CAPÍTULO 4 — O JOGO DA SOMBRA

1016 Words
O corredor do laboratório parecia menor daquela tarde. O ar estava tenso, como se as paredes tivessem ouvido algo que elas não deviam. Hana ainda sentia a presença de Soo-Yeon como um odor agressivo preso na roupa, uma ameaça elegante que não precisava gritar para ferir. Ela tentou se concentrar nos dados, nas séries de números que deviam ser frios, exatos. Mas as palavras de Soo-Yeon rodopiavam na cabeça: “não gosto quando se envolve com funcionárias”. Era uma sentença que insinuava muito e dizia nada — o pior tipo. O som do telefone tocando a interrompeu. Era Min-Ho. — Almoço hoje? — a mensagem era curta, direta, quase urgente. Hana olhou para o relógio. Era meio-dia e a sala estava mais silenciosa do que o normal. Decidiu aceitar. Precisava respirar fora daquele ar contaminado pela presença de Soo-Yeon. No pequeno restaurante perto do hospital, Min-Ho a recebeu com o sorriso caloroso que fazia o peito de Hana doer de forma reconfortante. Ele tinha um jeito médico de cuidar: mãos calmas, voz que não apressava. Quando ela contou a chegada de Soo-Yeon, ele franziu as sobrancelhas. — Ela é perigosa, Hana. Não é só ciúme. Soo-Yeon sabe como cavar buracos e jogar terra por cima. — Ele falou baixo, olhando para os lados, como se temesse ser ouvido. — Por que com você? — Hana perguntou. — Por que ela fala comigo como se eu fosse um problema? — Porque você está perto dele — disse Min-Ho, colocando a mão sobre a dela, um gesto simples que a fez sentir protegida. — E ele… ele tem coisas que não quer que apareçam. Pessoas assim têm medo da verdade que você traz. Hana sentiu o rosto esquentar. Verdade? O que poderia ela, uma estrangeira meia-perdida, trazer para alguém tão blindado quanto Ji-Won? — Eu não quero me envolver em nada — murmurou ela. — Só quero trabalhar. Min-Ho sorriu com tristeza. — Acontece que, às vezes, a vida escolhe por nós. Voltando ao trabalho, Hana encontrou jornalistas no saguão. Homens e mulheres com crachás, câmeras e um sorriso afiado. Um anúncio público? Seu estômago gelou. Na área de entrada, um painel mostrava notícias da corporação: Haneul Corp apresenta novo projeto internacional. E, ao lado, a foto em destaque de Soo-Yeon sorrindo em um evento — a imagem de quem sempre sabe como aparecer na hora certa. Antes que pudesse entender, Soo-Yeon subiu os degraus com passos calculados. Atrás dela, discretamente, vinham dois assessores com tablets. Quando Soo-Yeon chegou ao centro do saguão, pegou o microfone que um dos assessores deixou cair e falou com a voz clara que todos conheciam: — É maravilhoso ver a Haneul recebendo talentos do mundo todo — disse, olhando para a câmera e depois para Ji-Won, que observava da varanda da diretoria. — Mas gostaria de lembrar que a reputação da empresa não aceita distrações pessoais. Precisamos manter o foco. A plateia aplaudiu, alguns por educação, outros por medo. Hana sentiu os olhos cortando sua pele como facas. — Distração pessoal? — alguém murmurou. Soo-Yeon sorriu. — Sim. E se alguém aqui pensa que a empresa deve ser um abrigo para romances… sinto muito, mas esse não é o caso. O comentário pairou como uma nuvem pesada. Hana sentiu as mãos suadas, o ar curto. As pessoas ao redor trocavam olhares, sussurravam. Certo ou errado, a semente da dúvida foi plantada. Ji-Won desceu as escadas num passo medido. Parou junto de Soo-Yeon, frio como sempre, mas suas palavras, quando vieram, foram mais precisas do que qualquer lâmina. — Haneul Corp não tolera impropriedades. — Ele disse, olhando primeiro para a plateia, depois para Soo-Yeon, e por fim, sem intenção aparente, cruzou o olhar com Hana. — E tampouco tolera acusações sem provas. Soo-Yeon sorriu com uma pitada de escárnio. — Curioso você dizer isso, Ji-Won. Mas quando você protege alguém demais, as pessoas perguntam por quê. — Ela virou o rosto lentamente para Hana. — Especialmente quando essa pessoa é contratada de fora e aparece misteriosamente entre nossos projetos. O que ela queria? Que Hana saísse correndo? Que perdesse o emprego antes mesmo de começar? Se havia algo que Soo-Yeon esperava, era ver a mulher encolhida. Hana suportou. Não tinha mais forças para implorar. Mas então Ji-Won fez algo que fez o sangue dela gelar e também aquecer de forma contraditória: ele pôs a mão no peito, como se sentisse o coração acelerado, e falou sem som, quase só para ela, — Fique com a cabeça erguida. A multidão começou a dispersar. As palavras foram suficientes para desligar a atenção momentânea. Ji-Won levou Soo-Yeon pelo braço numa demonstração de propriedade que não passou despercebida. Hana observou, com o coração martelando, a cena que deveria deixá-la grata e a deixou… confusa. Mais tarde, na sala vazia do laboratório, Hana apoiou as costas na mesa e deixou as lágrimas silenciosas caírem. Não era vergonha; era o peso de se sentir exposta. Sentiu um toque no ombro. Era Min-Ho, que trouxe um copo de chá e um olhar que dizia: eu acredito em você. — Não deixe que te façam pequena — ele disse. — E se precisar, eu luto ao seu lado. As palavras eram doces, honestas. Hana sorriu, agradecida, mas dentro dela algo diferente borbulhava: uma mistura de medo, esperança e uma atração confusa por aquele homem que a defendia em público e a resfriava em privado. Ji-Won era tempestade; Min-Ho, por enquanto, era abrigo. Ela sabia, com uma clareza que doía: as próximas semanas não seriam fáceis. Mas também sabia que havia começado algo que poderia mudar tudo — para o bem ou para o m*l. E, ao olhar pela janela, viu Ji-Won no estacionamento, parado sob a chuva fina, segurando um guarda-chuva que tinha sido testemunha da primeira noite que dividiram. Ele não parecia protegido por ele — parecia guardando algo. Algo que talvez, um dia, viesse à tona. Hana apertou o copo na mão, sentindo a temperatura passar para os seus dedos. O jogo entre sombras havia começado. Ela só precisava decidir se ia jogar, fugir… ou lutar.
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