CAPÍTULO 10 — O SILÊNCIO QUE MACHUCA, O OLHAR QUE CONFESSA

965 Words
A noite parecia mais silenciosa do que de costume quando Hana voltou para seu pequeno apartamento. Ela ainda sentia a presença de Ji-Won na pele, o peso do toque dele na testa, o quentinho da respiração dele misturada com a dela… Era um momento que ela jamais esqueceria. Mas junto com o calor vinha o medo. O medo de se entregar. O medo de estar criando expectativas. O medo de ser destruída outra vez. Ela tirou o casaco devagar e o colocou sobre a cadeira, respirando fundo enquanto a sala escura a envolvia. Não estava acostumada a sentir tanta coisa ao mesmo tempo. Era bonito… e apavorante. Sentou-se na beira da cama e deixou o rosto cair entre as mãos. — Não posso passar por isso de novo… — sussurrou. Mas não sabia se falava do amor… ou da dor. ⸻ Do outro lado da cidade, Ji-Won estava no escritório, ainda completamente molhado da chuva. Ele não tinha voltado para casa. Não tinha trocado de roupa. Não tinha respondido mensagens. Só ficou parado ali, encarando o próprio reflexo na janela, a cidade acesa abaixo e o peso de algo novo apertando o peito. Ele nunca tinha sentido aquilo. Aquela vulnerabilidade. Aquele medo de perder. Aquele impulso irracional de correr atrás de alguém. Aquela dor quando Min-Ho tocou Hana. Aquela vontade de segurá-la para si. Ji-Won apertou o parapeito com força. — O que está acontecendo comigo? — murmurou. Ele sempre foi treinado para ser inabalável. Para ser perfeito. Para não sentir. Sentir era perigoso. Sentir o destruíra no passado. E agora… estava acontecendo de novo. Mas desta vez era diferente. Desta vez era Hana. E Hana tinha algo que ninguém mais tinha: a capacidade de enxergar a dor que ele escondia. Ji-Won fechou os olhos, e pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se lembrar. A irmã. O acidente. O sangue. O grito. O peso esmagador da culpa o sufocando por anos. Ele se apoiou na mesa, sentindo o ar faltar por um instante. — Eu não posso… — sussurrou, com a voz trêmula. — …não posso machucar ela. E então ele percebeu: o medo maior não era amá-la. Era que ela descobrisse quem ele realmente era por dentro. Um homem quebrado. ⸻ Na manhã seguinte, Hana chegou cedo ao trabalho. Não conseguira dormir. Ainda sentia o coração pesado. Quando entrou no elevador, encontrou Min-Ho lá dentro. Ele sorriu — um sorriso sincero, acolhedor, o tipo de sorriso que ela sabia que merecia, mas que não conseguia receber totalmente. — Você está bem? — ele perguntou. Hana forçou um sorriso. — Estou… só cansada. Min-Ho observou atentamente. Ele sempre percebia. — Hana… — começou com cuidado — você sabe que, se estiver passando por algo difícil, pode falar comigo, né? Ela desviou o olhar. — Eu sei. E agradeço por isso. Mas algumas coisas… eu preciso lidar sozinha. Ele suspirou, mas respeitou. — Não importa como, eu estou aqui — disse com suavidade. As portas do elevador abriram e Hana saiu, com o coração apertado. Min-Ho era tudo que deveria fazer bem ao coração dela… mas era outra pessoa que fazia seu peito doer de verdade. ⸻ Quando entrou no escritório, encontrou Ji-Won encostado na mesa dela. Ele estava impecável como sempre — terno alinhado, cabelo arrumado — mas havia algo diferente em seus olhos. Cansaço? Medo? Vulnerabilidade? Ela não soube identificar. — Posso falar com você? — ele perguntou, a voz baixa demais para um CEO. Hana assentiu, surpresa. Eles foram para uma sala vazia. Ji-Won fechou a porta com cuidado, como se qualquer barulho pudesse quebrar alguma coisa entre eles. Ele respirou fundo. — Sobre ontem… — começou. Hana sentiu o coração disparar. Ji-Won olhou fixamente para o chão por alguns segundos antes de erguer o olhar para ela. — Eu não devia ter dito aquilo. Hana sentiu uma pontada de dor. Claro. Ele ia voltar atrás. — Está tudo bem — respondeu, tentando manter o tom neutro. — Eu entendo. Foi só um momento. Estávamos cansados. A chuva… — Não — ele interrompeu, dando um passo à frente. — Não é isso. Ela piscou, confusa. O olhar dele queimava. — Eu não devia ter dito… — ele corrigiu, a voz falhando — …que não sei lidar com o que sinto por você. O ar sumiu do peito dela. Ji-Won desviou o olhar por um instante, como se aquilo fosse pesado demais de admitir. — Eu… estou tentando não te machucar — ele disse. — Estou tentando ser alguém que você merece. Mas a verdade é que… — respiração trêmula — …eu não sei como fazer isso. Hana ficou imóvel. Ji-Won parecia estar confessando algo que nunca disse a ninguém, algo arrancado à força do fundo de um oceano escuro. — Eu tenho medo, Hana — ele finalmente admitiu. — Medo disso. Medo de nós. Medo de sentir algo que eu não sei controlar. Ela deu um passo à frente. — Ji-Won… — E tenho medo — ele continuou, a voz falhando — …de que você veja quem eu realmente sou. E vá embora. Hana sentiu o coração quebrar devagar. Não de dor… mas de compreensão. Ela levantou a mão, devagar, e tocou o rosto dele. Ji-Won fechou os olhos imediatamente ao sentir o toque. Como se fosse algo que ele desejava há muito tempo, mas nunca teve coragem de pedir. — Eu não vou embora — Hana disse, com sinceridade suave. — Não por ver quem você é. Mas por você esconder quem é. Os olhos dele se abriram, e havia ali algo que ela nunca tinha visto: Medo. Dor. Esperança. — Hana… — ele sussurrou, o nome dela escapando como uma prece. E naquele instante, ela entendeu: O homem frio que todo mundo temia… era apenas alguém que nunca soube ser amado.
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