CAPÍTULO 29 — O PASSADO QUE AINDA ECOA

931 Words
O céu de inverno parecia diferente fora da cidade — mais limpo, mais silencioso. A estrada se estendia à frente como uma promessa, e o som suave do carro misturava-se ao da música que tocava baixinho no rádio. Ji-Won dirigia com uma mão, a outra descansando perto da dela no banco entre os dois. O olhar dele alternava entre a estrada e o reflexo dela no vidro. Hana observava o horizonte, quieta, com o vento bagunçando os fios de cabelo. — Está muito silenciosa — ele disse. — É bom — respondeu ela, sorrindo de leve. — Às vezes a gente precisa do silêncio pra entender o que sente. Ji-Won olhou por um instante, o sorriso discreto. — Então espero que entenda coisas boas hoje. O destino era um chalé pequeno à beira de um lago, cercado por árvores nuas e o som distante de pássaros. O lugar parecia fora do tempo. Quando chegaram, Ji-Won desceu primeiro, esticou o corpo e inspirou o ar frio. — Esse lugar é onde eu venho quando tudo parece pesado demais — disse. — Achei que talvez você também precisasse respirar um pouco. Hana sorriu, emocionada. — É lindo. Parece… paz. — É isso que eu quero que você sinta. Ela caminhou até a beira do lago. O reflexo da água tremia sob o vento, e o silêncio ali era profundo — um tipo de silêncio que escuta. Ji-Won se aproximou por trás e colocou o casaco dele sobre os ombros dela. — Está frio. Ela assentiu, mas não respondeu. O olhar fixo na água, perdido em alguma lembrança distante. — Hana? Ela respirou fundo. — Sabe… eu nunca te contei tudo sobre o meu passado. Ji-Won parou ao lado dela, atento. — Só o que você quiser contar. Hana demorou um pouco, como se organizasse as palavras. — Antes de vir pra Seul, eu era casada. Ji-Won a olhou, surpreso, mas não disse nada. — Foi um casamento curto. E errado desde o começo. — Ela engoliu em seco. — Eu achava que amava, mas… amava a ideia de ser amada. Ele era gentil no início. Até não ser mais. O vento soprou, leve, e ela continuou: — Eu fiquei anos me culpando. Por não ter saído antes. Por ter acreditado. Por ter deixado que me diminuíssem. Ji-Won fechou os punhos sem perceber. — Ele te machucou? Hana desviou o olhar, lágrimas silenciosas começando a cair. — De todos os jeitos que não deixam marca visível. Ji-Won deu um passo à frente, mas parou, respeitando a distância. — Hana… Ela sorriu triste. — Quando eu te conheci, achei que você seria igual. Frio, distante, o tipo que não deixa ninguém chegar perto. E quando começou a se aproximar… eu me apavorei. Achei que ia doer de novo. Ele respirou fundo, a voz trêmula: — E doeu? Hana olhou pra ele, os olhos marejados. — Doeu. Mas de um jeito diferente. — Ela fez uma pausa. — Porque dessa vez doeu crescer, não me esconder. As lágrimas que escorriam agora eram calmas, como libertação. Ji-Won se aproximou devagar, até ficar bem diante dela. Não disse nada — apenas estendeu a mão. Ela olhou para os dedos dele e, por um segundo, hesitou. Mas depois colocou a própria mão sobre a dele. O toque foi suave, quase tímido. Ele segurou firme, aquecendo. — Eu nunca vou te fazer sentir pequena — Ji-Won disse, com a voz baixa e firme. — Eu prometo. Ela fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem livremente. — Eu sei. É por isso que eu fico. Ji-Won a puxou para um abraço — não de paixão, mas de refúgio. O tipo de abraço que desfaz os nós que o mundo cria. Hana encostou o rosto no peito dele, ouvindo o coração dele bater. — Às vezes ainda dói lembrar — ela sussurrou. — Mas eu quero que você saiba que não estou quebrada. Só… fui moldada de um jeito diferente. Ele a apertou um pouco mais. — E é exatamente assim que eu te amo. Do jeito que você é. Mais tarde, no chalé, o fogo crepitava na lareira. Hana estava enrolada em uma manta, olhando as chamas dançarem. Ji-Won trouxe duas xícaras de chá e sentou-se ao lado dela. — Sabe o que eu pensei? — ele disse. — Que talvez o amor seja isso: aprender a ser gentil com o que o outro carrega. Hana olhou pra ele, emocionada. — E aceitar que algumas dores não desaparecem — completou. — A gente só aprende a caminhar com elas sem deixar que pesem tanto. Ele assentiu, os olhos presos nos dela. — E, se um dia pesarem, eu quero estar lá pra segurar junto. Ela sorriu, com os olhos marejados. — E eu pra te lembrar que você também pode descansar. O silêncio voltou, mas dessa vez era bonito. Do lado de fora, o vento soprava entre as árvores, e o lago refletia o brilho suave da lua. Ji-Won pegou a mão dela novamente. — Hana… obrigada por confiar em mim com o seu passado. Ela apertou os dedos dele. — E obrigada por não tentar consertar o que só precisava ser compreendido. Ficaram ali, juntos, observando o fogo, o som do vento e o próprio coração se acalmando. O amor deles não era mais o mesmo da cidade — não era o amor que precisava ser visto ou defendido. Era o amor que simplesmente sabia ficar. E, pela primeira vez, Hana sentiu que o passado não a prendia mais. Ele só a havia preparado para reconhecer o que era verdadeiro.
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