A tarde se arrastava pesada, como se a empresa inteira estivesse segurando a respiração.
Hana não conseguiu trabalhar depois do que viu.
O mundo parecia girar muito rápido, enquanto ela ficava parada no mesmo ponto — frágil, cansada, machucada.
Quando finalmente decidiu sair, precisava apenas de ar.
Respirar.
Fugir de todos os olhares que pesavam sobre ela.
Ela pegou sua bolsa e desceu pelas escadas, passo a passo, tentando controlar o tremor nas mãos.
Não queria chorar ali dentro.
Não queria dar o gosto a ninguém.
O vento frio a atingiu assim que empurrou as portas de vidro.
E foi então que ela ouviu:
— Hana!
A voz que ela não sabia se queria ouvir.
Ela fechou os olhos por um instante.
Respirou fundo.
E virou bem devagar.
Ji-Won estava ali.
Ofegante.
Como se tivesse corrido.
Os cabelos um pouco bagunçados.
O olhar… desesperado.
Não era o CEO impecável.
Era um homem tentando desesperadamente não perder algo importante.
Ele deu alguns passos na direção dela.
— Hana… — disse, com a voz baixa, mas cheia de urgência — precisamos falar. Agora.
Ela apertou os dedos ao redor da alça da bolsa.
— Eu não tenho nada para dizer, Ji-Won.
Ele parou a menos de um passo dela.
— Mas eu tenho. — O tom dele tremeu, quase imperceptível. — Por favor… só me escuta.
Hana olhou para o chão.
Por um segundo, quase cedeu.
Mas a dor era maior.
— Eu estou… cansada — ela disse, finalmente encarando-o. — Cansada de ter que explicar que eu não fiz nada errado. Cansada de você olhar para mim e… e hesitar. Sempre hesitar.
Ji-Won respirou fundo, como se cada palavra dela fosse um golpe.
— Eu vi o arquivo — ele confessou, com dificuldade. — O acesso saiu do seu nome…
— Você achou que fui eu — Hana completou, fria. — De novo.
Silêncio.
Ele tentou dar mais um passo.
— Eu estou tentando, Hana. Eu juro que estou tentando confiar—
Ela recuou.
— Confiar não é tentar — sua voz quebrou. — Confiar é escolher.
Ele ficou parado.
Como se ela tivesse arrancado o ar dos pulmões dele.
Hana continuou:
— Você quer que eu acredite que está mudando… mas sempre que algo acontece, sempre que algo ameaça sua imagem, sua empresa, sua zona de conforto… você me vê como a variável mais fraca.
Aquela que pode ter errado.
Aquela que pode ter feito algo errado.
Aquela que você precisa “confirmar”.
Ji-Won fechou os olhos, sentindo a verdade bater forte demais.
— Eu sei — ele disse, com a voz falha. — Eu sei que falhei com você. Eu sei que te feri de novo. Mas… — ele abriu os olhos, sinceros, desesperados — …Hana, eu não quero te perder.
A frase jogou o mundo dela em silêncio.
A chuva, que começara fina, agora escorria mais forte pelos vidros da entrada da empresa.
O vento frio acariciou os cabelos dela.
Hana deu um passo para trás.
— Ji-Won… às vezes querer não basta.
Ele sentiu o chão abrir.
— Me diga o que fazer — pediu, quase suplicando. — Qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa para consertar isso.
Hana engoliu em seco.
— Você não precisa fazer.
Você precisa SER.
Ser alguém que confia.
Ser alguém que acredita.
Ser alguém que não me olha como uma ameaça.
Ji-Won abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Hana respirou fundo, tentando se manter firme.
— Eu não posso te ensinar isso — ela disse suavemente. — E você não pode aprender enquanto eu estiver aqui… levando o impacto de cada erro seu.
As lágrimas vieram — dela e dele — quase ao mesmo tempo.
— Hana… — a voz dele quebrou. — Por favor…
— Eu preciso ir — ela sussurrou.
E virou de costas.
A chuva começou a despencar de verdade, batendo no chão como se acompanhasse o som do coração dele partindo.
Ji-Won deu um passo à frente, como se fosse alcançá-la.
Mas parou.
Porque havia algo no jeito dela andar daquela vez…
algo definitivo.
Algo que dizia que se ele a segurasse naquele momento…
poderia perdê-la para sempre.
Ele ficou ali.
Imóvel.
Molhado.
Destruído.
Vendo Hana desaparecer pela calçada cinzenta.
Minutos depois, Min-Ho entrou apressado pela porta.
— Onde ela está? Eu vi ela sair chorando—
Ji-Won não respondeu.
Só encarava o vazio.
Os olhos vermelhos.
A camisa colada ao corpo pela chuva.
— Eu estraguei tudo — ele disse, quase sem voz.
E pela primeira vez, Min-Ho viu Ji-Won não como CEO…
mas como um homem quebrado, lutando contra demônios que não sabia controlar, enquanto perdia a única pessoa que começava a trazer luz para dentro dele.
E do lado de fora…
Hana caminhava sob a chuva, sentindo que a vida estava mudando.
E que, talvez, essa mudança fosse necessária.
Mesmo que doesse.