A noite parecia mais silenciosa do que de costume quando Hana voltou para seu pequeno apartamento.
Ela ainda sentia a presença de Ji-Won na pele, o peso do toque dele na testa, o quentinho da respiração dele misturada com a dela…
Era um momento que ela jamais esqueceria.
Mas junto com o calor vinha o medo.
O medo de se entregar.
O medo de estar criando expectativas.
O medo de ser destruída outra vez.
Ela tirou o casaco devagar e o colocou sobre a cadeira, respirando fundo enquanto a sala escura a envolvia.
Não estava acostumada a sentir tanta coisa ao mesmo tempo.
Era bonito… e apavorante.
Sentou-se na beira da cama e deixou o rosto cair entre as mãos.
— Não posso passar por isso de novo… — sussurrou.
Mas não sabia se falava do amor… ou da dor.
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Do outro lado da cidade, Ji-Won estava no escritório, ainda completamente molhado da chuva.
Ele não tinha voltado para casa.
Não tinha trocado de roupa.
Não tinha respondido mensagens.
Só ficou parado ali, encarando o próprio reflexo na janela, a cidade acesa abaixo e o peso de algo novo apertando o peito.
Ele nunca tinha sentido aquilo.
Aquela vulnerabilidade.
Aquele medo de perder.
Aquele impulso irracional de correr atrás de alguém.
Aquela dor quando Min-Ho tocou Hana.
Aquela vontade de segurá-la para si.
Ji-Won apertou o parapeito com força.
— O que está acontecendo comigo? — murmurou.
Ele sempre foi treinado para ser inabalável.
Para ser perfeito.
Para não sentir.
Sentir era perigoso.
Sentir o destruíra no passado.
E agora… estava acontecendo de novo.
Mas desta vez era diferente.
Desta vez era Hana.
E Hana tinha algo que ninguém mais tinha:
a capacidade de enxergar a dor que ele escondia.
Ji-Won fechou os olhos, e pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se lembrar.
A irmã.
O acidente.
O sangue.
O grito.
O peso esmagador da culpa o sufocando por anos.
Ele se apoiou na mesa, sentindo o ar faltar por um instante.
— Eu não posso… — sussurrou, com a voz trêmula. — …não posso machucar ela.
E então ele percebeu:
o medo maior não era amá-la.
Era que ela descobrisse quem ele realmente era por dentro.
Um homem quebrado.
⸻
Na manhã seguinte, Hana chegou cedo ao trabalho.
Não conseguira dormir.
Ainda sentia o coração pesado.
Quando entrou no elevador, encontrou Min-Ho lá dentro.
Ele sorriu — um sorriso sincero, acolhedor, o tipo de sorriso que ela sabia que merecia, mas que não conseguia receber totalmente.
— Você está bem? — ele perguntou.
Hana forçou um sorriso.
— Estou… só cansada.
Min-Ho observou atentamente.
Ele sempre percebia.
— Hana… — começou com cuidado — você sabe que, se estiver passando por algo difícil, pode falar comigo, né?
Ela desviou o olhar.
— Eu sei. E agradeço por isso. Mas algumas coisas… eu preciso lidar sozinha.
Ele suspirou, mas respeitou.
— Não importa como, eu estou aqui — disse com suavidade.
As portas do elevador abriram e Hana saiu, com o coração apertado.
Min-Ho era tudo que deveria fazer bem ao coração dela…
mas era outra pessoa que fazia seu peito doer de verdade.
⸻
Quando entrou no escritório, encontrou Ji-Won encostado na mesa dela.
Ele estava impecável como sempre — terno alinhado, cabelo arrumado — mas havia algo diferente em seus olhos.
Cansaço?
Medo?
Vulnerabilidade?
Ela não soube identificar.
— Posso falar com você? — ele perguntou, a voz baixa demais para um CEO.
Hana assentiu, surpresa.
Eles foram para uma sala vazia. Ji-Won fechou a porta com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa entre eles.
Ele respirou fundo.
— Sobre ontem… — começou.
Hana sentiu o coração disparar.
Ji-Won olhou fixamente para o chão por alguns segundos antes de erguer o olhar para ela.
— Eu não devia ter dito aquilo.
Hana sentiu uma pontada de dor.
Claro.
Ele ia voltar atrás.
— Está tudo bem — respondeu, tentando manter o tom neutro. — Eu entendo. Foi só um momento. Estávamos cansados. A chuva…
— Não — ele interrompeu, dando um passo à frente. — Não é isso.
Ela piscou, confusa.
O olhar dele queimava.
— Eu não devia ter dito… — ele corrigiu, a voz falhando — …que não sei lidar com o que sinto por você.
O ar sumiu do peito dela.
Ji-Won desviou o olhar por um instante, como se aquilo fosse pesado demais de admitir.
— Eu… estou tentando não te machucar — ele disse. — Estou tentando ser alguém que você merece. Mas a verdade é que… — respiração trêmula — …eu não sei como fazer isso.
Hana ficou imóvel.
Ji-Won parecia estar confessando algo que nunca disse a ninguém, algo arrancado à força do fundo de um oceano escuro.
— Eu tenho medo, Hana — ele finalmente admitiu. — Medo disso. Medo de nós. Medo de sentir algo que eu não sei controlar.
Ela deu um passo à frente.
— Ji-Won…
— E tenho medo — ele continuou, a voz falhando — …de que você veja quem eu realmente sou. E vá embora.
Hana sentiu o coração quebrar devagar.
Não de dor…
mas de compreensão.
Ela levantou a mão, devagar, e tocou o rosto dele.
Ji-Won fechou os olhos imediatamente ao sentir o toque.
Como se fosse algo que ele desejava há muito tempo, mas nunca teve coragem de pedir.
— Eu não vou embora — Hana disse, com sinceridade suave. — Não por ver quem você é. Mas por você esconder quem é.
Os olhos dele se abriram, e havia ali algo que ela nunca tinha visto:
Medo.
Dor.
Esperança.
— Hana… — ele sussurrou, o nome dela escapando como uma prece.
E naquele instante, ela entendeu:
O homem frio que todo mundo temia…
era apenas alguém que nunca soube ser amado.