Marcel
Sou o primeiro a acordar na manhã seguinte, na verdade, passei quase a noite em claro, intercalando com breves cochilos. Meu sexto sentido dizia para não confiar em Luíza, por alguma razão, e era exatamente o que fiz.
Vi quando Lorena acordou aos poucos, sua respiração inicialmente profunda, como se emergisse de um sono profundo. Ela entreabriu os olhos lentamente, como se relutasse em voltar à consciência, antes de fechá-los novamente por um breve momento. Quando os abriu novamente, seus olhos se fixaram em mim.
Eu estava sentado ao lado da cama, mantendo-me alerta e atento, pronto para qualquer imprevisto que pudesse acontecer.
Ela desvia o olhar para o móvel ao lado da cama, revirando os olhos antes de se sentar na cama.
~ Deveria ter tomado os analgésicos há duas horas atrás.
~ Não estou com dor.
Ela deixa a cama, entrando no banheiro em seguida. Ouço o barulho de água corrente por alguns minutos e logo depois ela aparece novamente, agora sem o pijama e com o cabelo penteado. Talvez tenha passado um pouco de maquiagem, pois a pele parda estava mais acentuada e os olhos estreitos destacados, assim como os lábios definidos.
Movendo o peso do corpo de uma perna para outra, ela mexe as mãos em frente ao corpo.
~ Vou fazer o café da manhã ~ E sem esperar ouvir qualquer coisa que tivesse a dizer, sai do quarto. Me apoio na cama ao lado e no instante seguinte a sigo para o primeiro andar, a encontrando se movendo com maestria pela cozinha ~ Tem cereal, o pão não é de hoje e tem algumas frutas, que dá para fazer uma vitamina ~ diz assim que entro no cômodo, sem me olhar.
Sento na cadeira da noite anterior e me coloco a observar mais. Em pouco tempo, ela havia preparado um pequeno banquete, com direito até mesmo a café fresco. Por um momento, me peguei me sentindo familiarizado com tudo aquilo, era como se todas as manhãs estivesse imerso aquela rotina.
Me lançando um sorriso sem jeito, Lorena se senta em minha frente, se servindo. Ficamos imersos ao silêncio e fingindo estar concentrados na comida, até que Luíza entra de repente no cômodo, parando abruptamente ao me ver.
Ainda com a expressão em uma mistura de surpresa e medo, ela olha na direção de Lorena, antes de andar devagar até o armário mais próximo e pegar uma caneca.
~ Ainda tem aquele cereal que você gosta ~ diz Lorena.
~ Estou sem fome ~ Luíza murmura, se servindo com um pouco de café.
~ Senta ~ digo sério, estreitando os olhos ao fixá-lo nela ~ E come seu cereal.
Ela inspira, antes de puxar a cadeira do meio e sentar. Lorena volta a atenção para o prato, enquanto a amiga pega o cereal no centro da mesa.
Dava para sentir o medo exalando do corpo de Luíza, era quase palpável. Era quase cômico observar como ela evitava olhar na minha direção, fingindo naturalidade, como se nada estivesse acontecendo. No entanto, era evidente que o nervosismo a dominava, principalmente diante da presença da arma próxima a ela, que poderia disparar a qualquer momento, acidentalmente ou não.
O café da manhã transcorreu em meio a um clima tenso, permeado pelo silêncio desconfortável e pelas trocas de olhares fugazes. Enquanto Luíza tentava disfarçar seu temor, ponderava sobre qual seria meu próximo passo.
Conforme o café da manhã avançava, eu percebia que não poderia me esconder ali por muito mais tempo, mesmo sem encontrar motivos concretos para sair. A organização precisava de mim; era como minha família, depois da minha mãe. Não poderia me afastar por muito mais tempo. Se prolongasse minha ausência, poderiam começar a suspeitar que algo de r**m me acontecera e iniciariam uma busca pelos responsáveis, e eu mesmo teria que encabeçar essa investigação.
Apesar de tudo, precisava voltar. Havia compromissos, responsabilidades e lealdades que não podia ignorar.
Quando Lorena levanta de repente, meus olhos se movem para ela que, começa a tirar os pratos sujos, pronta para tirar a mesa do café da manhã.
~ Não vai fazer nada? ~ pergunto para Luíza, quando Lorena começar a lavar os pratos. Pressionando os lábios, finalmente ela levanta e começa a tirar a mesa.
Algum tempo depois, quando a cozinha está organizada, ela força um sorriso ao olhar para Lorena.
~ Vou para o meu quarto ~ Dito isto, ela gira os calcanhares e sai do cômodo.
~ Parece que fez uma inimiga ~ Lorena comenta, secando as mãos em um pano de prato. Ergo minhas sobrancelhas, pouco me importando se havia ferido os direitos humanos daquela mulher, ela não parecia se importar com os outros, então por que pegar leve com ela?
~ Não é a primeira e não será a última ~ Me apoio na mesa para levantar.
~ Tenho que ver seus pontos.
~ Não estou com dor ~ Estavam apenas pinicando, coçando, mas era algo que dava para suportar.
Lorena ergue o blusão no momento seguinte, as pontas dos dedos tocando a lateral dos ferimentos, como se estivesse atrás de alguma inflamação que não estivesse visível.
~ Se continuar mantendo limpo, ficará apenas com uma cicatriz não muito grande.
~ Vou lembrar disso.
Seus olhos encontram os meus.
~ Está sentindo alguma coisa? Frio, por exemplo?
Será que se eu inventasse que estava com dor, mesmo assim me deixaria ir?, a pergunta surge de repente em minha cabeça, enquanto me perdia na imensidão de seus olhos, que parecia esconder muita coisa para uma pessoa só.
~ Não ~ digo por fim com um suspiro ~ E obrigado por se preocupar e não pretendo mais ser incoveniente ~ Faço menção em tirar o blusão, entretanto, sinto suas mãos pequenas nos meus braços.
~ O que está fazendo? ~ pergunta com o cenho franzido.
~ Vou devolver seu blusão.
~ Não precisa. Pode... ir com ele e depois dar para alguém que precise ~ Ergo um dos cantos da boca, concluindo de vez que ela odiará realmente aquele blusão.
~ Obrigado novamente ~ murmuro, antes de passar por ela, andando em direção da porta, ciente de que precisaria roubar um carro para chegar em casa.