CAPÍTULO 37 — O SILÊNCIO DEPOIS DA CORAGEM

746 Words
O confronto tinha acabado. Mas dentro de Hana, ele continuava. Naquela noite, o apartamento parecia grande demais. Cada canto guardava o peso do que fora dito — e do que ainda não fora. Ela caminhava de um lado para o outro, sentindo o corpo cansado como se tivesse corrido quilômetros, quando, na verdade, só tinha parado de fugir. Ji-Won observava em silêncio. Ele reconhecia aquele estado: não era medo, não era vitória. Era o vazio que vem depois da coragem. — Você quer falar? — perguntou, com cuidado. Hana balançou a cabeça. — Não sei por onde começar. Ela se sentou no sofá e encarou as próprias mãos. Ainda tremiam. Não de pavor — de descarga. Como se o corpo estivesse finalmente entendendo que sobreviver também cansa. — Quando eu saí do café — ela começou, a voz baixa — senti orgulho. Por alguns minutos. Fez uma pausa. — Depois… senti culpa. Ji-Won franziu a testa. — Culpa por quê? — Por ter deixado aquilo me afetar tanto. — Ela respirou fundo. — Por ter acreditado, mesmo sabendo que não era verdade. Ele se aproximou e sentou ao lado dela. — Hana, reconhecer que algo doeu não te torna fraca. Ela soltou um riso curto, amargo. — Eu sei. Mas, quando encarei a Yoon-Hee… percebi que ainda carrego cicatrizes abertas. E isso me assustou. O silêncio se instalou entre eles. Não era desconfortável — era necessário. — Você não precisa estar curada para ser forte — Ji-Won disse, por fim. — Só precisa continuar aqui. Hana apoiou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos. — Eu tive medo de que, depois de enfrentá-la… tudo desmoronasse. — Abriu os olhos e o encarou. — Medo de perder você. Ji-Won sentiu o peito apertar. — Olha pra mim. Ela obedeceu. — Você não me perdeu quando teve medo. — Ele segurou a mão dela. — Você me ganhou quando decidiu não se esconder. As lágrimas vieram, silenciosas. Não eram de dor aguda. Eram de cansaço. Hana encostou o rosto no ombro dele. — Eu não quero ser forte o tempo todo. — Então não seja. — Ji-Won a envolveu num abraço firme. — Eu fico forte por nós quando você precisar descansar. Ela respirou fundo, deixando o corpo pesar. Pela primeira vez, permitiu-se não sustentar nada. Mais tarde, já no quarto, Hana acordou sobressaltada. O coração acelerado, a respiração curta. Ji-Won despertou imediatamente. — Ei… estou aqui. Ela levou alguns segundos para reconhecer o quarto. A cama. O abraço. — Sonhei que estava sozinha — sussurrou. — Você não está — ele respondeu, beijando a testa dela. — Não agora. Não depois de tudo. Hana ficou em silêncio, ouvindo o coração dele. O ritmo calmo ajudou o dela a desacelerar. — Enfrentar a Yoon-Hee foi importante — ela disse, depois de um tempo. — Mas também abriu coisas que eu achava que estavam enterradas. — Algumas coisas só cicatrizam quando respiram — Ji-Won respondeu. Ela assentiu, lentamente. — Eu vou precisar de tempo. — Eu sei. — E talvez… de ajuda. Ji-Won sorriu de leve, aliviado. — Isso também é coragem. Na manhã seguinte, Hana acordou com o corpo pesado, mas a mente mais clara. Não havia mensagens novas. Nenhum envelope. Nenhuma ameaça. Ainda assim, ela sabia: o confronto tinha mudado o jogo. E jogos mudados cobram preço. Enquanto se vestia para sair, percebeu algo diferente no espelho. O olhar estava cansado, sim. Mas havia algo novo ali. Presença. Ela não tinha vencido a vilã. Não tinha encerrado o passado. Mas tinha feito algo talvez mais difícil: tinha ficado. Do outro lado da cidade, Yoon-Hee observava relatórios, irritada. Nada tinha saído como planejado. Hana não tinha recuado. Não tinha se escondido. — Interessante… — murmurou, com o olhar frio. — Então você prefere sentir a dor inteira. Ela fechou a pasta com força. — Tudo bem. — Um sorriso tenso surgiu. — Vamos ver quanto tempo você aguenta. À noite, Hana e Ji-Won caminharam juntos pela varanda do apartamento. A cidade estava iluminada, viva. — Ainda tem medo? — ele perguntou. — Tenho — ela respondeu com honestidade. — Mas agora ele não me paralisa. Ji-Won segurou a mão dela. — Então estamos prontos para o próximo passo. Hana olhou para ele, respirou fundo. — Estamos. O silêncio que se seguiu não era vazio. Era expectativa. Porque depois da coragem… vem a consequência. E o amor deles estava prestes a ser testado de uma forma diferente.
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