Ji-Won não dormiu depois daquela noite.
O corpo estava ao lado de Hana, quente, presente — mas a mente permanecia em alerta.
Ele sabia.
Alguém estava atacando pelas sombras.
E ele não cometeria o mesmo erro de antes:
não esperaria a dor virar desastre.
Quando Hana finalmente adormeceu, exausta do próprio medo, Ji-Won se levantou com cuidado, pegou o celular e foi até a varanda.
O vento frio da madrugada atingiu seu rosto, mas não esfriou a decisão que já estava tomada.
Ele ligou para uma única pessoa.
— Eu preciso que você investigue algo para mim. Sem registros oficiais. Sem deixar rastros.
Do outro lado da linha, um silêncio breve.
— Entendido — respondeu a voz. — Quem é o alvo?
Ji-Won fechou os olhos por um instante.
— Yoon-Hee.
Na manhã seguinte, Hana acordou com o cheiro de café fresco.
Ji-Won estava na cozinha, como se nada tivesse acontecido.
Camisa branca, mangas dobradas, expressão tranquila demais para quem tinha passado a madrugada em guerra.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
Ela hesitou antes de responder.
— Um pouco melhor.
Ele sorriu suave.
— Fico feliz.
Ji-Won não perguntou nada.
Não pressionou.
Não pediu explicações.
E isso, estranhamente, deixou Hana ainda mais nervosa.
— Você… não vai me perguntar o que aconteceu ontem à noite? — ela disse, sentando-se à mesa.
Ji-Won colocou a xícara diante dela com cuidado.
— Quando você estiver pronta para falar, eu vou ouvir.
Ela o encarou.
— E se for algo f**o?
— Então eu vou sentar ao seu lado mesmo assim.
As palavras eram simples, mas tocaram fundo.
Hana sentiu vontade de chorar.
Mas também sentiu algo diferente: confiança.
Enquanto Hana tentava seguir o dia normalmente, Ji-Won fazia o que sempre soube fazer melhor — agir com precisão.
Na empresa, chamou discretamente o chefe de segurança.
— Quero monitoramento total de mensagens anônimas ligadas ao nome da Hana.
— Isso inclui e-mails externos, redes sociais e qualquer tentativa indireta de contato.
— Entendido.
— E mais uma coisa — Ji-Won completou, com o olhar frio. — Quero um histórico completo de tudo que Yoon-Hee fez desde que voltou ao país.
O homem engoliu seco.
— Tudo, senhor?
— Tudo.
À tarde, Ji-Won recebeu o primeiro retorno da investigação paralela.
As mensagens anônimas tinham origem mascarada.
Mas o padrão era claro.
Não eram ataques aleatórios.
Eram psicológicos.
— Ela está tentando quebrá-la antes de se expor — disse o investigador. — Quer que Hana se afaste por conta própria.
Ji-Won apertou o maxilar.
— Não vai acontecer.
— Há algo mais — a voz continuou. — Yoon-Hee tem um dossiê. Antigo. Detalhado. Ela não vazou tudo… ainda.
Ji-Won sentiu o estômago revirar.
— O que ela está esperando?
— O momento em que Hana estiver mais instável.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ji-Won olhou pela janela do escritório, a cidade pulsando lá embaixo, alheia à guerra íntima que se travava.
— Então vamos antecipar.
Em casa, naquela noite, Hana percebeu pequenas mudanças.
O porteiro a cumprimentou de forma mais cuidadosa.
O elevador parecia mais monitorado.
O celular não vibrou com mensagens estranhas.
— Você fez algo — ela disse, desconfiada.
Ji-Won fechou a porta e se virou para ela.
— Fiz o que eu devia fazer desde o começo.
Ela cruzou os braços.
— Ji-Won… eu não quero que você lute minhas batalhas sozinho.
Ele se aproximou devagar.
— Eu não estou lutando por você. — tocou o rosto dela com carinho. — Estou lutando com você, mesmo quando você ainda não consegue.
Hana sentiu o nó na garganta.
— E se isso te custar tudo? — ela perguntou, a voz frágil.
Ji-Won respondeu sem hesitar:
— Então eu pago o preço.
Ela o abraçou forte, como se o mundo estivesse tentando arrancá-lo dela.
E ele ficou.
Firme.
Inteiro.
Mais tarde, quando Hana já dormia, Ji-Won recebeu uma última mensagem naquela noite.
Uma foto.
O mesmo envelope pardo.
Agora nas mãos de Yoon-Hee.
A legenda dizia apenas:
Ela ainda não te contou tudo, não é?
Ji-Won fechou os olhos.
Não de medo.
De controle.
— Você subestimou a pessoa errada — murmurou.
Ele bloqueou o celular e voltou para o quarto.
Deitou-se ao lado de Hana, puxando-a para perto.
Ela se mexeu, ainda dormindo, e encostou o rosto no peito dele.
Ji-Won a segurou com mais força.
A guerra estava declarada.
Mas, dessa vez, Hana não seria pega sozinha.
E Yoon-Hee estava prestes a descobrir uma coisa perigosa:
amar em silêncio não é fraqueza.
É estratégia.