Acordando
Eduarda
Quatro anos atrás
— O que você está fazendo com a sua vida Eduarda? – Kadu grita enquanto dirige seu carro.
— O que eu faço da minha vida não da sua conta. – grito de volta.
— É da minha conta quando minha irmã está tentando se m***r.
Kadu desvia sua visão rapidamente para me encarar.
— Não estou tentando me matar...
— Não está? Então o que estava fazendo naquele lugar sujo, imundo cheio de pessoas drogadas?
Fico calada.
— Você me prometeu Eduarda. Deu a sua palavra que dessa vez iria parar. Como pôde quebrar sua promessa?
Como não respondo, Kadu volta a olhar para a estrada.
Entrelaço minhas mãos, sem saber o que fazer com elas. Kadu está decepcionado comigo. Eu o desapontei mais uma vez. Olho para minhas mãos ainda com vestígio de drogas nelas.
De repente me sinto suja. É como se só agora eu percebesse a pessoa que estou me tornando.
— Me desculpe. – falo tão baixo que acho que só eu ouvi.
— Você sempre faz isso Eduarda. Você foge, compra drogas e depois tenho que sair a sua procura. – Kadu fala sem tirar os olhos do volante.
— Nunca pedi para que você fosse atrás de mim. – retruco.
— Se eu não for, quem vai evitar que você vá parar em algum hospital ou morta em alguma vala?
— Não se sinta obrigado a fazer isso... Posso cuidar de mim mesma.
— Não, você não pode. Olha o estado em que está? Cristo... Se Nick te ver assim...
— Deixe o Nick fora disso, você disse que não falaria nada...
— Ele é seu irmão também, merece saber o que está acontecendo com você...
— Não. Nick não vai me perdoar se souber... Só você...
— Eduarda, você é minha irmã mais velha. É você quem deveria estar me dando lição de moral... Não o contrário...
— Então vamos resolver esse assunto aqui. Pare esse carro... – falo tentando pegar a direção das mãos de Kadu.
— Para Eduarda... Vamos acabar batendo...
— Eu quero sair desse carro agora. Vou embora sozinha...
Entramos em uma disputa para quem fica com o volante. Kadu tenta conter minhas mãos e no momento em que desvia seu olhar, só tenho tempo suficiente para gritar seu nome.
— Kadu!!!...
Tempo atual
Sinto uma dor desconfortável ao tentar abrir os olhos. Eles estão tão pesados, que sinto como se eles estivessem colados com concreto. Quando consigo abrir, vejo Kadu olhando para minha mão enquanto a acaricia. Seu toque é leve, mas ainda assim sinto a suavidade dos seus dedos.
— Kadu. – consigo falar com dificuldade.
Minha boca está seca, como se eu estivesse há vários dias no deserto. Tenho dificuldade para produzir saliva e por um segundo me sinto sufocada.
— Eduarda, você acordou.
Sua voz está carregada de surpresa e susto. Pergunto-me o que aconteceu e por que ele está me olhando como se eu estivesse longe por um tempo e voltado agora.
— O que aconteceu? – meu último esforço para falar.
— Fique calma, vou chamar o médico...
Antes que eu pegue sua mão, Kadu já está correndo para fora do quarto.
Olho ao redor e vejo que o quarto é simples, mas tem algo diferente nele. Têm objetos meus pessoais. Em uma mesa ao lado, uma jarra com minhas flores preferidas.
Tenho dificuldade em me mexer, na verdade, não consigo sentir nada. Entro em pânico e tento a todo custo me levantar.
Kadu volta para o quarto acompanhado de um médico jovem e mais dois enfermeiros carregando uma bandeja em uma de suas mãos. Meus olhos vão direto para meu irmão. Estou assustada demais e só quero saber o que está acontecendo.
— Fique calma Eduarda, você acaba de despertar... – diz o médico pegando algum aparelho do seu bolso.
Tento inutilmente me movimentar, mas meu corpo se recusa a me obedecer. Por Deus, o que está acontecendo?
Meus olhos procuram Kadu desesperadamente.
— Eduarda, está tudo bem. Vamos lhe explicar o que está acontecendo. – Kadu fala e isso me deixa um pouco melhor.
Kadu segura minha mão, enquanto o médico espeta meu braço. A princípio penso que vou ser medicada, mas ao invés disso, ele está retirando meu sangue. O médico faz todo o procedimento em silêncio e assim que termina, entrega um pequeno vidro com meu sangue a um dos enfermeiros e pede para que seja feito um exame.
— Bem, agora vamos sentar e conversar. Antes de tudo quero que saiba que estamos muito felizes com o seu retorno.
Enquanto o médico fala, meu olhar passeia entre ele e o meu irmão que de alguma forma está diferente. Não sei explicar, parece outra pessoa, mais maduro, talvez eu esteja imaginando.
O médico puxa uma cadeira e senta próximo a minha cama, enquanto Kadu continua em pé segurando minha mão. O outro enfermeiro fica um pouco afastado, mas atento a minha expressão o tempo todo.
— Preciso me apresentar, sou Matias, estou substituindo o doutor Ramires que teve que se ausentar... Como está se sentindo?
— Preciso de um copo com água, minha garganta está seca. – falo enquanto movimento meus lábios ressecados.
— Jonas, por favor, consiga uma garrafa de água... – Matias fala enquanto olha sorrindo para o enfermeiro. – Vamos esperar você beber água para retornarmos nossa conversa.
Cinco minutos depois, estou terminando de beber o líquido da garrafa. Matias pega a embalagem vazia e coloca sob a mesa perto das minhas flores.
— Eduarda preciso que ouça com atenção ao que vou falar e tente não se exaltar.
Estou com medo de falar, então apenas aceno a cabeça confirmando.
— Você sofreu um acidente muito grave, onde por algum milagre não morreu...
Kadu solta um pequeno suspiro e tento me concentrar na voz do médico.
— Acontece que esse acidente trouxe consequências, você entrou em coma e dormiu por um longo período. Você se lembra de alguma coisa?
Tento forçar minha mente, mas tenho apenas pequenos flashes de memória.
— Tenho apenas pedaços...
— Não se esforce tanto. – diz Kadu quando me vê fechar os olhos e apertá-los com força.
— Lembro-me de estar no carro com Kadu... Nós brigamos e eu tentei tomar a direção da sua mão... Depois nada, apenas um grande branco.
Meu irmão e o médico trocam olhares cúmplices.
— Você foi arremessado para fora do carro, sofrendo traumatismo craniano. Seu cérebro sofreu um grande inchaço, causando o seu coma... Eduarda, você ficou em coma por quatro anos.
— O quê?!! – quase consigo me mexer na cama com a notícia.
— Eduarda, escute com atenção, por favor. – Kadu pede apertando minha mão.
— A princípio imaginamos que seu cérebro precisou disso para que você se recuperasse, mas com o passar das semanas, começamos a ficar apreensivos e esperamos...
Eu dormi por quatro anos.
Eu fiquei em coma nessa cama por longos quatro anos.
Custo acreditar que ele esteja falando a verdade. Estou dormindo, é isso.
Abusei demais da d***a que comprei e estou tendo alucinações. Só isso para justificar toda essa loucura. Olho para Kadu procurando uma brecha, uma resposta.
— Tentamos todos os métodos, apreensivos com sua falta de reação. As semanas viraram meses, logo depois anos...
— Quatro anos... – consigo falar.
Desvio o meu olhar e olho para o meu corpo coberto com o lençol. Tento mexer minhas pernas. Nada.
— O que aconteceu com minhas pernas? Por que não consigo senti-las?
Olho apavorada para os dois.
— Vamos fazer novos exames... Agora que você finalmente acordou...
— Eu não sinto as minhas pernas... Estou paralítica, é isso? Eu nunca mais vou andar?
Desespero-me com a possibilidade de não voltar a andar. Tento a todo custo sentir alguma coisa, mas meu corpo parece não querer obedecer aos meus comandos.
Puxo minha mão que Kadu segura e retiro o lençol que me cobre. Procuro alguma coisa que responda minhas perguntas. Uma grande cicatriz cobre toda a extensão da minha perna direita, desde o joelho até se esconder embaixo da roupa branca que estou usando.
Fora isso nada.
— O que há de errado com elas?
Kadu tenta pegar minha mão, mas eu o afasto. Tento me sentar e quando não consigo, começo a chorar, por que sei que o meu castigo por tudo o que fiz ao meu corpo finalmente me encontrou.
Tento arrancar algo preso ao meu corpo. Reconheço o objeto, é um cateter. É preciso Kadu e o médico para impedir que eu me machuque ao tentar me livrar do objeto. Ouço o médico gritar alguma coisa para o enfermeiro e vejo-o vindo ao auxílio dos dois.
— Segure os braços delas para que eu possa medicá-la antes que ela se machuque. – o médico grita.
— Fique longe, não me toque seu médico idiota... – começo a gritar.
— Eduarda, por favor... – Kadu começa falar enquanto segura meus braços.
Distraio-me tentando me livrar das mãos de Kadu quando sinto uma picada no meu pescoço.
— Não, por favor... – começo a falar.
— Isso é para o seu bem. – o médico fala enquanto vejo tudo ficando escuro.
Minha mente fica vaga e mergulho na escuridão.
w