CAPÍTULO 32 — ANTES QUE O MUNDO VOLTE A DOER

789 Words
A noite caiu devagar sobre a cidade, como se tivesse pena de interromper a paz frágil que Hana e Ji-Won haviam construído. O apartamento estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes suaves da sala e pelo brilho distante dos prédios do outro lado da janela. Hana estava sentada no sofá, as pernas dobradas, envolta em um cobertor. O dia tinha sido pesado demais para palavras. Ji-Won observava de longe, respeitando o espaço dela — aprendendo, pouco a pouco, que amar também é saber esperar. Ele se aproximou com duas xícaras de chá quente. — Camomila. — disse baixo. — Dizem que ajuda a acalmar. Ela sorriu de leve. — Você anda aprendendo muito rápido. — Estou tentando ser o tipo de homem que você merece. Hana ergueu o olhar, surpresa com a sinceridade. — Você já é. Ele se sentou ao lado dela, deixando um espaço pequeno, quase tímido. Por alguns segundos, ficaram apenas respirando o mesmo ar. — Você está com medo? — Ji-Won perguntou. Ela demorou a responder. — Estou. — confessou. — Mas não do que estão dizendo. Estou com medo de perder isso. — tocou levemente o braço dele. — Esse lugar onde consigo respirar. Ji-Won virou-se totalmente para ela. — Então vamos proteger isso. Nem que seja só aqui, entre essas quatro paredes. Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o corpo dele relaxar. O silêncio que se formou não era vazio — era confortável. — Quando eu era mais nova — Hana disse, quase num sussurro — eu achava que amor precisava doer para ser real. Hoje… só quero que seja seguro. Ji-Won fechou os olhos por um instante. — Eu passei a vida inteira achando que precisava ser forte o tempo todo. Que mostrar sentimentos era fraqueza. — Ele riu sem humor. — Você mudou tudo isso. Hana ergueu o rosto para olhá-lo. — Eu não te mudei. Só te vi de verdade. Ele passou o polegar pelo dorso da mão dela, com cuidado. — Ficar com você me dá medo. — confessou. — Mas é o tipo de medo que vale a pena. Ela sorriu, com os olhos marejados. — Então estamos quites. Mais tarde, no quarto, a cidade parecia distante. A janela aberta deixava entrar o som suave do vento. Hana estava deitada, observando o teto, quando Ji-Won se aproximou. — Posso? — perguntou, apontando para o espaço ao lado dela. — Sempre pôde. Ele deitou-se, mantendo uma distância respeitosa. Mas Hana foi quem se aproximou primeiro, encaixando-se no abraço dele como se aquele lugar sempre tivesse sido seu. — Fica comigo hoje? — ela pediu. — Eu fico. — respondeu sem hesitar. — Quantas noites forem necessárias. Ji-Won passou a mão pelos cabelos dela, devagar. — Se amanhã tudo ficar mais difícil… — ele começou. — Então a gente lembra dessa noite. — ela completou. — Do silêncio. Do calor. Do jeito que você me segura como se eu fosse importante. Ele engoliu em seco. — Você é. Hana fechou os olhos, sentindo o coração bater no mesmo ritmo que o dele. Ali, protegida nos braços de Ji-Won, ela não era manchete, nem vítima, nem símbolo. Era apenas uma mulher amada. No meio da madrugada, Hana acordou assustada com um sonho antigo. Respiração curta, mãos trêmulas. Ji-Won acordou no mesmo instante. — Ei… está tudo bem. — sussurrou, puxando-a para mais perto. — Desculpa — ela disse, a voz embargada. — Às vezes o passado ainda grita. — Então deixa ele gritar. — Ji-Won beijou a testa dela. — Eu fico aqui até ele cansar. As lágrimas vieram, silenciosas. Ela se agarrou à camisa dele, como se aquele abraço fosse uma âncora. — Promete que não vai embora quando ficar difícil? — Hana perguntou, quase em prece. Ji-Won segurou o rosto dela, fazendo-a encará-lo. — Eu prometo ficar. Mesmo quando eu não souber como ajudar. Mesmo quando eu tiver medo. Mesmo quando o mundo tentar nos separar. Ela sorriu, chorando. — Isso já é tudo. Ele a beijou com ternura, um beijo lento, profundo, cheio de cuidado. Não havia pressa. Não havia urgência. Só a certeza silenciosa de que aquele amor estava crescendo do jeito certo. Quando o sono voltou, Hana adormeceu nos braços dele. Ji-Won permaneceu acordado por mais alguns minutos, observando o rosto tranquilo dela. Pensou em tudo o que ainda viria. Nas batalhas. Nas decisões difíceis. Mas, ali, naquela noite simples, ele soube: não importava o que o mundo trouxesse — ele lutaria por ela. Porque amar Hana não era um risco. Era a única escolha que fazia sentido. E, do lado de fora, a cidade continuava acordada. Planejando. Esperando. A tempestade ainda viria. Mas, por enquanto, o amor tinha um lugar seguro para existir.
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