Quando eu era moleque, jamais imaginei que terminaria a minha vida sendo o dono de um morro. Cresci com sonhos, como qualquer outra criança, e queria uma vida diferente. Eu estudava muito, me esforçava para ser alguém, mas, no fundo, sabia que tudo o que tínhamos em casa era fruto do tráfico. Meu pai era envolvido, e por mais que ele tentasse me manter fora desse mundo, as coisas eram claras para mim. Eu via e entendia mais do que ele imaginava.
Meu maior sonho era tirar minha mãe e minha irmã da favela. Queria dar a elas uma vida melhor, longe dos perigos que cercavam nosso dia a dia. Uma vida tranquila, sem medo. Eu queria ser diferente, romper esse ciclo. Mas, como o destino é c***l, as coisas não saíram como eu planejava.
Quando meu pai morreu, foi como se o chão tivesse sido arrancado debaixo dos meus pés. A dor foi indescritível, como se uma adaga tivesse sido cravada profundamente no meu peito. Eu me vi perdido, sem saber o que fazer. Meu plano inicial era entregar tudo para o melhor amigo do meu pai e ir embora, recomeçar. Mas ele me puxou para uma conversa, e aquela conversa mudou o rumo da minha vida para sempre.
Ele me disse, de maneira crua e direta, que eu não tinha recursos fora daquela vida para salvar minha família. E ele estava certo. Nossa família estava marcada, nossa vida regrada pelos perigos do tráfico e da violência. Mesmo com todo o esforço de meu pai em me proteger, eu sabia que não havia saída fácil. Então, decidi assumir. Assumi o controle de tudo, com minha cara e minha coragem, sem pensar duas vezes. Foi o início de uma jornada sem volta.
Com o tempo, me tornei alguém que nem eu mesmo reconhecia. Fiz coisas que até o d***o duvidaria. Me tornei um homem sanguinário, impiedoso, sem princípios. Me envolvi com o pior lado da vida, cometi atrocidades e, aos poucos, fui me perdendo de quem eu era. Me envolvi com todos os tipos de mulheres, buscando nelas algum tipo de alívio, mas a verdade é que vivia no limite, sempre procurando sentir algo, qualquer coisa que preenchesse o vazio que crescia dentro de mim.
E então, ela apareceu. Não de maneira grandiosa ou cinematográfica, mas sim como uma adolescente, Vitória. Quando ela tinha catorze anos, seu pai, um homem desesperado e prestes a falir, veio até mim. Ele queria um trato, precisava da minha ajuda para sair do buraco em que se metera. Lembro perfeitamente do momento em que perguntei o que ele tinha a oferecer em troca, e ele, sem hesitar, me ofereceu sua própria filha. Vitória estava no carro, despreocupada, sem a menor noção do tipo de acordo que o pai dela estava tentando fazer.
A princípio, eu não quis aceitar. Achei repulsiva a ideia de um pai vender a própria filha, mas algo em mim mudou. Vi a oportunidade de ter aquele homem nas minhas mãos, de controlá-lo, e aceitei o acordo. Ele sabia que eu tinha o poder de arrancar a filha dele de maneira dolorosa a qualquer momento, e eu esperava que isso o fizesse andar na linha. Mas, como a vida é imprevisível, as coisas não seguiram como eu planejava.
Enquanto o tempo passava, Vitória crescia. Tornava-se cada vez mais bonita, mais independente, e inevitavelmente começou a atrair a atenção de outros homens. Isso me tirava do sério. Eu não suportava a ideia de outro homem tocando nela, na mulher que eu considerava minha. Sim, desde aquela época, Vitória era minha. Mesmo que ela não soubesse ou não aceitasse, eu a via como minha posse.
Minha obsessão por ela foi crescendo, e eu me vi seguindo seus passos, observando-a de longe, esperando o dia em que ela finalmente viria para mim. E esse dia chegou, de maneira abrupta e inesperada. Agora, ela estava no meu carro, encolhida no banco do passageiro, após eu ter gasto uma fortuna em roupas para ela. Seus olhos, grandes e expressivos, me encaravam com uma mistura de medo e curiosidade.
Paramos em frente à minha casa, e ela me perguntou, com a voz trêmula:
— O que você vai fazer comigo?
Franzi a testa, surpreso com a pergunta.
— Han? Como assim?
— Você vai me castigar? — Ela insistiu, claramente nervosa.
Cruzei os braços, tentando esconder o quanto me incomodava vê-la assim.
— Ô, Vitória, que tipo de homem você acha que eu sou?
Ela hesitou, mas continuou:
— Olha, eu já vi na televisão. Você não é o melhor tipo de homem, e sinceramente, depois do que você disse para aquela garota na loja...
A interrompi antes que ela pudesse continuar.
— Não foi para você que eu falei aquilo. — Revirei os olhos. — Aquilo foi para Mirela entender que quem manda sou eu. Você tá comigo agora, Vitória. Não quero nenhuma p*****a se metendo entre nós.
— Como assim, tô contigo? — Ela fez bico, e, naquele momento, vi o quanto ela era linda. Mesmo com medo, Vitória era irresistível.
Segurei seu queixo suavemente e me aproximei dela, sentindo sua respiração acelerada.
— Vitória, você é minha. — Sussurrei, olhando profundamente em seus olhos. — Você vai ser minha fiel, a mãe dos meus filhos. Vai ser minha mulher.
Ela se afastou, levantando a sobrancelha em um gesto desafiador.
— Eu gosto de monogamia, Coringa. Não vai dar certo.
Soltei uma risada curta.
— E quem disse que eu não sou monogâmico? — Perguntei, genuinamente confuso.
— Se você é monogâmico, o tanto que eu vou ser corna... — Ela murmurou, olhando para frente.
— Ah, pronto! — Ri mais ainda. — Vou ser fiel, igual um cachorro.
— Tá, confia... — Ela revirou os olhos. — A gente pode entrar agora? Já que não posso voltar para a minha casa, eu quero descansar e... sofrer.
— Sofrer? — Perguntei, acariciando seu braço. — Sofrer por quê, morena?
Ela suspirou, sua voz saindo embargada.
— Meus pais morreram ontem, Coringa. Eu ainda estou de luto. Não posso simplesmente ignorar isso. Eles eram meus pais. Eu os amava. Preciso viver esse luto.
Assenti, compreendendo a dor dela.
— Vai lá, descansa. — Digo, permitindo que ela se afastasse rapidamente e entrasse na casa.
Enquanto a via sumir na porta, lembrei da dor que senti quando meu pai morreu. Ele era um assassino a sangue frio, mas ainda assim, senti um vazio imenso quando ele partiu. Era uma dor que nunca desapareceria, mas isso eu guardava só para mim. Não queria carregar mais ninguém com meu fardo.