Depois de agir o mais natural que consegui, agindo como se nunca tivesse encontrando Guilherme na minha vida, estava evitando qualquer chance de ficar sozinha. Ou ficava perto de Gabriel ou da sua mãe ou dos irmãos mais novos dele. Sabia que na primeira oportunidade que tivesse, Guilherme me encurralaria. Ele também havia me reconhecido, mas quando fingi não o conhecer, por algum motivo, ele não me desmascarou, mas a forma como me olhou deixou claro que estava com raiva. Eu ainda conseguia reconhecer suas expressões. Odiava isso. Queria tanto ter o apagado da minha mente, mas o ter ali, em minha frente, trazia tantas memórias de volta. Memórias que eu não queria.
—Tudo bem? —a pergunta me fez sair dos pensamentos e foquei o olhar em meu namorado, que estava sentado ao meu lado no sofá. Ele estava preocupado. Obviamente, não estava agindo tão natural como gostaria.
—Só um pouco cansada —menti.
Já era a segunda vez só no mesmo dia e ainda nem era meio dia. Quantas vezes iria mentir para ele? Aliás, por que simplesmente não lhe contei que conhecia seu irmão? Mas, também, como iria lhe explicar aquela situação esquisita? Como lhe diria que seu irmão foi meu primeiro namorado e que ele quebrou meu coração? Como impediria que isso estragasse nosso namoro e deixasse o clima estranho para nós? Precisava colocar meus pensamentos no lugar, antes de contar a ele qualquer coisa. O pior é que será bem pior se eu lhe contar agora, depois de ter escondido essa informação dele. O melhor é só fingir que nada aconteceu. Esse é o melhor caminho.
—Quer ir embora? —ele ofereceu e por um momento, pensei em aceitar e fugir de tudo aquilo, mas não podia.
—Nós acabamos de almoçar —lhe lembrei —Sua mãe ficará chateada se saí assim tão rápido.
—Digo que você passou m*l —ele ofereceu e balancei a cabeça.
—Aí ela vai ficar pensando que sua comida me fez m*l.
—Você também não facilita —resmungou ele e me inclinei para ele, depositando um beijo no canto de sua boca.
—Obrigada por se importa, mas estou bem —lhe tranquilizei.
Senti um formigamento em minha nuca, mas não precisei virar para saber que ele me olhava. Desde que nos cumprimentamos de manhã, ele vem me observando de vez quando, principalmente quando estou perto de Gabriel. Sabia que estava só esperando uma oportunidade para me questionar, mas não tinha nada a dizer a ele. Estava tão surpresa com essa situação quanto ele.
—Ok, então —Gabriel segurou minha mão e se levantou, me puxando com ele.
—Ei —reclamei quando ele praticamente me arrastou para fora da sala —Para onde está me levando?
—Para meu quarto —explicou ele subindo as escadas —Já que não quer ir embora, vamos descansar um pouco. Ninguém vai notar nossa falta.
Bem, pelo menos, uma pessoa vai.
Deixei ele me levar para seu quarto sem luta. Realmente precisava de um momento longe de toda aquela gente. Era difícil ser social quando sua cabeça parece que vai explodir há qualquer momento com tantos pensamentos.
O quarto de Gabriel era bem simples, uma cama de solteiro, uma escrivaninha, onde ficava uma foto nossa, uma cômoda e seu computador. Nas paredes tinham estantes com seus livros preferidos e livros da escola. Como sempre, estava uma bagunça, roupas no chão e na cama, cadernos abertos e folhas espalhadas em cima de sua escrivaninha. Ele não era a pessoa mais organizada e nunca fez questão de me esconder isso.
—Não tem vergonha de me trazer aqui com seu quarto estando nesse estado? —o provoquei quando ele me soltou para tirar as roupas de cima da cama.
—Claro que não —respondeu ele com um sorriso —Você precisa saber com quem vai se casar.
—Talvez seja por isso que não aceito seu pedido —apontei. Ele se sentou na cama e fez sinal para mim aproximar —Gosto das minhas coisas organizadas.
—E se eu promete ser o homem mais organizado do mundo, você casa comigo?
Me sentei em sua cama e ele puxou minha cabeça, me fazendo deitar em seu colo e começou a brincar com meus cabelos. Ele sabia que amava isso, sempre me fazia relaxar.
—Como vou saber que vai cumprir essa promessa?
—Alguma vez quebrei alguma promessa que te fiz? —questionou ele sério.
—Bem, você não me fez muitas promessas —apontei fechando os olhos —Mas não, nunca quebrou nenhuma delas. Ainda.
—Desnecessário esse “ainda” —resmungou ele e apenas sorri.
Ficamos em um silêncio confortável, com ele apenas brincando com meus cabelos. Uma das coisas que mais amava entre nós era justamente isso, a falta de necessidade de dizer algo, de quebrar o silencio. Sua presença me deixava confortável. Só havia sentido isso com apenas outra pessoa.
—Saco —resmunguei mais alto do que gostaria e Gabriel se assustou.
—O que foi? —perguntou ele.
—Não é nada.
Droga. Por que tinha que pensar nele logo agora? Por que estava o comparando à Gabriel? Nunca fiz isso antes.
—Layla... —Recriminou ele e suspirei.
—Eu... —fui interrompida por batidas na porta.
Me sentei na cama em um pulo antes da porta ser aberta e o motivo da minha inquietação aparecer na porta. Seus olhos encontraram os meus por um momento, antes dele se focar no irmão.
—Nossa mãe está te procurando —ele avisou.
—Por quê? —Gabriel questionou e sua resposta foi um dar de ombros. Gabriel se voltou para mim —Fica aqui, eu já volto.
Assenti e o observei sair. Apenas quando ele passou pela porta que percebi meu erro. Pensei em gritar para ele esperar ou correr atrás dele, mas antes de decidir qual seria menos estranho, ele já se afastava e Guilherme aproveitou a chance para entrar no quarto e fechar a porta atrás de si. Parecia saber que estava planejando uma fuga, já que se encostou na porta.
—Pode me explicar o que caralhos significa tudo isso? —questionou ele. Conseguia sentir que fazia força para manter a voz baixa —Você está namorando a droga do meu irmão?
—Estou tão surpresa quanto você , se me perguntar —falei em um tom surpreendentemente calmo. Estava longe de me sentir assim, mas, pelo menos, não demonstrava.
—Isso tudo foi para ficar perto de mim? —questionou ele. Um sorriso convencido surgiu em seu rosto e tive vontade de o fazer sumir com um tapa.
—Esqueceu que nunca me apresentou a sua família, como saberia quem é seu irmão? —o olhei com desdém —Então não, não fiz nada para ficar perto de ti. Apenas sou azarada demais —fiz uma pausa, subitamente me sentido muito cansada —Para falar a verdade, eu mudei de cidade justamente para nunca ter que te encontrar de novo. Como poderia imaginar que, há quilômetros de distância do lugar onde te conheci, acabaria conhecendo seu irmão? Eu realmente sou azarada.
Sim, era exatamente isso que eu era. Azarada. Como não poderia ter notado os sinais? Um garoto que se chamava Daniel, que tinha 25 anos e estava estudando no exterior. Era coincidência demais, entretanto não fazia sentido. Primeiro porque eu tinha me mudando de cidade e achei que não seria azarada o suficiente para encontrar alguém da família dele em uma cidade tão grande como São Paulo. Segundo, eu o conhecia como Guilherme, mesmo sabendo que seu primeiro nome era Daniel, não era algo que me lembraria se alguém não mencionasse. E terceiro, quando Gabriel falava do irmão nunca dava muitas informações concretas, nem me sentia interessada em perguntar por mais. Por que deveria demonstrar interesse por seu irmão? Na verdade, não seria estranho justamente demonstrar interesse?
—De qualquer forma, isso não significa nada —finalizei.
—Como não? Você é minha namorada.
—Ex-namorada —o corrigi —E gostaria que não mencionasse isso novamente. Vamos só esquecer o passado, tudo bem? —Ele apenas me encarou, sem responder —Olha aqui, Gui... Ou melhor, Daniel. Eu me importo muito com Gabriel e sei que se souber que algo aconteceu entre nós, isso vai deixa-lo preocupado e desconfortável —essa era parte da verdade, a outra parte era que eu apenas não queria falar sobre ele ou sobre o que passamos juntos —Então vamos só manter assim, certo?
—Certo —concordou depois de uma longa pausa e abriu a porta. Estava preste a sair, quando parou —Sabe qual era a primeira coisa que queria fazer quando voltasse?
—Não estou interessada em saber.
—Encontrar você —ele continuou como se não tivesse falado nada.
Sentir meu coração acelerar e o odiei por isso. Não deveria reagir a ele. De nenhuma forma.
—E por que queria me encontrar? —questionei antes que pudesse me impedir.
—Para te dizer que eu ainda te amo —disse ele sua voz embargando de emoção.
—Você não pode falar isso —disse em voz tão baixa que tive dúvidas se ele ouviu.
—Claro, claro —ele deu uma risada sem humor —Agora você é namorada do meu irmão, não devo te falar essas coisas —fez uma pausa —Relaxa. Essa é a última vez que falo sobre isso.
Depois disso, ele foi embora me deixando completamente confusa para trás. Não sabia o que sentir, nem o que pensar. Estava completamente desamparada.