CAPÍTULO 3 — O HOMEM QUE NÃO SABIA SENTIR

777 Words
A chuva ainda batia nas janelas da cobertura quando Ji-Won voltou para sua sala. Ele largou o guarda-chuva dobrado sobre o sofá de couro e afrouxou a gravata, respirando fundo como se tivesse acabado de correr uma maratona emocional. Por quê? Por que aquela mulher mexia com ele daquele jeito? Sentou-se na cadeira, passando a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo. Era ridículo. Ele não se abalava por ninguém. Não há anos. Não depois de tudo que tinha acontecido. Mas a imagem dela sorrindo — aquele sorriso pequeno, tímido, corajoso — consumia o espaço na mente dele de um jeito que o deixava inquieto. Uma notificação acendeu na tela do celular. Era uma mensagem de Min-Ho. “Hyung, amanhã almoço no hospital? Preciso falar com você.” Ji-Won suspirou. Min-Ho era seu único amigo. O único que sabia parte dos seus traumas. Mas nem ele conhecia tudo. E Ji-Won pretendia manter assim. Ele respondeu apenas: “Veremos.” Jogou o celular sobre a mesa, levantou-se e foi até a janela. A cidade brilhava em neon, refletida na chuva pesada. Ao olhar para baixo, viu um ponto de luz — o movimento das pessoas correndo com guarda-chuvas, taxis, a pressa da vida — e imaginou Hana caminhando sozinha, com passos apressados e aquele casaco barato encharcado. Sentiu um incômodo no peito. — i****a… — murmurou para si mesmo. No metrô, Hana respirava fundo, tentando controlar o sorriso que insistia em escapar. Parecia boba. E sabia disso. — Ele só foi educado. Não significa nada — repetiu várias vezes. Mas seu coração não acreditava. Porque o olhar dele… havia algo ali. Uma tensão. Um peso. Um mundo inteiro escondido atrás daqueles olhos afiados. Ela encostou a cabeça contra o vidro, observando as gotas escorrerem do lado de fora. A cidade era grande, estranha, linda… e solitária. Mas Ji-Won tinha feito aquela noite parecer menos fria. Quando chegou no pequeno quarto que alugava, jogou a bolsa na cama e respirou fundo. Precisava dormir cedo para não se atrasar de novo. Antes de deitar, abriu o notebook para ligar para a mãe no Brasil. Mas ao ver a tela inicial, seu coração apertou. Uma pasta antiga. Fotos do casamento dela. Fotos do homem que a destruiu. Rapidamente ela fechou o computador, como se aquilo queimasse. — Nova vida… — sussurrou. — Nova Hana. Mas as lágrimas vieram mesmo assim. Na manhã seguinte, Hana chegou quinze minutos mais cedo — exatamente como Ji-Won “recomendou”. Quando entrou na empresa, ele já estava lá. Sempre estava. Sério. Impecável. Distante. Ele olhou para ela rapidamente, como quem faz um inventário silencioso: Casaco seco. Cabelo arrumado. No horário. — Bom dia — ela disse, tentando parecer profissional. — Bom dia — ele respondeu sem olhar muito. Mas quando ela passou por ele, algo o impulsionou a falar: — Hana. Ela se virou. Ji-Won hesitou por um instante. Seu rosto era sério, mas seus olhos… tinham uma estranha suavidade. — Obrigado por ontem — ele disse. Hana piscou, surpresa. Ele agradecendo? Impossível. — Eu só… caminhei com você até o metrô. Não foi nada demais. Ji-Won desviou o olhar, sem saber como continuar. Sentia-se exposto demais. — Mesmo assim — murmurou. — Obrigado. Hana sorriu — aquele sorriso que ele tanto evitava encarar — e entrou na sala. Ji-Won ficou parado no corredor, imóvel, como se a presença dela tivesse mudado a gravidade do lugar. À tarde, no laboratório, Hana se dedicava a revisar os dados do projeto quando a porta se abriu bruscamente. Era uma mulher linda, elegante, com cabelos longos e pretos, salto alto perfeitamente afiado e perfume caro. Soo-Yeon. Ela entrou como quem possui o espaço. — Você deve ser a nova estrangeira — disse, olhando Hana de cima a baixo com desprezo bem disfarçado. Hana se levantou, educada. — Prazer, eu sou a Hana— — Não precisa — cortou Soo-Yeon. — Sei quem você é. Antes que Hana pudesse entender, Ji-Won apareceu logo atrás, tenso. — Soo-Yeon. Não tinha horário marcado. — Não preciso de horário marcado, Ji-Won — ela disse, com um sorriso venenoso. — Principalmente quando quero ver quem você anda “protegendo”. O estômago de Hana revirou. Ji-Won fechou o rosto. — Não comece. Soo-Yeon cruzou os braços. — Você sabe que não gosto quando se envolve com funcionárias. Hana congelou. Ji-Won arregalou os olhos, irritado. — Não estou envolvido com ninguém. Soo-Yeon se aproximou dele, tocando seu terno com i********e. — Então ótimo. Porque eu ainda não terminei com você, Ji-Won. Hana sentiu o coração despencar. E Ji-Won… pela primeira vez, olhou para Hana como se tivesse medo de perdê-la sem sequer tê-la.
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