— Eu vou ter que ir com essa roupa? — Pergunto, me olhando no espelho da sala de estar. O reflexo me mostra com uma saia curta e uma blusa justa que ele me deu, e tudo parece fora de lugar. Me sinto exposta, vulnerável.
— Vai, ué. Qual o problema? — Ele fala, enquanto mastiga alguma coisa e anda até mim, seu olhar penetrante me analisando.
— Não sei... Será que é porque está muito curto? — Tento justificar, mas no fundo sei que nada do que eu disser vai mudar a situação. Ele revira os olhos, claramente impaciente.
— Jura que essa é tua preocupação agora? — Ele ri, com um tom debochado. — Pelo amor de Deus, né?
— E qual seria a minha preocupação então? — Retruco, cruzando os braços. Eu queria ao menos tentar impor algum controle sobre o que estava acontecendo, mas era inútil.
— Sei lá, mina, vamos logo que eu tô com pressa. — Ele resmunga, já caminhando até a porta com passos pesados.
— Eu não tenho nem chinelo. — Faço um bico, tentando ganhar tempo. Claro, o que eu realmente queria era escapar dessa situação. Sair de perto dele, desaparecer, mas sei que isso não é uma opção.
Coringa bufa, claramente irritado com minha hesitação, e em um movimento rápido, me ergue do chão. Ele me carrega para fora da sala de estar sem cerimônia, batendo a porta com força. Sinto a pressão de sua mão firme ao redor da minha cintura.
— Você não tranca a porta? — Pergunto, ainda processando o que está acontecendo, intrigada com a despreocupação dele.
— Manda alguém tentar me roubar, quero ver. — Ele ri, uma risada cheia de escárnio, e eu sinto um arrepio de medo percorrer minha espinha. Ele está tão confiante, tão seguro de sua posição, e isso me assusta ainda mais.
Minha mente não consegue se desligar do fato de que este é o mesmo homem que tirou a vida dos meus pais. Toda vez que olho para ele, vejo o assassino c***l e impiedoso. Cada minuto ao lado dele é uma tortura psicológica. O medo de que algo pior aconteça a qualquer momento me paralisa.
Ele me coloca no banco do passageiro e dá a volta, entrando no carro pelo lado do motorista. Me encolho no assento, tentando fazer com que minha presença seja o mais insignificante possível. O carro dá partida, e o silêncio entre nós é quase insuportável. O vento entra pelas janelas abertas quando ele acelera, e eu m*l consigo respirar direito.
Depois de um tempo, ele para o carro em frente a uma pequena loja. Coringa sai do veículo e, antes que eu possa reagir, ele já está ao meu lado, me levantando do banco e me carregando para fora do carro. Fechando a porta com o quadril, ele me carrega até a entrada da loja.
— Ô, Mirela! — Ele grita, chamando pela atendente. Logo, uma moça aparece com um sorriso enorme no rosto, que desaparece assim que seus olhos caem sobre mim.
— Oi, meu... — Ela começa, mas sua voz some, e o sorriso se desfaz. — No que posso te ajudar?
— Trouxe a Vitória pra comprar umas roupas. Ela precisa de tudo. — Ele responde sem cerimônia, apontando para mim com o queixo.
— Ah, vocês se conhecem de onde? — Ela pergunta, erguendo a sobrancelha. Sua expressão deixa claro que há algo mais ali, algo que me escapa.
Imediatamente, percebo o desconforto dela com minha presença. O ciúme está estampado em seu rosto. Ela é, obviamente, uma das amantes dele, e minha simples existência a incomoda.
— Não te interessa. Se eu quisesse contar minha vida pra alguém, procurava um psicólogo. — Ele corta, impaciente.
— Nossa... — Ela murmura, visivelmente contrariada, mas recua.
— Deixa ela escolher o que quiser. — Ele ordena, já pegando o telefone do bolso. — Vou ali no bar da frente. Se eu ver qualquer coisa estranha, volto aqui, e não tô com muita paciência hoje.
Fico paralisada por um momento, piscando em sua direção. A ameaça era para mim ou para ela? De qualquer forma, senti que não poderia arriscar. Coringa não era o tipo de homem com quem você arruma confusão.
— Qual o preço médio? — Mirela pergunta, com os olhos avaliando as roupas disponíveis.
— Não tem média. Tudo que ela quiser, eu pago. — Ele responde com indiferença, enquanto sai da loja.
— Nossa, não sabia que você era tão generoso — ela responde com sarcasmo.
— Não sou pra qualquer uma. — Ele dá de ombros, olhando para mim uma última vez antes de sair.
Um silêncio desconfortável preenche o ambiente, e Mirela me lança um olhar que mistura desprezo e ressentimento. Sinto como se estivesse sendo julgada por algo que não fiz.
— Vamos logo ver as roupas — ela diz com um mau humor evidente, começando a puxar algumas peças para que eu escolha.
As roupas que ela sugeria estavam longe do meu estilo. Tentei ser educada e pegar o que realmente fazia sentido para mim, ignorando suas sugestões bregas. Mesmo assim, eu sabia que não podia me dar ao luxo de escolher muito.
Enquanto Mirela embala as sacolas, duas garotas entram na loja, rindo alto. Elas logo notam minha presença e se aproximam, curiosas.
— Esse é o novo brinquedinho do Coringa? — Uma delas diz em tom provocativo, rindo e olhando para mim como se eu fosse um objeto.
— Não era ele que não deixava ninguém usar as camisas caras dele? — A outra acrescenta, rindo com a amiga.
Mirela, sem perder a oportunidade, responde: — Parece que ele arranjou uma nova metade da laranja.
Sinto meu rosto queimar de vergonha e raiva, mas antes que eu pudesse dizer algo, ouço a voz fria de Coringa ecoar pela loja.
— Você se acha demais, né? — Ele diz, caminhando lentamente até nós, os olhos fixos na garota que havia feito o comentário.
O ambiente muda completamente. As risadas cessam, e as garotas recuam, visivelmente assustadas. Coringa continua se aproximando, sem tirar os olhos delas.
— Toma cuidado com essa sua língua, garota. Eu posso perder a paciência com você. — Sua voz é baixa, mas carregada de ameaça.
A garota tenta manter a pose, mas o medo em seus olhos é claro.
— Agora deu pra defender amante? — Ela tenta provocar.
— Amante? Não rebaixa ela a esse nível. — Ele responde friamente. — A única coisa que você serve é pra isso, não ela.
Eu engulo em seco, sem saber como reagir àquela situação. Coringa se vira para mim, seu rosto suavizando um pouco.
— Vamos embora, linda? — Ele pergunta, como se nada tivesse acontecido.
Ele me chamou de linda?
Ainda processando tudo, apenas aceno, desejando sair dali o mais rápido possível. Cada segundo naquele lugar parecia um pesadelo, e eu só queria escapar da sensação sufocante que me dominava.