela sabia: aquilo não era só uma discussão. Era uma guerra silenciosa começando.
E Paulo não era o único jogando.
Quando ele se virou para sair, confiante de que ela o seguiria, Fernanda fez algo que nem ela mesma sabia que teria coragem.
— Eu vou anular esse testamento.
Paulo parou.
Virou-se lentamente.
— Tente.
O sorriso que surgiu em seu rosto não era de alguém com medo.
Era de alguém que já tinha planejado todos os próximos passos.
E, naquele instante, Fernanda entendeu:
o maior perigo não era obedecer.
Era desafiar alguém que acreditava que ela já lhe pertencia.
Paulo não pediu.
Ele simplesmente segurou o pulso de Fernanda e a conduziu para fora do bar, ignorando os olhares curiosos e os protestos abafados dela. O caminho até o carro foi silencioso, pesado, como se cada passo marcasse mais uma casa num tabuleiro invisível.
— Entra — disse ele, abrindo a porta.
— Eu não vou — Fernanda respondeu, o queixo erguido.
Paulo se inclinou até ficar à altura do rosto dela, a voz baixa, controlada.
— Vai sim. Ou eu explico para todos aqui fora exatamente por que seu pai confiou você a mim.
Ela engoliu seco.
Entrou.
O trajeto até a casa foi sufocante. O rádio desligado. Apenas o som do motor e da respiração tensa dos dois.
— Você não pode me arrastar assim — Fernanda quebrou o silêncio. — Eu não sou sua propriedade.
— Ainda não — Paulo respondeu sem olhar para ela. — Mas está fazendo de tudo para fingir que não sabe o que está escrito naquele testamento.
— Aquilo não é uma sentença. É um papel que pode ser contestado.
Paulo finalmente a encarou no semáforo, o olhar frio.
— Você acha mesmo que seu pai deixaria brechas?
A casa parecia diferente à noite. Maior. Mais silenciosa. Hostil.
Assim que entraram, Paulo trancou a porta.
O clique ecoou alto demais.
— Não tranca — Fernanda disse, virando-se rápido.
— Aqui é minha casa também — ele respondeu, largando as chaves sobre o aparador. — E você saiu sem permissão.
— Eu não preciso da sua permissão!
— Precisa enquanto viver sob esse teto.
Fernanda avançou um passo.
— Você usa o nome do meu pai como arma. Isso é doentio.
O maxilar de Paulo se contraiu.
— Eu cumpro promessas. Diferente de você, que foge, provoca e depois finge surpresa quando as consequências chegam.
— Consequências ou controle? — ela rebateu. — Porque tudo em você gira em torno disso.
Silêncio.
Paulo se aproximou devagar, não tocando nela, mas invadindo o espaço o suficiente para fazê-la recuar até encostar na parede.
— Você acha que esse joguinho vai durar quanto tempo, Fernanda? — perguntou. — Você muda chip, muda rotina, desafia… mas volta sempre para o mesmo lugar.
— Porque você me encurrala.
— Porque você ainda não entendeu as regras.
Ela respirava rápido, mas não desviou o olhar.
— Então explica — disse. — Porque eu não vou ser a garota obediente que você espera.
Algo mudou no rosto dele. Não raiva. Avaliação.
— As regras são simples — Paulo respondeu. — Você para de testar meus limites… e eu paro de apertar os seus.
— Isso é uma ameaça?
— É um aviso.
Fernanda empurrou o peito dele com força suficiente para criar distância.
— Eu vou derrubar isso. O testamento. Você. Tudo.
Paulo riu baixo, sem humor.
— Você fala como se estivesse sozinha. — Ele se virou, subindo o primeiro degrau da escada. — Mas não está.
Ele parou no meio do lance.
— E é isso que torna o jogo interessante.
Fernanda ficou ali, no meio da sala escura, sentindo o peso da casa sobre si.
Ela não era mais apenas observada.
Ela estava presa com o inimigo.
E isso era o bastante para deixá-la furiosa e sem muito o que fazer.
subiu as escadas em direção ao quarto deixando ele falando sozinho.
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