A batida na porta ecoou pelo quarto como um aviso definitivo.
Vitória respirou fundo uma vez. Depois outra.
Quando girou a maçaneta e abriu, o mundo pareceu diminuir ao redor dela.
Ele estava ali.
Kevin Brown.
Alto — quase intimidando o próprio espaço. Mais de dois metros de presença pura. Terno perfeitamente alinhado, como se nem o vento tivesse coragem de tocar nele. Ombros largos, postura rígida, dominante. Cabelos pretos bem arrumados. E os olhos… frios, profundos, calculando tudo antes mesmo da fala.
Ele olhou para ela de cima a baixo.
Sem pressa.
Sem disfarçar.
E então… um meio sorriso surgiu no canto da boca dele. Não era gentil. Era curioso. Quase como se tivesse encontrado algo inesperado.
— Então você é a Vitória… — a voz dele era baixa, firme.
Ela engoliu seco.
— Sim… pode entrar.
Ele passou por ela como se o ambiente já fosse dele. Olhou o quarto, analisou cada detalhe, depois voltou os olhos para ela.
— Você é ainda mais bonita pessoalmente.
— Obrigada… — ela respondeu, tentando manter a firmeza.
O silêncio entre os dois pesou por alguns segundos.
Kevin tirou o casaco com calma, jogando-o no encosto da cadeira sem pedir licença. Sentou na poltrona como se estivesse em uma reunião de negócios.
— Por que você tem interesse em fechar um contrato de submissão?
A pergunta veio direta. Sem filtro. Sem delicadeza.
Vitória respirou fundo.
— Bom… senhor Brow—
— Kevin.
A interrupção foi seca. Um comando, não um pedido.
Ela hesitou um segundo.
— Certo… Kevin. Vou resumir minha vida para você. E depois você decide se realmente me aceita.
Ele não respondeu. Só a observou. Analisando cada microexpressão, como se ela fosse um contrato vivo.
Vitória continuou:
— Me chamo Vitória Moreira. Tenho 24 anos. Eu era casada há três anos com um milionário.
Ela fez uma pausa curta. A voz ficou mais pesada.
— Mas eu engravidei… e tive minha filha há cinco dias.
Kevin franziu levemente o olhar. Ainda em silêncio.
— O problema… — ela continuou — é que ele surtou porque eu tive uma menina. Não um menino.
O maxilar de Kevin travou.
— Assim que eu saí da sala de parto… ele me forçou a assinar o divórcio. Mandou os seguranças colocarem minhas malas no hospital… e me deu um cheque de cinquenta mil.
Por um instante, o ar pareceu mudar.
Kevin soltou uma risada curta.
Fria.
Quase incrédula.
— Cinquenta mil?
— Exatamente isso — ela confirmou, sem desviar o olhar.
A risada dele morreu na mesma hora. O rosto endureceu de novo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos mais escuros.
Vitória continuou, agora mais firme, como se já tivesse passado da parte mais dolorosa:
— Eu não quero vingança. Não quero nada dele. Mas eu estou na rua. Só tenho esse dinheiro.
Ela respirou fundo.
— Entrei naquele site… e você comprou meu perfil.
O silêncio voltou.
Mais pesado.
Mais denso.
— Minha proposta é o seguinte — ela disse, finalmente. — Eu serei sua submissa em tudo. E você estipula quanto quer pagar e o tempo do contrato.
Kevin não se mexeu.
— Eu só preciso de pelo menos trinta dias… para meu corpo se recuperar do parto. Eu continuo no hotel ou onde você quiser que eu esteja.
Ela engoliu seco, mas seguiu.
— Com o dinheiro, eu pago uma babá para minha filha quando eu estiver com você. Você não precisa se preocupar com ela. Não vai ser um pai para ela.
A última frase saiu rápida, quase defensiva.
— Eu farei tudo o que você quiser… em troca de conseguir sustentar minha filha.
Ela levantou um pouco o queixo, apesar do nervosismo.
— Eu ainda estou… me adaptando a tudo isso. Mas até os trinta dias meu corpo vai estar melhor. Eu me cuido. Sempre me cuidei. Alimentação, treino, flexibilidade…
Ela parou por um segundo, percebendo o quanto estava tentando se justificar.
— Se você quiser… podemos fazer um bom contrato.
A voz dela baixou.
— Eu casei virgem. Então… você seria o segundo homem da minha vida. E se você não me quiser… eu vou entender.
O silêncio que seguiu foi absoluto.
E Kevin ficou alguns segundos em silêncio.
A forma como ela falou não tinha drama exagerado. Não tinha tentativa de convencer. Era só… exaustão. Uma decisão tomada no limite.
Ele cruzou as mãos à frente do corpo, ainda sentado, observando-a como se estivesse tentando desmontar cada palavra dela.
— Então você acabou de ter uma filha… — ele repetiu, mais baixo agora. — E quer assinar um contrato de submissão.
Vitória respirou fundo. Os olhos dela vacilaram por um segundo, mas a voz saiu firme.
— É loucura… eu sei. Mas eu não tenho outra saída.
Ela deu um passo leve para frente, como se quisesse deixar tudo claro antes que ele decidisse virar as costas.
— É melhor eu me tornar sua submissa e ter como sustentar ela do que ver minha filha sofrer.
O quarto pareceu ficar ainda mais silencioso.
— O senhor estipula as regras. Sem contato fora do necessário. Sem i********e emocional. Sem conversas desnecessárias.
Ela engoliu seco.
— Eu entro… faço o que o senhor mandar… e depois volto para minha filha.
Kevin finalmente desviou o olhar dela por um segundo, como se aquilo tivesse sido mais direto do que ele esperava.
Quando voltou a encará-la, a expressão dele estava mais dura.
— Você está transformando a sua vida em um acordo porque foi abandonada com um bebê de cinco dias.
A frase não foi uma pergunta.
Vitória não respondeu de imediato. Só assentiu, devagar.
Kevin se levantou.
O movimento dele encheu o quarto inteiro.
Ele deu alguns passos, parando perto da janela, olhando a cidade lá fora como se estivesse organizando pensamentos perigosos.
— Você não está pensando direito — ele disse, sem olhar para ela. — Você está em desespero.
Ela apertou as mãos.
— Eu estou sendo realista.
Ele virou de volta para ela.
Os olhos dele agora estavam mais frios do que antes.
— Realista seria proteger sua filha primeiro. Não se vender por um contrato que você nem entende completamente.
A palavra “vender” bateu nela com força.
Vitória respirou fundo, mas não recuou.
— Eu já fui descartada uma vez. Não vou deixar minha filha passar fome por orgulho.
Silêncio.
Kevin ficou encarando ela por longos segundos.
E então, pela primeira vez, a voz dele baixou um pouco.
— E se eu disser não?
Ela fechou os olhos por meio segundo.
Quando abriu, estavam marejados, mas firmes.
— Eu vou encontrar outro jeito… mesmo que demore. Mesmo que seja mais difícil.
Ela olhou direto para ele.
— Mas eu não vou voltar para aquela vida.
O ar entre os dois ficou pesado de novo.
Kevin a observou como se estivesse vendo algo que não encaixava no mundo dele.
E isso, mais do que qualquer contrato… era o que realmente incomodava ele.