Capítulo 02

1090 Words
— O que você vai fazer comigo? — finalmente consigo perguntar, sentindo o medo apertar meu peito. — Que merda você tem na cabeça? — Ele responde, rude e desdenhoso. — Não precisa falar assim comigo. — Me encolho no sofá, tentando me proteger. — Precisa, sim! Quero entender que diabos passou pela sua cabeça ao entrar em um carro cheio de bandidos! — Ele grita, a fúria transparecendo. — Eu... só queria salvar meu irmão. — Uma lágrima escorre pelo meu rosto. — Eu estava errada? — Claro que estava! — Ele afirma, a voz carregada de desprezo. — Você não deve se meter nos assuntos dos outros, ainda mais nos meus. — Eu não sabia que era você! — Suspiro, fechando os olhos. — Agi por impulso, só isso. — E você não faz ideia de como esse seu "impulso" complicou a minha vida. — Um sorriso sarcástico surge em seu rosto, e um arrepio percorre minha espinha. O sorriso dele me deixa inquieta, e sei que não é um bom sinal. — Como assim? — Pergunto, a voz trêmula. — Você vai entender, princesa. — Ele fala com uma ironia que faz meu estômago revirar. — E os meus pais? — A pergunta sai quase em um sussurro. — Por que você fez aquilo com eles? — Ah, eles... — Ele passa a mão pela barba, como se estivesse pensando. — Não sei se devemos falar sobre isso agora. — Por que não? Você já vai me matar mesmo! — Fungo, tentando controlar o desespero que se apodera de mim. — Não pode ao menos me deixar morrer em paz? Ele ri, uma gargalhada que ecoa como um golpe no meu peito. — Você tem noção de quão ingênua você é? Como passou em medicina? — Ele cruza os braços, rindo de mim. — É muita burrice, na moral. Reviro os olhos, tentando ignorar a dor e o pavor que sinto. — Você revirou os olhos pra mim? — Ele avança, um brilho ameaçador no olhar. — Quer que eu arranque o seu globo ocular? — Não sabia que bandido agora era especialista em anatomia. — Respondo, mordaz, desafiando o perigo. — Nem todo mundo é burro como os playboys com quem você anda, garota. — Ele solta um bufada, irritado. — E quer saber mais? Seus pais morreram por me desafiar. — Do que você está falando? — Viro o rosto para ele, o coração acelerado. — Não estou entendendo. — Seus pais eram burros. — Ele dá alguns passos em minha direção, seu olhar insensível. — Eles acharam que poderiam me passar a perna. Sabiam que isso não duraria. — Meus pais nunca fariam isso! Eles não confiariam em você, nunca negociariam com você! — Aumento o tom de voz, tentando me impor. — Eles eram pessoas honestas! Ele ri alto, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo. — Ah, para com isso. — Ele esfrega o rosto, a diversão em seu olhar. — Você é tão ingênua que não sabe se fingir de esperta. — Para de me chamar de burra! — Bato o pé no chão, gemendo com a dor que irradia pela minha perna. Ele levanta as sobrancelhas, avaliando a minha reação. — Quer mesmo saber quem eram seus "papaizinhos"? — Ele lambe os lábios, se aproximando. — Quero, quero sim. — Ergo o queixo, tentando mostrar determinação. — Seus pais eram meus parceiros de negócios. — Ele dá de ombros, como se estivesse contando uma simples história. — Seu pai recebia mercadoria no porto, e no meio entravam minhas drogas. Pagávamos propinas a ele e a outros figurões. Era um trabalho muito lucrativo, e eles adoravam. — Ele começa a andar de um lado para o outro, seu tom agora mais confiante. — Seu pai estava perto da falência quando tudo começou. Eu tinha acabado de herdar o morro; você tinha uns 14 anos, e eu, 18. Me encolho ainda mais no sofá, tentando processar aquelas informações devastadoras. — Desde o início, avisei que essa parceria não duraria. Seu pai não era confiável, mas ele me garantiu que nunca me trairia. — Ele me observa de forma calculada. — E como garantia, ele ofereceu você. Meu coração para, e a incredulidade toma conta de mim. — No começo, aceitei só porque sabia que ele te amava. Com você nas minhas mãos, ele faria qualquer coisa. — Ele sorri de forma sádica. — Seu irmão foi o próximo a entrar, um viciado que queria pó e estava disposto a continuar os negócios do seu pai. — Isso é mentira! — Interrompo, o horror se espalhando por mim. — Cala a boca e me deixa terminar! — Ele se irrita, cruzando os braços novamente. — Onde eu estava? Ah, sim... Mas a sua família fez a maior burrada: alguém ofereceu mais, e eles se tornaram gananciosos. Tentaram me passar a perna. Claro que descobri; sempre tem alguém disposto a vender informações. — Ele faz uma pausa, olhando para mim. — Seu irmãozinho me deu um prejuízo de quinhentos mil semana passada. Sabe quanto é isso? — Ele se inclina, os olhos cheios de fúria. — A federal apreendeu um monte de drogas. Fiquei puto! E aí você aparece com aquele merdinha, desobedecendo minhas ordens de não trazer homem nenhum perto de você. — Então... você matou eles por isso? — Minha voz sai fraca, incrédula e trêmula. — Você acha que o meu pagamento era dinheiro? — Ele ri, um riso c***l. — Era sangue. O sangue deles! Meu mundo desaba. Tremendo, fecho os olhos, mordo a bochecha para não desmoronar por completo. — Não... isso não pode ser verdade. — Minha voz m*l sai, sufocada pela dor. — Por que você está inventando tudo isso? — Acredite no que quiser. — Ele dá de ombros, esticando os braços como se não estivesse nem aí. — Mas agora, você é minha. Entendeu? — Não! — Meus olhos se arregalam, negando a realidade. — Se acostume com a idéia, princesa. — Ele segura meu rosto com força, a expressão dominadora. — Você nunca mais vai embora. E depois de tudo, você não tem mais ninguém. — E meu irmão? O que aconteceu com ele? — pergunto, com a garganta seca e apertada. — Vou decidir o destino dele em breve. Até lá. — Ele me dá um beijo no ar, seu deboche insuportável. Eu grunho, deixando as lágrimas escorrerem. Meu Deus, como ele foi capaz? Como alguém pode ser tão c***l?
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