Capítulo 03

1082 Words
Ando de um lado para o outro, passando os dedos pelas minhas bochechas várias vezes, nervosa. Trêmula. O ambiente ao meu redor parece sufocante, e a angústia me consome. Levanto-me mais uma vez, sentindo o tempo escorrer por entre os meus dedos, sem que eu saiba quanto já passou desde que fui trancada aqui. Vou até a porta, tentando forçá-la novamente, mas o resultado é o mesmo de todas as vezes anteriores: nada. O medo me paralisa por um instante, o pânico me faz tremer. Estou faminta, exausta, completamente suja. Meus dedos tremem incessantemente, como se tentassem refletir o caos que reina na minha mente. Volto para o sofá, permitindo que as lágrimas rolem livremente pelo meu rosto, sem forças para impedi-las. Cansada. Esgotada, tanto física quanto emocionalmente. Minha mente gira em torno da única constatação possível: eu só faço besteira. É impressionante. Não consigo entender o que passou pela minha cabeça ao me enfiar naquela maldita situação, dentro daquele carro cheio de criminosos. Podia estar sendo torturada agora, ou algo muito pior. A realidade, por mais assustadora que seja, ainda parece a melhor das hipóteses. Aquele i****a só me prendeu nessa casa, mas sei que o pior pode ainda estar por vir. Estremeço ao pensar nisso. Fecho os olhos por um instante, engolindo em seco. Meu corpo balança com o choro, um soluço reprimido escapa, e eu tapo a boca para conter os ruídos. Estou tão cansada de tudo. Nada parece dar certo, e agora a situação atingiu um novo patamar de desespero. Além de sofrer o luto por tantos relacionamentos fracassados, agora tenho que lidar com a perda dos meus pais e a possibilidade de que meu irmão seja o próximo. Isso, claro, se ele já não estiver morto. Definitivamente, sou a pessoa mais azarada que conheço. Na verdade, sinto que nasci na pior família possível. Me pergunto se alguém sequer vai me procurar. Será que vão me culpar por tudo isso? É difícil acreditar que minha vida algum dia possa voltar a ser normal depois de tudo o que aconteceu. Meus pais estão mortos. Eu não tenho mais nada. Não tenho ninguém. Não há mais futuro para mim. Sou uma pessoa sozinha, abandonada, e tenho que aceitar essa realidade. O som da porta se abrindo interrompe meus pensamentos sombrios, e meu coração dispara. Olho em direção à entrada, observando enquanto a porta se abre lentamente. Lá está ele, parado, impassível, com a expressão carrancuda de sempre. Seus olhos frios me observam de longe. Me pergunto onde ele esteve esse tempo todo. O que ele estava fazendo? E meu irmão? Está bem? — Onde está o meu irmão? — Pergunto, levantando-me de repente e caminhando em sua direção. — Tu não toma banho, garota? — Ele pergunta, me observando com desdém, sem responder à minha pergunta. Franzo a testa, sentindo uma onda de frustração tomar conta de mim. Ele está fugindo da questão de propósito. Por que ele nunca responde diretamente? — Me deixa ir embora. — Peço, tentando conter o tremor na minha voz. Ele ri, mas é uma risada fria e sem humor. — Não. — Ele responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Agora sobe e vai tirar essa roupa imunda. Toma um banho. Se esse pé infeccionar... — Como se você se importasse comigo, né? — Respondo, cruzando os braços, irritada com o tom autoritário. — Me importo com o que é meu. — Ele diz, sem qualquer emoção, jogando as chaves no balcão da cozinha. — Eu não sou sua! — Resmungo, batendo o pé no chão, como se minha indignação pudesse alterar a realidade. Ele para por um momento, e noto algo diferente em seu semblante. Ele parece cansado, perturbado, como se algo o estivesse atormentando. — Vai continuar me desafiando, Vitória? — Pergunta ele, a voz mais grave, ameaçadora. — Não estou te desafiando, Coringa. — Murmuro, mantendo meus olhos fixos nos dele, tentando demonstrar uma coragem que eu definitivamente não sinto. — Eu mandei você subir. O que você ainda está fazendo aqui? Me encarando com essa cara de sonsa? — Sua voz se torna ainda mais áspera, sombria. — Eu não sou obrigada a te obedecer. — Sussurro, a voz falhando, enquanto o tremor se espalha pelo meu corpo. O medo é inegável. Eu sei com quem estou lidando. Coringa não é o tipo de homem que devo desafiar. Cada célula do meu corpo grita por cautela, mas, por algum motivo, um impulso dentro de mim me obriga a confrontá-lo, como se isso fosse, de alguma forma, libertador. Como se, no fundo, eu acreditasse que ele poderia simplesmente desaparecer da minha vida se eu fosse firme o bastante. Mas, claro, sei que não é assim que as coisas funcionam. Coringa se aproxima de mim com passos rápidos e agarra meu braço com força, seus dedos se fechando como um grilhão em minha pele. — Você está me machucando! — Reclamo, a voz alta. — f**a-se. — Ele grita, me puxando em direção à escada que leva ao segundo andar. — Coringa! — Tento chamar sua atenção, mas minhas palavras parecem não surtir efeito. Concentro-me em manter o equilíbrio enquanto subo desajeitadamente os degraus, tropeçando nos meus próprios pés. Cada passo dói, meu pé ferido lateja, mas o medo supera a dor. Quando finalmente chegamos ao topo, estou sem fôlego. Estremeço, engolindo as lágrimas que ameaçam transbordar. Ele me arrasta até um quarto, empurra a porta e a abre bruscamente. — Você vai tirar a roupa ou quer que eu arranque? — Ele pergunta, sua voz carregada de impaciência. Sinto meu coração acelerar ainda mais. Engulo em seco, tentando recuperar o controle. — Coringa, me solta. — Peço, a voz embargada. — Vai tirar ou eu tiro? — Ele repete, sua voz ficando ainda mais perigosa. — Eu vou tirar. — Respondo rapidamente, e ele finalmente me solta, mas não sem antes lançar um último olhar intimidante. — Você tem dez minutos para tomar banho e descer. Vou deixar uma roupa na cama. — Ele resmunga e sai do quarto, batendo a porta atrás de si. Finalmente sozinha, deixo-me desmoronar. O silêncio que preenche o quarto é pesado, e meu corpo inteiro treme. Me sento no vaso sanitário e fecho os olhos, permitindo que as lágrimas venham. Elas rolam silenciosamente, o desespero tomando conta de mim. Não sei como vou sair dessa, não sei o que ele realmente planeja fazer comigo, mas a sensação de impotência é esmagadora.
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