CAPÍTULO 33 — QUANDO O MEDO VOLTA A SUSSURRAR

814 Words
Hana acordou antes do amanhecer. O quarto ainda estava escuro, o silêncio pesado demais para continuar dormindo. Por alguns segundos, não soube onde estava — apenas sentiu o coração acelerado, a respiração curta, o corpo em alerta. O mesmo sonho. As mesmas vozes. Os mesmos olhares que a julgavam sem conhecê-la. Ela virou o rosto devagar. Ji-Won dormia ao seu lado, a expressão tranquila, uma das mãos ainda repousando em sua cintura como se, mesmo dormindo, quisesse protegê-la. Hana observou aquele gesto simples… e sentiu culpa. Será que eu sou forte o suficiente para estar aqui? Será que vou acabar arrastando ele para o fundo comigo? O medo voltou silencioso, traiçoeiro. Ela se levantou com cuidado, para não acordá-lo, e foi até a sala. Sentou-se no sofá, abraçando os próprios joelhos, encarando a cidade pela janela. As luzes ainda estavam acesas. O mundo não dormia. E parecia pronto para apontar o dedo outra vez. O celular vibrava sobre a mesa. Mensagens antigas reapareciam — comentários cruéis, matérias compartilhadas, opiniões que ninguém pediu. Mesmo depois da defesa pública de Ji-Won, ainda havia quem quisesse vê-la cair. “Ela só está ali por interesse.” “Mulher com passado problemático nunca muda.” “Ele vai se arrepender.” Hana sentiu o peito apertar. As palavras entravam como veneno lento. Ela respirou fundo, tentando se lembrar de tudo o que havia conquistado. Mas, naquela madrugada, o passado falava mais alto. — Talvez… — ela sussurrou para si mesma — talvez eu esteja atrapalhando a vida dele. As lágrimas vieram sem aviso. Ji-Won acordou alguns minutos depois, sentindo o vazio ao lado. O primeiro instinto foi procurar. Encontrou Hana sentada no sofá, chorando em silêncio. O coração dele se partiu em dois. Ele se aproximou devagar, ajoelhou-se diante dela e segurou suas mãos frias. — Ei… — disse com voz baixa — o que aconteceu? Hana tentou sorrir, mas falhou. — Desculpa… eu achei que estava melhor. Ji-Won balançou a cabeça. — Você não precisa pedir desculpa por sentir. Ela respirou fundo, as palavras saindo com dificuldade. — Eu acordei com medo. — confessou. — Medo de que isso tudo seja grande demais. Medo de que eu não consiga acompanhar. Medo de que… um dia você perceba que amar alguém como eu dá trabalho demais. Ji-Won engoliu em seco. — Hana… — Eu sei que você me defende, me protege, luta por mim — ela continuou, com a voz embargada. — Mas e se um dia você se cansar? E se eu for sempre a parte difícil da sua vida? O silêncio que se seguiu doeu. Ji-Won se sentou ao lado dela e puxou-a para um abraço apertado, firme, inteiro. — Escuta uma coisa — ele disse, com o rosto encostado nos cabelos dela. — Você não é a parte difícil da minha vida. Você é a parte verdadeira. Hana chorou mais forte. — Eu não quero te machucar — ela sussurrou. — Então não vai. — Ele segurou o rosto dela, obrigando-a a encará-lo. — Porque eu estou aqui por escolha. Todos os dias. Mesmo quando dói. Especialmente quando dói. Ela balançou a cabeça, confusa. — Mas eu ainda tenho medo. — Eu sei. — Ji-Won sorriu com tristeza. — E sabe o que isso significa? — O quê? — Que você está curando. — Ele tocou a testa dela com a dele. — Pessoas quebradas fingem que não sentem. Pessoas que estão se curando… têm recaídas. As palavras dela começaram a se reorganizar por dentro. — Eu não vou te deixar — ele continuou. — Nem quando você duvidar de si mesma. Nem quando o passado gritar. Nem quando o mundo for c***l. Hana fechou os olhos. — Promete? — Prometo ficar. — Ele beijou a testa dela. — Não como herói. Como alguém que escolheu amar você inteira. Com luz e com sombra. Ela se agarrou à camisa dele, como se estivesse segurando o próprio chão. — Eu queria ser mais forte… — Você já é. — Ji-Won respondeu. — Só esquece disso às vezes. Quando o sol começou a nascer, Hana estava exausta, mas mais calma. O medo não tinha desaparecido — mas estava menor. Ela apoiou a cabeça no ombro de Ji-Won, observando a cidade acordar. — Obrigada por não me soltar — ela disse. — Eu nunca soltei. — Ele sorriu. — Só estava esperando você lembrar disso. Hana respirou fundo. Talvez o amor não curasse tudo. Mas ele ensinava a atravessar. E, naquele amanhecer silencioso, ela entendeu: não precisava ser perfeita para ser amada. Só precisava continuar ficando. Do lado de fora, em algum lugar da cidade, alguém observava relatórios e recortes de notícias. E sorria. A recaída de Hana não tinha sido vista por todos. Mas alguém sabia: quando uma pessoa começa a duvidar de si mesma… é quando ela fica mais vulnerável. A tempestade ainda não tinha terminado.
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