Hannah sai da clínica, ainda estranhando tudo que tinha acontecido, mas feliz que o processo tinha seguido adiante, e no outro dia, ela voltaria a clínica para que a inseminação fosse feita. Quando chega no restaurante, se prepara para contar para a amiga tudo que aconteceu e que muito em breve vai embora para a casa do casal.
Assim que empurrou a porta do restaurante, Hannah sentiu o aroma familiar de temperos e óleo quente no ar. O movimento era tranquilo naquele horário, e sua amiga, Beatriz, estava atrás do balcão, secando as mãos em um pano de prato.
— Finalmente você apareceu! Como foi? — Beatriz perguntou, puxando uma cadeira para que Hannah sentasse.
A jovem suspirou, colocando a bolsa no colo.
— Estranho. O marido, Rodolfo, foi bem educado, mas a mulher dele... Nem sei explicar, me olhou como se eu fosse invisível. — disse Hannah, um pouco chateada.
Beatriz arqueou as sobrancelhas.
— Já começou bem, hein?
Hannah riu sem humor. Então, ajeitou os cabelos e olhou para a amiga com um misto de excitação e nervosismo.
— O que importa é que está tudo certo. Amanhã é a inseminação. E depois disso, eu me mudo para a casa deles, e fico lá até o nascimento do bebê.
Beatriz franziu os lábios, cruzando os braços.
— Isso tá acontecendo tão rápido... Você tem certeza?
Hannah hesitou por um segundo. Claro que tinha dúvidas, mas já estava dentro daquilo. Não tinha mais volta.
— Tenho. Vai dar tudo certo. E eu vou aproveitar essa estabilidade para procurar um emprego fixo, pra me manter depois que tudo acabar.
Mesmo que o olhar da amiga mostrasse certa preocupação, Beatriz apenas assentiu, apoiando a mão sobre a de Hannah.
— Então, vou torcer para que tudo saia como planejado. Você vai conseguir amiga.
Hannah sorriu, grata pelo apoio, mas no fundo, sentia que algo inesperado poderia acontecer. Ela se despediu da amiga, saindo da cozinha e foi para a casa nos fundos, aproveitou aquele tempo que tinha antes de Beatriz lhe trazer o jantar para já começar a arrumar suas malas.
[...]
No dia seguinte, Hannah vai até a clínica e é preparada para a inseminação, mas ninguém fica sabendo do erro do médico, que acaba inseminando o próprio óvulo de Hannah, e ele prossegue com o procedimento. O ambiente da clínica era frio, com o cheiro esterilizado que Hannah sempre associava a hospitais. Ela vestiu a camisola descartável e deitou-se na maca, tentando ignorar o nervosismo que fazia seus dedos tremerem. O médico entrou com um sorriso ensaiado, seguido por uma enfermeira que organizava os instrumentos.
— Tudo pronto, Hannah? — perguntou esfregando as mãos uma na outra.
Ela respirou fundo e assentiu.
— Sim.
Ele conferiu os papéis e digitou algo no computador antes de se virar para a equipe.
— Vamos começar.
O procedimento em si não durou muito, o médico explicou os passos, mas a voz dele parecia distante. Hannah tentava se concentrar no futuro, no acordo que havia feito. Em breve, estaria na casa de Rodolfo e Flávia, levando aquela gravidez adiante.
Mas o que ninguém sabia era que um erro sutil, imperceptível para qualquer um na sala, havia acontecido. O médico não percebeu a troca na amostra utilizada para a inseminação. E, sem se dar conta da falha, prosseguiu como se tudo estivesse perfeitamente alinhado ao plano.
Ao final, ele retirou as luvas e sorriu.
— Agora é só aguardar. Se tudo correr bem, em poucos dias teremos uma confirmação, feita pelo exame de sangue. — Explicou e Hannah sorriu de volta, sem imaginar que aquele momento mudaria tudo.
Hannah volta para sua casa no fundo do restaurante e é informada de que Rodolfo logo vai buscá-la. Ela junta suas coisas, fica um pouco envergonhada com onde mora e marca para se encontrar com ele numa pracinha perto do restaurante antes de ir para a casa do casal.
Hannah entrou em seu pequeno quarto e soltou um longo suspiro. O espaço era pequeno, com uma cama encostada na parede, apesar de caber um armário simples e uma mesa improvisada cheia de papéis e livros, não mudava o fato de que era um lugar pequeno demais para o tipo de vida que imaginava para o futuro.
Ela abriu a mala velha que tinha embaixo da cama e começou a colocar suas roupas dentro. Poucas peças, na verdade. Nunca teve dinheiro para comprar muita coisa.
Logo ouviu uma batida na porta. Beatriz entrou, cruzando os braços.
— Já vai?
— Rodolfo está vindo me buscar. — Explicou.
Beatriz olhou ao redor e suspirou.
— E você quer que ele venha aqui? — Hannah mordeu o lábio.
— Não. Eu... Vou encontrá-lo na praça, assim evita. — Explica.
A amiga assentiu.
— Entendo.
Hannah pegou a mala e se virou para Beatriz.
— Obrigada por tudo. Você sabe que eu só consegui chegar até aqui, porque sempre tive sua ajuda e seu apoio.
Elas se abraçaram rapidamente.
Depois, Hannah saiu, respirando fundo ao sentir o vento da manhã no rosto. Aquela mudança era definitiva. E, por mais que estivesse nervosa, não havia mais como voltar atrás.
Com uma certa dificuldade, chegou na pracinha e mandou uma mensagem para Rodolfo avisando que já estava lá, e minutos depois ele foi buscá-la e para sua surpresa e alívio, ele não estava acompanhado de Flávia.
— Boa tarde! — cumprimentou ele.
— Boa tarde. — respondeu ela.
— Pode ir entrando no carro, eu coloco suas malas lá atrás. — disse ele.
Só então que Hannah notou o carro, um Honda Civic preto, ao se sentar sentiu a maciez do carro e ficou impressionada. Logo que viu ele entrando no carro, parou de olhar ao redor, mesmo que tivesse muita curiosidade sobre tudo. Encostou no banco e curtiu o caminho até a casa deles, e não foi nenhuma surpresa quando ele adentrou no bairro mais rico da cidade. Mansões, condomínios e prédios se faziam presente por grande parte das ruas. Ao chegar na casa deles, era a mais simples dali, se é que pudesse ser considerada assim.
— Bem-vinda, Hannah. — disse ele abrindo a porta para ela.
— Obrigada! — disse ela descendo e indo ao encontro das suas malas.
— Vem, vou te mostrar seu quarto. — disse ele indo na frente para abrir a porta.