CAPÍTULO 30 — QUANDO O PASSADO VIRA ARMA

973 Words
O dia seguinte amanheceu com o céu cinza, e o silêncio do chalé era quase doce demais para o que estava por vir. Hana acordou com a cabeça encostada no ombro de Ji-Won, o coração leve, a alma calma — por um instante, acreditou que o mundo tinha, enfim, parado de cobrar dela. Mas o mundo nunca para. O toque do celular de Ji-Won quebrou o momento. Ele se afastou devagar, pegou o aparelho e o olhar mudou. O rosto sereno se fechou. — O que foi? — Hana perguntou, ainda sonolenta. Ele respirou fundo. — Acho que o passado… não gosta de ficar quieto. Estendeu o telefone a ela. Na tela, uma notícia: “Hana Lee: o passado obscuro da mulher que conquistou o CEO da Haneul Corp.” E abaixo, o texto c***l — fotos antigas, uma cópia distorcida do registro de casamento, o nome do ex-marido, as datas. A manchete usava palavras frias: “Escândalo, traição, segredos.” O coração dela despencou. — Não… não pode ser. Ji-Won já estava ligando para o assessor de imprensa. — Descubra quem vazou isso — disse, firme, mas o tremor nas mãos o traía. Hana levantou-se, caminhando até a janela. O reflexo dela no vidro parecia de outra pessoa — a mulher que tentou tanto se reconstruir agora exposta para o país inteiro. — Eles transformaram minha dor em manchete — sussurrou. — Outra vez. — Hana… — Ji-Won se aproximou. — Eu não sou uma história pra vender cliques, Ji-Won! — A voz dela saiu trêmula, entre raiva e desespero. — Eu confiei que, longe da cidade, a gente podia respirar… e agora estou sendo julgada por ter amado errado antes! Ele tentou tocá-la, mas ela recuou. — Não é culpa sua — disse. — Mas eu não sei se consigo passar por isso de novo. Ji-Won respirou fundo, forçando a calma. — Você não vai passar sozinha. — Já disseram isso antes. — A voz dela quebrou. — E quando ficou difícil, todos foram embora. Dessa vez ele não respondeu com promessas. Apenas caminhou até ela, pegou o celular das mãos dela e o colocou de lado. — Olha pra mim. — A voz dele era firme. — Eu não vou permitir que o seu passado seja usado pra apagar quem você é agora. Ela o olhou, lágrimas caindo sem força para contê-las. — Você não pode impedir o que as pessoas vão pensar. — Talvez não. Mas posso impedir o que elas vão fazer. Horas depois, o caos se espalhava pela empresa. O nome de Hana estava em todos os portais, e repórteres aguardavam na entrada. Ji-Won cancelou todas as reuniões, bloqueou a imprensa, e convocou o conselho. Quando ele entrou na sala de reuniões, os diretores se levantaram, agitados. — Senhor Kang, essa situação é grave — começou um deles. — A imagem da companhia— — A imagem da companhia não é mais importante que a verdade — cortou Ji-Won. — E a verdade é simples: Hana Lee é vítima de uma invasão de privacidade e difamação. O silêncio caiu. Um dos conselheiros tossiu, desconfortável. — Mesmo assim, senhor Kang, a mídia— — Deixem a mídia comigo — Ji-Won respondeu. — Eu vou lidar com eles pessoalmente. Hana, por outro lado, se recusava a sair do chalé. Desligou o celular, afastou o computador, ignorou o mundo. Mas o mundo insistia em bater à porta, através de notificações, mensagens, lembranças. Quando ouviu o barulho do carro lá fora, achou que fosse mais um repórter. Mas era Ji-Won. Molhado da chuva, exausto, mas determinado. — Você devia estar na empresa — ela disse, sem olhá-lo. — Eu devia estar onde você está — respondeu. Ele tirou algo do bolso. Uma pasta. Dentro, cópias de documentos, mensagens e e-mails rastreados. — O vazamento veio de dentro — explicou. — O nome dela está aqui. Hana olhou. E sentiu o estômago revirar. Yoon-Hee. Claro. A mulher que não suportava perder. Que preferia destruir a ver alguém feliz. — Eu devia ter previsto isso — Hana sussurrou. — Ninguém prevê crueldade — Ji-Won respondeu. — Mas a gente pode enfrentá-la. Ele se ajoelhou diante dela, segurando as mãos dela entre as dele. — Eu não posso apagar o que estão dizendo. Mas posso te prometer que não vou deixar essa história terminar assim. As lágrimas dela voltaram, agora silenciosas. — Por quê, Ji-Won? Por que ainda está lutando? Ele sorriu triste. — Porque eu sei o que é perder você. E não quero viver isso outra vez. Na manhã seguinte, Ji-Won deu uma coletiva de imprensa. Hana assistiu pela televisão, o coração apertado. Ele estava sereno, firme. — A pessoa que vocês estão tentando destruir é a mulher mais forte que conheço — disse diante das câmeras. — O que ela viveu antes de mim não é escândalo. É sobrevivência. E, se isso for motivo de julgamento, então julguem a mim também. O salão inteiro ficou em silêncio. Os flashes cessaram. E, pela primeira vez, o mundo pareceu ouvir. Hana cobriu a boca, as lágrimas caindo em silêncio. Não de dor. De gratidão. Ele não apenas a defendeu. Ele a libertou. À noite, Ji-Won voltou para o chalé. Encontrou Hana sentada na varanda, com uma manta sobre os ombros. Quando ele se aproximou, ela se levantou. Não disse nada. Apenas o abraçou. O vento frio passou entre eles, mas o abraço era quente. — Obrigada — ela sussurrou. — Por não me deixar correr. — Eu não te deixei correr — ele respondeu. — Eu corri junto. Ela encostou o rosto no peito dele e fechou os olhos. Pela primeira vez, não sentia medo do passado. Porque agora ele não era um peso — era só uma história que já tinha acabado. E o amor deles, finalmente, começava a escrever a próxima.
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