7. Por favor, me deixe ser livre?

1605 Words
As 10:20 eu estava no LeHange esperando pela tal assistente de bordo. Meu coração estava aflito, embora eu tenha pensado que um pedaço de brownie com sorvete de baunilha fosse fazer essa sensação passar. Eu sou a amante, e como uma sabia cantora brasileira disse "amante não tem lar". Eu nunca gostei de música country, mas gosto do sertanejo brasileiro. Enfim, ignorando um pouco meus déficit de atenção, como eu pude pensar que Dom e eu faríamos certo? Como seria possível? Não é como se fosse uma situação normal, não é como se eu pudesse tê-lo tão facilmente. — Nora? — Uma voz feminina vindo de uma platinada com mexas coloridas em rosa, azul e violeta, me puxam dos meus pensamentos negativos. — Oi, eu sou a Lina, da Iron Tears. Me levanto para cumprimenta-la, e antes de sentarmos frente a frente na mesinha rústica, Lina e eu nos cumprimentamos formalmente. — Que incrível, não é? Ir até os polos de barco? Seria medo, nervosismo, ou insegurança em sua voz? Lina parece ser bem auto suficiente, mas porque sinto uma energia inconveniente em sua voz? É medo da viagem? Ou nervosismo de se arriscar tanto para realizar o sonho de outra pessoa? — É loucura, na verdade. Se não fosse algo tão presente e fixo em minha mente, eu não sei se eu teria coragem o suficiente. Eu entendo que tenha medo, que se sinta ansiosa diante da adversidade. Não vai ser uma viagem fácil. — Ah. — Ela abre um sorriso amarelo. — Não me preocupo com a viagem. Acho que nada mais me assusta depois de ir para as bermudas. Aquelas águas... — Traiçoeiras, eu sei. Meu pai e eu fomos lá uma vez. Vimos tantos tubarões que pareciam flocos de areia. — Para que tantos tubarões lá? Tipo assim, as praias são lindas mas mortais! Não acha hipocrisia do universo? — Totalmente, se alguém quer nadar com tubarões é só ir pras Maldivas ou Havaii. É... peculiar, de um jeito bom. Eu não conheço jovens interessados em navegação, e os colegas que tenho tem mais de quarenta anos. A sensação é boa, porque posso conversar com ela sobre assuntos que temos em comum. — A quanto tempo você veleja? — Bem, meu pai era pescador antes de conseguir entrar na faculdade e bem, ele lutou muito para chegar aonde está hoje. Bem, isso não tem nada haver com a pergunta, mas foi velejando com ele que eu me apaixonei pelo mar. Então, eu velejo desde que eu me entendo por gente. — Seu pai... — Que coincidência. — Seu pai te ensinou a velejar? Ela balança a cabeça cheia de cores em afirmação. — Ele me ensinou todos os truques de pescador, mas é claro que eu também tenho formação náutica. Eu sou a melhor, posso te prometer isso. Eu sei, Dom não teria escolhido o segundo melhor para me acompanhar. Se ele acredita que ela é boa, deve ser. — Não precisa prometer. Essa viagem vai ser longa, são dez meses em alto mar, preciso ter certeza que você entende isso. Não consigo imaginar alguém abrindo mão de tanto tempo da sua vida para ir em uma aventura com uma completa desconhecida. E isso me leva a pensar que ou ela precisa muito do dinheiro, ou quer fugir por um tempo. Que oportunidade melhor para se desfazer de problemas do que ir para o meio do nada? — Eu tenho os meus motivos. Pode ter certeza que estou cem por cento dentro disso. Lina parece uma boa pessoa. Claro que a convivência em um ambiente limitado traz o pior e o melhor das pessoas e isso é algo que somente vendo para descobrir. Mas, fora disso, a única coisa que quero avaliar é a habilidade dela. — Que bom, mesmo. Estava pensando em nos encontrarmos amanhã para você dar uma olhada no barco e claro, fazer todos os preparativos pra viagem. — Seus ótimo, eu estou livre as... — ela olha para cima, expondo a garganta, como se estivesse vendo uma lista de tarefas e compromissos no teto. — As duas da tarde, o que você acha? — Perfeito, eu vou te passar o endereço. Não sei o que esperar da viagem, pelo menos não mais. Há coisas que quero fazer, lugares que quero visitar, mas o trajeto até lá. Sempre imaginei que faria isso sozinha, mas agora eu não sei como vão ser as coisas com o arco íris ambulante. ~ • ~ Dom Não consegui parar de pensar naquela última mensagem. Eu conheço a minha garota como a palma da mão. Consigo dizer quando ela está chateada e aquela resposta desconexa é a prova de que tem algo a chateando. E para piorar, tive que aguentar um jantar de três horas com pessoas que eu não conhecia apenas para posar com Amélia para as páginas de alguma revista. Já faz muito tempo que a nossa relação se resume apenas a isso. Raramente dormirmos na mesma cama — com mais frequência fico aliviado por isso. Esse casamento iniciou por diversão e sexo casual, por status nós nos casamos. O casal de ouro, é como nós chamam, mas isso seria diferente de vissem como somos entre paredes. — O que foi? — Pergunta Amélia, ainda usando o vestido dourado de seda de alguma marca de luxo, embora eu esteja desesperado para me livrar do smoking. — Como assim o que foi? — Você. Nós somos vigiados, Dom. As pessoas notam que você não segura a minha mão, ou não me beija. E se começarem a pensar que não estamos bem? — E nós estamos, Amélia? Nós estamos bem? — Há irritação na minha voz. Isso foi uma grande perca de tempo, todos esses anos simplesmente forçando uma imagem para agradar aos outros. — Imaginei que estivessemos de acordo, Dom. Você é meu marido. — Ela se aproxima, preocupação visível. — Não, Amélia, isso aqui não é um casamento. Você não me ama. — Não diga isso, é claro que eu amo você. — Não. — Não há verdade nisso. — Não ama. Você ama a ideia de mim. Rico, bonito, era o homem mais desejado naquela época. Você não me ama, você ama o que tem comigo. — Ah, querido. E você não pensa o mesmo de mim? Minha imagem, a minha fama alavancou a Iron Tears, não venha colocar essa culpa sobre mim se você agiu igualzinho. Pfft, ela está brincando, não está? Já éramos conhecidos naquela época, eu já tinha alcançado todas as minhas metas. Iron Tears já era reconhecida mundialmente. Mas, engolindo o meu orgulho flamejante, ela tem um pouco de razão. Com o nosso grupo social abrangente, conquistei sócios e investidores que fizeram a diferença para abrir novas filiais. Isso...isso foi uma jogada de marketing para ambos. — Eu quero o divórcio. — Minhas palavras saem firmes, então não entendo o porquê delas terem causado uma crise de risos em Amélia. Sua risada é ensaiada, como um donzela diante do rei em um filme de época. Sempre fora tudo tão... plástico. — Está louco? Quer colocar toda a imprensa na nossa cola? Estou decidido demais para pensar em algo tão supérfluo. Amélia deixa o semblante de sátira, e a preocupação atinge seus olhos azuis. — Não pode estar falando sério. — Estou, estou falando muito sério. Eu cansei, eu não quero mais viver assim. — Não quer mais viver assim? Rico e famoso? Me conta outra! Você tá com alguém, é isso? Você tá me traindo! — Não preciso ter outra pessoa para desejar acabar com isso, Amélia! Ela me dá as costas e energética vai para dentro do closet. — Você enlouqueceu! Sabe o que isso vai fazer na minha imagem? Um divórcio! Vai pro inferno, Dom! Como você pode pensar em fazer isso comigo! Depois de anos convivendo com Amélia, descobrir que ela é uma excelente atris. Não sei ao certo quando ela está sendo real ou está atuando, mas eu já a vi com raiva, e agora ela está encenando. A Amélia revoltada é capaz de incendiar o mundo, está dentro do closet é controlada, ensaiada, porque eu já vi milhões de vezes ela encenar assim. Como que eu me coloquei no meio disso? Estava tão cego pela fama que me deixei levar? — Eu só quero... Eu só quero ser feliz, e de bônus ficar com a minha garota. Quero reaver os anos de vazio e sexo frio e conquistar algo quente como o amor. — Eu só quero acabar com isso. — Acabar com isso? — Ela surge na porta, impecável, sem lágrimas ou qualquer outro sinal de desordem. — Ah, querido, isso está longe de acabar. Eu sabia que ela resistiria, eu sei que ela vai lutar para conseguir o que quer, mas estou decidido a isso. — Eu vou ficar no quarto de hóspedes. — Isso é ridículo, Dom. Tem noção do quão ridículo está soando? — Estou decidido, Amélia. Meu advogado entrará em contato com o seu. — Em direção a porta, deixo a mulher de cabelos castanhos longos para trás. — Eu não vou desistir, não importa o que você faça. Saio da suíte principal de cabeça erguida. Estou certo dessa decisão e não é só por Nora, isso é por mim também. Dinheiro, fama e status sai coisas boas, coisas que podem te levar as nuvens, mas a noite quando eu me deito na cama eu só consigo sentir o frio dessa casa. Independente de como as coisas se desdobrem entre Nora e eu, estou determinado a encontrar algo melhor do que o vazio entre essas paredes.
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