Voltando para casa

1683 Words
Eduarda Depois que todos foram embora, Joana voltou ao meu quarto para se certificar que tudo estava bem antes. — Vejo que a visita da sua família lhe fez muito bem – ela diz enquanto olha para o meu rosto. — Sim. Ainda estou meio perdida com os acontecimentos... — É normal. — O Matias ainda está no hospital? — Não. O doutor encerrou o seu plantão antes do horário. Parece que um dos seus amigos precisou dele. Por que, gostaria de falar com ele? — É que ele ficou de passar aqui antes de ir embora... — Entendo. — Ele volta amanhã? — Não. Amanhã é seu dia de folga. Mas não se preocupe, eu estarei aqui para ajudá-la, caso precise. — Obrigada. Fico em silêncio enquanto ela retira o lençol e pega uma das minhas pernas. — Sente alguma coisa? – ela pergunta. — Nada – digo desanimada. — Não fique com essa carinha, vamos trabalhar para que em breve você esteja totalmente recuperada. — Vamos – falo mais para que ela não fale outras frases de encorajamento. Joana faz mais alguns exercícios antes de ir embora, me deixando sozinha novamente. Pego o controle da TV e passeio pelos canais. São tantas novidades que acabo me perdendo. Resolvo não ver nada que retrate meu tempo presente e coloco em um canal que está falando de arte, ao qual eu entendo bastante. Na manhã seguinte, logo depois do meu café da manhã, sou levada novamente para fazer novos exames. Entro e saio das salas tantas vezes que acabo ficando de m*l humor. Os médicos, no total de cinco me olham como se eu fosse algum tipo de aberração. Desde que acordei não me olho no espelho, então imagino que a minha imagem não seja muito bonita. Estou evitando o espelho. Enquanto Joana me ajuda com minha camisola h******l de hospital, ouço duas pessoas conversando na sala ao lado que é dividido apenas por uma cortina. — É verdade cara, ela dormiu por quatro anos. Você consegue acreditar que uma garota ficou em coma por quatro anos? — Imagina como deve estar seu corpo agora... — Será que tudo continua igual... Você sabe... Ouvir a conversa de dois idiotas falando ao meu respeito, faz com que todo o meu sangue suma do meu rosto. — Por que os dois idiotas não vem aqui e falam diretamente na minha cara? Puxo a cortina e encontro os enfermeiros me olhando como dois idiotas. São novos, devem ter saído da faculdade há pouco tempo. — Desculpe, não sabíamos que... – o primeiro, com cabelos castanhos começa a falar. — Acredito que vocês não estão sendo pagos para ficarem fofocando dos pacientes... Deixo os dois sem palavras, enquanto Joana apenas me observa. — Agora que já me viram, que tal procurarem alguém que esteja precisando de ajuda? Aqui não é zoológico e eu não sou uma espécie em extinção – falo com minha voz carregada de raiva. ­— O que está acontecendo aqui? – pergunta Matias entrando no quarto. — Nada doutor... – o enfermeiro que minutos antes estava conversando com seu amigo se apressa em falar. — Matias, uma pergunta, esse hospital aceita que seus empregados fiquem de fofoca sobre os pacientes em horário de trabalho? — Não... – ele começa a falar. — Então acho bom que escolha melhor sua equipe... – continuo falando. Matias olha para os dois enfermeiros e depois volta seu olhar em minha direção. — O que aconteceu? Joana? — Hum... É... — Joana estava me ajudando com essa camisola ridícula quando ouvi os dois... – apontei para os enfermeiros – discutindo sobre o meu caso. Matias olha novamente para os enfermeiros e aponta para a porta. — Vão para minha sala e me esperem lá. — Doutor... – o outro enfermeiro fala. — Me esperem na minha sala, não devo demorar. Vejo os dois se entreolharem e depois saírem. — Peço desculpa pelo comportamento dos dois... — Foi grosseira a maneira como falaram de mim. Imaginem o que não fizeram enquanto eu estava dormindo... – começo a falar. — Eduarda, com isso você não tem com o que se preocupar, apenas a minha equipe pode entrar no seu quarto, mas se quiser fazer alguma reclamação... — Eu faria isso, mas vejo que você vai cuidar desse incidente. — Sim, claro, assim que falar com você. Fui até seu quarto e fui informada que estava aqui. — Joana havia me informado que você estaria de folga hoje. — E estava, mas fui chamado as pressas... — Foi por minha causa? – pergunto preocupada. — Não, graças a Deus – ele sorri e logo em seguida seu sorriso some – apenas a confirmação do que eu já esperava. Mas não vim aqui para falar disso. Como foram os novos exames? Dessa vez ele olha olhando para Joana. — Fiz alguns exercícios com ela hoje, mas não tivemos nenhuma mudança. Eduarda ainda continua sem sentir seus movimentos. — Imaginei, mas não devemos nos preocupar com isso. — Claro que devemos. Vocês estão falando de mim, do meu corpo. — Calma Eduarda, fiz algumas pesquisas rápidas e tudo me diz que vamos reverter esse quadro. Sua mãe entrou em contato com o mesmo hospital que tratou seu irmão Nick e conseguiu com que o mesmo médico que cuidou dele viesse para o Brasil para cuidar do seu caso, e que por sinal é um grande amigo meu. — O médico que cuidou do Nick? Quando? Matias e Joana se entreolham antes de me olharem. — Achei que sua família já tivesse falado sobre tudo. — Uma tarde foi muito pouco comparada a quatro anos de coma – tentei fazer uma piada. Funcionou, pois os dois riram e o clima ficou menos tenso. — Em breve vocês terão muito tempo para isso. Mas voltando ao assunto... Esse médico aceitou o seu caso e deve estar chegando ao Brasil no final de semana. — Isso é uma boa notícia, não é? – pergunto. — Sim, com certeza. Ele é um dos melhores que existe nesses casos. — Então isso quer dizer que ficarei aqui até ele chegar? — Acredito que não. Vou ver os resultados dos seus exames e se tudo estiver ok, você está saindo daqui amanhã. — Isso sim é uma boa notícia. Minha família já sabe? — Achei que você gostaria de dar a notícia pessoalmente. Agora preciso ir conversar com aqueles dois. Acredito que não vamos nos ver mais hoje. Irei cuidar da sua papelada de alta e depois irei para casa. — Obrigada por tudo Matias. — Me agradeça quando tiver sua vida de volta. Ele sorri e depois vai embora. Joana me ajuda a voltar para o meu quarto e depois sai para providenciar meu almoço. m*l posso esperar para contar para minha família que vou para casa. ***** Quando passei pelos portões da minha casa, todas as emoções se misturaram. Uma sensação de voltar para o lugar onde fui feliz até minha adolescência, as brincadeiras com meus irmãos, os fins de semana na piscina com os amigos. Tudo ainda continua como antes, como se nada tivesse mudado. O gramado é o mesmo, a decoração também, mas tem algo diferente, parece que a tensão que sentia a cada vez que vinha passar o fim de semana em casa enfim tinha ido embora. Sinto um enorme alívio ao saber que meu pai já não estava em casa. Acabei perguntando á minha mãe sobre ele e descobri que todos sabiam o homem que ele era. Por causa dele, eu tinha me perdido no caminho, destruído as minhas oportunidades, os meus sonhos e os meus ideais. Eu tinha perdido tudo por causa dele e estava aliviada por nunca mais ter que vê-lo. Minha mãe parece outra pessoa, mais forte, determinada e meus irmãos adquiriram uma maturidade incrível. Kadu assumiu a empresa e em breve será um homem casado. Nick está vivendo o seu momento, cantando e feliz ao lado de sua noiva. E o que falar das minhas cunhadas? Eu as amava pelo simples motivo de fazerem meus irmãos felizes. — Graças a Deus chegaram... – Kadu abriu a porta vindo ao nosso encontro. — Nossa, isso é tudo saudade? – pergunto rindo. — Também, mas estou ficando maluco aqui com a Belinda e Nanda – Kadu se abaixou e me beijou na testa – seja bem vinda de volta ao lar. — Obrigada. Estou feliz em estar de volta. — O que aconteceu enquanto estive fora? – pergunta minha mãe para Kadu. — As flores que Belinda encomendou não vão chegar a tempo para amanhã. Ela está falando em cancelar tudo. — Cancelar tudo por causa de algumas flores? – pergunta minha mãe rindo. — Não são algumas flores, são dezenas, milhares delas... – Belinda aparece logo atrás de Kadu. Ela está vestindo calça jeans e blusa branca frente única. Seu cabelo está preso em um r**o de cavalo, deixando alguns fios soltos. Segura um celular na mão e um papel na outra. — Meses de planejamentos jogados fora por causa de um incompetente que "esqueceu" de fazer a minha encomenda – Belinda fala e depois olhou para mim – Oi Eduarda, bem vinda ao lar e desculpe pela bagunça. Foi ideia da sua mãe fazer a festa aqui. — Está tudo bem – falei. — Minha querida, não vamos entrar em desespero. Vamos resolver isso... – minha mãe começa a falar. — Como? Onde vamos encontrar alguém que forneça tantas flores para amanhã? Acho melhor adiar tudo... — Não vamos adiar nada. Amanhã você será minha esposa, não me importa se terá flores ou não. Nem parece meu irmão falando. Eu perdi tantos momentos de sua vida. — Vamos entrar, deixar Eduarda descansando no quarto e vamos resolver esse problema – diz minha mãe. — Não quero descansar, quero ajudar. — Tem certeza que não quer descansar? – Kadu pergunta. — Pelo amor de Deus, só estou em uma cadeira de rodas, não estou totalmente imprestável – falo chateada. — Não quis dizer isso... — Então vamos logo cuidar disso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD