— O que você vai fazer comigo? — finalmente consigo perguntar, sentindo o medo apertar meu peito.
— Que merda você tem na cabeça? — Ele responde, rude e desdenhoso.
— Não precisa falar assim comigo. — Me encolho no sofá, tentando me proteger.
— Precisa, sim! Quero entender que diabos passou pela sua cabeça ao entrar em um carro cheio de bandidos! — Ele grita, a fúria transparecendo.
— Eu... só queria salvar meu irmão. — Uma lágrima escorre pelo meu rosto. — Eu estava errada?
— Claro que estava! — Ele afirma, a voz carregada de desprezo. — Você não deve se meter nos assuntos dos outros, ainda mais nos meus.
— Eu não sabia que era você! — Suspiro, fechando os olhos. — Agi por impulso, só isso.
— E você não faz ideia de como esse seu "impulso" complicou a minha vida. — Um sorriso sarcástico surge em seu rosto, e um arrepio percorre minha espinha.
O sorriso dele me deixa inquieta, e sei que não é um bom sinal.
— Como assim? — Pergunto, a voz trêmula.
— Você vai entender, princesa. — Ele fala com uma ironia que faz meu estômago revirar.
— E os meus pais? — A pergunta sai quase em um sussurro. — Por que você fez aquilo com eles?
— Ah, eles... — Ele passa a mão pela barba, como se estivesse pensando. — Não sei se devemos falar sobre isso agora.
— Por que não? Você já vai me matar mesmo! — Fungo, tentando controlar o desespero que se apodera de mim. — Não pode ao menos me deixar morrer em paz?
Ele ri, uma gargalhada que ecoa como um golpe no meu peito.
— Você tem noção de quão ingênua você é? Como passou em medicina? — Ele cruza os braços, rindo de mim. — É muita burrice, na moral.
Reviro os olhos, tentando ignorar a dor e o pavor que sinto.
— Você revirou os olhos pra mim? — Ele avança, um brilho ameaçador no olhar. — Quer que eu arranque o seu globo ocular?
— Não sabia que bandido agora era especialista em anatomia. — Respondo, mordaz, desafiando o perigo.
— Nem todo mundo é burro como os playboys com quem você anda, garota. — Ele solta um bufada, irritado. — E quer saber mais? Seus pais morreram por me desafiar.
— Do que você está falando? — Viro o rosto para ele, o coração acelerado. — Não estou entendendo.
— Seus pais eram burros. — Ele dá alguns passos em minha direção, seu olhar insensível. — Eles acharam que poderiam me passar a perna. Sabiam que isso não duraria.
— Meus pais nunca fariam isso! Eles não confiariam em você, nunca negociariam com você! — Aumento o tom de voz, tentando me impor. — Eles eram pessoas honestas!
Ele ri alto, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo.
— Ah, para com isso. — Ele esfrega o rosto, a diversão em seu olhar. — Você é tão ingênua que não sabe se fingir de esperta.
— Para de me chamar de burra! — Bato o pé no chão, gemendo com a dor que irradia pela minha perna.
Ele levanta as sobrancelhas, avaliando a minha reação.
— Quer mesmo saber quem eram seus "papaizinhos"? — Ele lambe os lábios, se aproximando.
— Quero, quero sim. — Ergo o queixo, tentando mostrar determinação.
— Seus pais eram meus parceiros de negócios. — Ele dá de ombros, como se estivesse contando uma simples história. — Seu pai recebia mercadoria no porto, e no meio entravam minhas drogas. Pagávamos propinas a ele e a outros figurões. Era um trabalho muito lucrativo, e eles adoravam. — Ele começa a andar de um lado para o outro, seu tom agora mais confiante. — Seu pai estava perto da falência quando tudo começou. Eu tinha acabado de herdar o morro; você tinha uns 14 anos, e eu, 18.
Me encolho ainda mais no sofá, tentando processar aquelas informações devastadoras.
— Desde o início, avisei que essa parceria não duraria. Seu pai não era confiável, mas ele me garantiu que nunca me trairia. — Ele me observa de forma calculada. — E como garantia, ele ofereceu você.
Meu coração para, e a incredulidade toma conta de mim.
— No começo, aceitei só porque sabia que ele te amava. Com você nas minhas mãos, ele faria qualquer coisa. — Ele sorri de forma sádica. — Seu irmão foi o próximo a entrar, um viciado que queria pó e estava disposto a continuar os negócios do seu pai.
— Isso é mentira! — Interrompo, o horror se espalhando por mim.
— Cala a boca e me deixa terminar! — Ele se irrita, cruzando os braços novamente. — Onde eu estava? Ah, sim... Mas a sua família fez a maior burrada: alguém ofereceu mais, e eles se tornaram gananciosos. Tentaram me passar a perna. Claro que descobri; sempre tem alguém disposto a vender informações. — Ele faz uma pausa, olhando para mim. — Seu irmãozinho me deu um prejuízo de quinhentos mil semana passada. Sabe quanto é isso? — Ele se inclina, os olhos cheios de fúria. — A federal apreendeu um monte de drogas. Fiquei puto! E aí você aparece com aquele merdinha, desobedecendo minhas ordens de não trazer homem nenhum perto de você.
— Então... você matou eles por isso? — Minha voz sai fraca, incrédula e trêmula.
— Você acha que o meu pagamento era dinheiro? — Ele ri, um riso c***l. — Era sangue. O sangue deles!
Meu mundo desaba. Tremendo, fecho os olhos, mordo a bochecha para não desmoronar por completo.
— Não... isso não pode ser verdade. — Minha voz m*l sai, sufocada pela dor. — Por que você está inventando tudo isso?
— Acredite no que quiser. — Ele dá de ombros, esticando os braços como se não estivesse nem aí. — Mas agora, você é minha. Entendeu?
— Não! — Meus olhos se arregalam, negando a realidade.
— Se acostume com a idéia, princesa. — Ele segura meu rosto com força, a expressão dominadora. — Você nunca mais vai embora. E depois de tudo, você não tem mais ninguém.
— E meu irmão? O que aconteceu com ele? — pergunto, com a garganta seca e apertada.
— Vou decidir o destino dele em breve. Até lá. — Ele me dá um beijo no ar, seu deboche insuportável.
Eu grunho, deixando as lágrimas escorrerem. Meu Deus, como ele foi capaz? Como alguém pode ser tão c***l?