CAPÍTULO 36 — QUANDO ELA PERCEBE QUE NÃO É FRACA

805 Words
Hana acordou com uma sensação estranha. Não era medo. Não era tristeza. Era clareza. O quarto ainda estava silencioso, Ji-Won dormia ao seu lado, respirando de forma calma. Ela o observou por alguns segundos, sentindo algo diferente daquela madrugada anterior: o peito já não apertava. A mente estava… desperta. Ela se levantou devagar e foi até a cozinha. Preparou café. Sentou-se à mesa. E, pela primeira vez desde que o envelope tinha chegado, não evitou pensar. Pegou o celular. Abriu as mensagens anônimas. Leu uma por uma. Não como quem apanha. Mas como quem analisa. As frases eram parecidas. O tom, repetitivo. Sempre o mesmo ponto: culpa, vergonha, abandono. Hana franziu a testa. — Isso não é aleatório… — murmurou. Ela abriu o envelope outra vez. Espalhou as fotos sobre a mesa. Não havia nada novo ali. Nada que Ji-Won não soubesse — ou que ela própria já não tivesse enfrentado. Então por que aquilo ainda doía tanto? A resposta veio como um estalo. Porque não era sobre o passado. Era sobre fazê-la acreditar que ela ainda vivia nele. Hana sentiu o coração acelerar. — Não… — disse para si mesma, em voz baixa. — Você está tentando me manter pequena. Ela lembrou das palavras de Ji-Won na noite anterior: “Alguém está tentando te colocar contra você mesma.” Era isso. Yoon-Hee não queria destruir Ji-Won. Nem a empresa. Nem a reputação. Ela queria que Hana se afastasse sozinha. E Hana finalmente enxergou. Ji-Won acordou pouco depois e estranhou o silêncio. Encontrou Hana sentada à mesa, postura ereta, o olhar firme — algo nela tinha mudado. — Bom dia — ele disse, cauteloso. Ela levantou o rosto e sorriu. Não um sorriso cansado. Um sorriso decidido. — Bom dia. Ele se aproximou. — Você está… diferente. — Estou acordada — ela respondeu. — De verdade. Ji-Won se sentou à frente dela. — O que aconteceu? Hana respirou fundo. — Eu percebi que não estou sendo atacada pelo que fui… — tocou as fotos — …mas pelo medo de voltar a ser aquilo. Ela ergueu o olhar. — E eu não sou mais aquela mulher. Ji-Won sentiu o peito apertar — de orgulho. — Hana… — Ela quer que eu me esconda. — A voz dela era firme. — Quer que eu me afaste. Quer que eu me desculpe por existir. Ela recolheu as fotos, sem pressa. — E eu não vou. Ji-Won segurou a mão dela. — O que você quer fazer? Hana pensou por alguns segundos. — Primeiro… eu vou parar de reagir com medo. — Depois… vou usar exatamente o que ela acha que é minha fraqueza. Ji-Won arqueou levemente a sobrancelha. — Isso soa perigoso. — Não tanto quanto continuar sangrando em silêncio. Naquele mesmo dia, Hana fez algo inesperado. Saiu sozinha. Sem avisar a imprensa. Sem seguranças. Sem fugir. Foi até o café onde Yoon-Hee costumava aparecer. Sentou-se perto da janela. Esperou. Não demorou. Yoon-Hee entrou como sempre: elegante, confiante, predadora. Quando viu Hana, o sorriso surgiu devagar. — Corajosa — disse, aproximando-se. — Ou inconsequente. Hana levantou os olhos. — Você perdeu o timing. Yoon-Hee piscou. — Como é? — Você devia ter me atacado antes — Hana respondeu com calma. — Antes de eu entender o jogo. Yoon-Hee inclinou a cabeça, avaliando. — Então você recebeu o presente. — Recebi. — Hana apoiou os cotovelos na mesa. — E sabe o que descobri? — Ilumine-me. — Que você não quer a verdade. Quer controle. — Hana sustentou o olhar. — E isso diz muito mais sobre você do que sobre mim. O sorriso da vilã vacilou por meio segundo. — Você acha mesmo que venceu? — Não. — Hana se levantou. — Mas também não perdi. Ela deu um passo à frente. — Você não me assusta mais. — A voz dela saiu baixa, firme. — Porque tudo o que você joga contra mim… eu já sobrevivi. Yoon-Hee fechou o semblante. — Isso ainda não acabou. Hana assentiu. — Eu sei. — Virou-se para sair. — Mas agora… estamos jogando em igualdade. Quando Hana voltou para casa, Ji-Won estava à espera. — Onde você foi? Ela o abraçou, forte. — Encarar o medo. Ele segurou o rosto dela. — E? — E ele não era maior do que eu. Ji-Won sorriu, emocionado. — Eu sabia. Hana respirou fundo. — Eu ainda vou te contar tudo. Cada detalhe. — Pausou. — Mas não porque estou com medo de te perder. — Ergueu o olhar. — É porque agora eu confio em mim. Ji-Won a puxou para um abraço longo. Naquele momento, algo mudou definitivamente. Hana não era mais apenas protegida. Ela estava em pé. E, em algum lugar da cidade, Yoon-Hee percebeu tarde demais: o medo que ela usava como arma… tinha acabado de virar escudo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD