O sol brilha tão intensamente em meu rosto que meus olhos ardem. O som da lona sendo retirada de meu corpo me faz tremer, e eu me sento bruscamente, encarando um grupo de homens que me observa com a mesma intensidade.
— p**a que pariu, o Coringa vai f***r com a gente, menor — um deles exclama, fazendo meu corpo estremecer ainda mais.
Se Coringa era quem eu pensava que era, ele era um dos traficantes mais procurados e perigosos do Rio de Janeiro. Isso me colocava em uma situação ainda mais complicada — uma situação que eu não tinha como resolver, infelizmente.
Meu coração disparava. Eu queria entender o que se passava na minha cabeça na noite anterior. Devo ter perdido uns quinze neurônios. Agir como uma super-heroína em um momento como esse definitivamente não era o que eu deveria ter feito, especialmente após tudo que já passei.
Sou uma i****a, e agora, é bem provável que eu morra por causa da minha imprudência — e morra de uma vez só.
— Desce daí, garota — um deles diz, soltando um suspiro alto.
Faço o que ele manda, mesmo sabendo que não tenho escolha. Queria ficar, desejava ter uma máquina do tempo.
Quando olho ao redor, o terreno baldio é escuro, o matagal ao meu redor é denso, e não há nada à vista. Estou longe de casa, sou órfã e meu irmão está sequestrado. Por que ele está fazendo isso comigo?
Tremo, engulo em seco, e minha visão fica turva por um segundo. Suspiro fundo.
— O que você está fazendo aqui? — um deles pergunta, de braços cruzados.
A arma em sua cintura faz volume. Será que não incomoda? Machuca? Qualquer coisa.
Tento pensar em justificativas, mas parece inútil enrolar esses caras. Me encolho.
— Não sei — murmuro. — Eu fiquei com medo na noite passada.
— E você estava em casa? — Ele levanta a sobrancelha.
— Hum-hum — assento, fazendo bico.
— E como você foi parar no porta-malas? — Ele bufa, claramente cético.
— Desculpa, você pode me levar pra casa? — imploro, me encolhendo ainda mais.
— Não, p***a! — Ele revira os olhos. — Agora vou ter que levar você para o chefe. Ele decide pra onde você vai.
— Não, não, não. — Meus olhos se arregalam. — Me leva pra casa, por favor. Ele vai me matar, eu tenho certeza.
— Claro que não, garota — ele ri. — Bora, bora.
Ele abre espaço e me empurra levemente. As lágrimas voltam a escorrer pelo meu rosto enquanto sou seguida por mais alguns garotos.
Eles são jovens, mas é evidente que estão nessa vida há muito tempo — ou têm desenvoltura o suficiente para parecer que sim.
Mordo a bochecha e fecho os olhos, soltando um suspiro. Estou cansada, dormi m*l, e agora é bem provável que eu morra nas mãos de um sádico.
A minha vida pode piorar? Não quero falar muito, a vida é estranha... em si, é muito estranha.
Ando rápido. O sol está escaldante, e quando chegamos a uma área mais civilizada, me encolho.
Não sei exatamente que horas são. Só consigo pensar em como não dá para correr daqui. Meu coração bate forte e rápido.
As pessoas me encaram, de r**o de olho — algumas muito claramente. Mesmo em uma área mais pobre, é evidente que não estão acostumadas a ver uma garota andando de pijama por aí.
Acho que isso só é comum dentro de condomínios e alguns pequenos bairros. Ou talvez eu e minhas amigas sejamos completamente malucas.
Cuidado para não pisar em algo, sigo andando. Estou sem chinelos e meu pé ainda está machucado; embora o sangue já não escorra mais, ele está sujo.
Finalmente, chegamos à frente de uma casa enorme de dois andares. Observo a fachada: paredes brancas, um portão que parece caro, a casa cercada por inúmeras cercas elétricas no topo e câmeras de segurança.
Um dos comparsas ergue a mão e toca o interfone. Tento me esconder dos olhares alheios, mas não consigo. Com tantos homens ao meu redor, é impossível não chamar atenção.
— O que vocês querem? Está muito cedo — uma voz grave ecoa, robotizada.
— Temos um problema — um deles responde, e eu queria muito saber seu nome. Ele parece ser o líder.
— Que porcaria de problema você me arrumou? Você não disse que tinha resolvido tudo? — Sua voz fica ainda mais grave.
— Olha nas câmeras, patrão — é a única resposta que ele dá.
Os segundos se arrastam, longos e silenciosos, até que a voz robótica retorna.
— Entrem — ele diz, e um clique ecoa do portão.
Meu medo aumenta. O portão se abre, e nós entramos. A casa é ainda maior, mas não tenho tempo para observar os detalhes.
A porta é aberta de forma abrupta, e o homem mais bonito que já vi aparece.
Ele é alto, sua pele é oliva, os olhos castanhos e agressivos, lábios carnudos, rosto fino e sobrancelhas grossas. Seu cabelo é curto, com uma listra que forma um raio ao lado.
Ele está sem camisa, seus braços são tatuados. Desço os olhos até suas pernas torneadas e paro em seus pés, sentindo um frio na espinha.
— O que ela está fazendo aqui? — Ele dá alguns passos à frente, com os braços cruzados.
— Ela se enfiou no porta-malas sem a gente ver — um dos homens diz, fechando os olhos e suspirando. — Abrimos hoje de manhã pra pegar a gasolina e ela estava dormindo lá.
— Você é maluca, p***a? — Ele me encara e eu me encolho. — p**a que pariu, entra!
Fico paralisada, sem conseguir me mover. Queria que isso fosse um pesadelo.
— Entra, p***a! Você tá surda? — Ele descruza os braços. — Vocês podem sair, eu chego lá mais tarde. Vou resolver isso primeiro.
Quando entro na casa, sozinha com ele, tenho certeza de que vou morrer.
Manquejando, sigo em direção ao sofá e me sento, sentindo a dor em meu pé voltar.
— Eu deixei você sentar? — Ele pergunta, a voz carregada de autoridade.
— Desculpa, só estou machucada — meus olhos lacrimejam.
— O que aconteceu com você? — Ele levanta uma sobrancelha.
Sua expressão brava não se suaviza, e isso me impede de relaxar.
— Eu cortei o meu pé — minha voz sai bem mais baixa do que deveria.
Ele assente, ainda me encarando, enquanto passa os dedos pela barba rala, que provavelmente será feita em breve.
— Amor, volta pra cama — uma mulher resmunga do topo da escada, manhosa.
Olho para ele, e ele foca nela.
— Primeiramente, bom dia — ele a encara. — Segundamente, não acha que já está muito tarde? Pode pegar o beco e ir pra casa.
— Que grosseria, Coringa — ela faz uma careta.
— Grosseria nada. Você sabe que comigo é assim: recebe o que eu quero te dar — cruza os braços novamente. — Mas já que você está aqui, desça.
Ela bufa, mas obedece. Seus olhos recaem sobre mim.
— Quem é a p*****a? — Ela faz bico.
— Limpa a boca antes de chamar alguém de p*****a — ele aponta o dedo para o rosto dela. — Não era ela quem estava roçando em mim no baile a noite toda, abaixa a bola.
Ela faz um bico imenso, me encarando por um tempo antes de voltar para ele.
— E outra, aproveitando o curso que EU paguei pra você — ele toca seu ombro, e ela faz uma careta. — Cuida do pé da mina.
— Eu? — lanço um olhar para ela. — Eu acho que não.
— Não estou pedindo, estou mandando — ele grunhe. — Ou você tem dinheiro pra devolver o investimento que eu fiz?
Ela fica em silêncio e sai da frente dele, indo para a cozinha e voltando com uma maleta branca.
— Isso aí — ele sorri. — E é bom você não machucar ela, está entendendo? Não quero ouvir essa garota soltando um pio.
Ela engole em seco, senta-se à minha frente e puxa meu pé machucado com delicadeza. É evidente qual pé está ferido, considerando a quantidade de sujeira.
Ela não diz nada, apenas abre a maleta e tira os objetos para começar. Primeiro, limpa, e observo como seus dedos são leves — não sei se é por causa de Coringa ou se ela é realmente cuidadosa. Em seguida, com uma pinça, começa a retirar o vidro do meu pé.
— Está doendo? — Ela pergunta.
— Sim, mas eu sou forte. Pode puxar — murmuro, enquanto lanço um olhar para Coringa.
— Puxa de uma vez — insisto, a voz quase uma súplica.
— Tem certeza? — Ela levanta a sobrancelha, hesitando.
— Absoluta, eu estudo medicina — murmuro, mesmo que essa informação pareça irrelevante no momento.
— Então vamos lá... — Sua voz é um sussurro enquanto seus dedos seguram meu pé com firmeza.
Em questão de segundos, sinto uma dor aguda e um grito involuntário se escapa da minha garganta. Seguro uma almofada e fecho os olhos, um misto de alívio e dor passando por mim.
Ela termina de limpar a ferida e me observa.
— Não vai precisar de ponto, mas tome cuidado e use chinelo — avisa, levantando-se. — Estou indo embora.
Seu olhar se volta para Coringa, que apenas assente, balançando a mão como um sinal de despedida. Ela bufa enquanto pega a bolsa que estava na poltrona e sai, batendo a porta com força atrás de si.