Eu tenho

1885 Words
A primeira vez que o vi foi no começo das aulas do primeiro ano do ensino médio. Como todo ano, aquele primeiro dia era sempre uma bagunça. Os alunos procurando suas turmas, conferindo se continuavam na mesma sala que seus amigos, comemorando se sim ou reclamando se não. Os professores igualmente perdidos tentando descobri em qual ano seria suas aulas e quais turmas teria que aguentar durante aquele ano. Foi no meio de toda essa confusão que eu o vi. Não sei por que ele me chamou atenção, não era o garoto mais bonito, na verdade era alto, magro e desengonçado, mas algo nele me atraiu e não consegui desviar o olhar, por mais que quisesse. Talvez fosse a forma que ele conversava e brincava com seus amigos, rindo tão abertamente, tão livre ou sua forma desastrada, sempre esbarrando em alguma coisa ou alguém. Sinceramente não sei. Apenas que depois daquele primeiro dia não consegui esquecer aquele garoto e meu primeiro pensamento a ir para escola era vê-lo. Eu queria observa-lo, mesmo que de longe, tentando não ser percebida. Infelizmente não estávamos na mesma turma, ele estava no segundo ano, enquanto eu estava no primeiro, mas sempre o via pelos corredores da escola. Depois de um tempo, ele começou a retribui meu olhar. Sempre ficava tão envergonhada e nervosa quando olhava em sua direção e ele já estava me olhando. E ele não disfarçava que tinha sido pego, às vezes, até sorria. Eu era a única a desviar o olhar, todas as vezes. Ficamos nisso por meses, sem trocar qualquer palavra. Um dia, estava sentada no refeitório terminando uma atividade de matemática quando ele sentou ao meu lado. Meu coração acelerou na mesma hora que notei que era ele, mas não disse nada, tentei focar no exercício à minha frente, mas já não conseguia entender nada. Estava nervosa demais. —Precisa de ajuda? —questionou ele. Era a primeira vez que escutava sua voz e fiquei completamente apaixonada. Ele tinha uma voz muito bonita. —Não, eu... já terminei —fechei o caderno. —Eu sou muito bom com matemática —disse ele sorrindo convencido —Na verdade, com todas as matérias, então pode me deixar te ajudar. —Eu agradeço, mas não precisa —neguei. Quis me bater. Essa era a minha oportunidade de me aproximar dele e estava jogando pela janela. i****a. —Tudo bem —ele deu de ombros —Eu sempre fico na biblioteca depois da aula. Se mudar de ideia sobre estudarmos juntos, estarei por lá. Ele sorriu para mim e se levantou, indo embora. Aquela foi a primeira vez que conversamos e foi um desastre completo, eu nem sequer lhe perguntei seu nome. Em minha defesa, nunca havia me sentido tão nervosa nessa vida. Apesar do convite dele, fiquei com vergonha demais para ir até a biblioteca depois da aula. Levei alguns dias para criar coragem e como ele havia falado, realmente estava lá. Ocupava quase uma mesa inteira com seus materiais, mas, surpreendentemente não parecia bagunçado. Na verdade, tudo estava até que organizado. Em um primeiro momento, ele não me notou, concentrado em seus livros. Aproveitei a oportunidade para observa-lo por um tempo. Ele ficava sério quando estava concentrado, diferente do garoto sorridente e brincalhão que costumava ver pelos corredores da escola. Sorri ao notar que conhecia mais um lado dele. Era i****a algo tão pequeno fazer meu coração se encher de alegria? —Você veio —disse ele ao finalmente me notar, um sorriso iluminando seu rosto. Quando o observava de longe não conseguia ver as covinhas que se formavam em suas bochechas e fiquei surpresa ao vê-las pela primeira vez. Era fofo. Naquele primeiro dia não conversamos muito. Ainda estava tão nervosa que não conseguia pensar no que dizer, então apenas sentava ao lado dele na mesa e estudava, cada um focado em seus próprios exercícios. Quando notava que estava com dificuldades, ele me ajudava a entender melhor. Sua forma de explicar os assuntos era muito mais fácil de compreender que a forma dos professores explicarem. Talvez porque ele já tinha estudando todos aqueles assuntos, mas ele era muito inteligente, não tinha nenhuma matéria que ele tivesse dificuldade. Pelo menos não demostrava e não importava o quanto o assunto fosse complicado e difícil, ele sempre conseguia entender e me explicar de forma que compreendesse. Foi dessa forma que nós nos aproximamos. A biblioteca se tornou o nosso lugar. Eu ansiava ainda mais pelo final da aula só para passar mais tempo com ele. Era meu momento favorito do dia. Depois de algum tempo nessa rotina, finalmente criei coragem e perguntei como ele se chamava. Apesar de ter escutando seus amigos lhe chamando, ainda não tinha certeza absoluta de qual era seu nome mesmo. —Daniel —disse ele. —Pensei que era Guilherme —comentei em voz baixa. Tinha escutando a professora lhe chamar assim uma vez, mas deveria estar enganada. —Na verdade, me chamo Daniel Guilherme —explicou ele e o olhei surpresa —O que posso fazer? Minha mãe é exagerada. Ela adora nome compostos —fez uma pausa —Entretanto até hoje só me chamam de Guilherme quando querem me dar sermão. Até me assusto quando escuto. —É mesmo? —questionei e ele assentiu, sério —Então vou te chamar de Guilherme —ele estremeceu e eu ri. Ele estava mesmo falando à verdade sobre se assustar. —Não faça isso —pediu ele, mas não o escutei. Gostava da ideia de chama-lo de Guilherme. Nossa relação foi ficando gradualmente mais confortável e amigável, até conversamos mais sobre coisas que não envolviam apenas a escola. Falávamos sobre livros favoritos, programas de TV que gostávamos de assisti, sonhos e desejos para o futuro. Esse tipo de amenidades. Cada dia que o conhecia mais, mais interessada ficava. Era obvio que Guilherme também estava interessado em mim, podia ver isso na forma que sorria para mim ou na quantidade de vezes que o pegava me olhando quando estava estudando. Quando o pegava no flagra, ele apenas sorria como um menino travesso e isso fazia com que meu coração quase saísse do peito. Aquele sorriso dele era o que mais gostava. Entretanto nenhum dos dois tomava nenhuma atitude. Até que um dia, quando estávamos na biblioteca, eu fui tentar pegar um livro que estava na prateleira de cima, mais alto do que conseguia alcançar. Fiquei na ponta dos pés, mas, ainda assim, não consegui alcançar. Foi quando o sentir se aproximar por trás de mim e ele pegou o livro que queria para mim. Me virei para o agradecer, dando de cara com o seu peito. —Obrigado —disse esperando-o se afastar, mas ele não fez isso e levantei a cabeça para o encarar. Ele estava sério —Guilherme? Até então, ele já estava acostumado comigo chamando-o assim, então nem estremecia mais, o que foi uma pena. Gostava de o provocar sobre isso. —Quero muito te beijar —admitiu ele, sua voz rouca e baixa —Eu posso? Meu coração acelerou de uma forma que me perguntei por um momento se não iria infartar naquele momento. Essa sensação piorou quando olhei para seus lábios, tão vermelhos, tão atraentes. Estava tão nervosa com a ideia que não consegui pronunciar as palavras, mas assenti com a cabeça. Ele não me beijou de uma vez como esperava, invés disso seus olhos procuraram os meus enquanto passava a mão pelo meu rosto colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, então seus olhos desceram para meus lábios e ele se aproximou. Prendi a respiração em antecipação até que seus lábios finalmente tocaram os meus. ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ —Você está tão quieta —comentou Gabriel me tirando dos meus pensamentos. Me odiava por estar pensando em outro garoto quando estava com meu namorado. Isso era errado em tantos níveis. —Desculpa —pedi olhando pela janela do carro. Tínhamos acabado de chegar em frente à minha casa —Não estou bem hoje. —Isso eu percebi, mas o que está te incomodando? —questionou ele preocupado —Quando saímos de casa, você parecia bem, mas depois do almoço com a minha família, pareceu para baixo. Alguém te chateou? Disse algo que te magoou? —Não, não —neguei rápido —Sua família sempre me trata muito bem. Bem até demais —apontei para as embalagens no banco traseiro —Ainda acho que sua mãe exagerou na quantidade de comida. Não vou precisa cozinhar por, no mínimo três dias. —Minha mãe é exagerada —disse ele. Tentei evitar reagir, mas não consegui evitar pensar em uma pessoa que me disse a mesma coisa há muitos anos atrás —Você sabe disso. —É, eu sei —concordei desanimada. Por que ele tinha que ser o irmão dele? Por que tinha que ser tão azarada? Não queria abri mão ou estragar meu relacionamento com Gabriel por causa do passado, mas parecia que isso iria acabar acontecendo desse jeito. —Então foi meu irmão? Suas palavras fizeram meus olhos se arregalarem. —Como assim? —tentei soar calma. —Daniel disse ou fez alguma coisa que te incomodou? —questionou ele me encarando. Desviei o olhar, com medo de me entregar. —Não —menti olhando pela janela —Ele só parece que não gostou muito de mim. —É só porque vocês não se conhecem há muito tempo —disse ele tentando me tranquilizar —Ele é meio frio com desconhecido, mas depois de te conhecer melhor, também vai te amar. Congelei. A conversa que tive mais cedo naquele dia com Guilherme voltando a minha mente. Balancei a cabeça, querendo afastar aqueles pensamentos. —Não importa —disse e retirei meu cinto —O único que eu quero que me ame está aqui, bem ao meu lado —fechei a janela do carro, antes de me virar para Gabriel. Subi em seu colo, colocando uma perna em cada lado do seu quadril. Não era uma tarefa muito fácil de fazer no carro, mas consegui me acomodar como queria —Só me importo com o que você sente, Gab. —E eu amo você —disse ele rodeando minha cintura com seus braços —E amo te ter em meus braços, mas acho que esse lugar não é apropriado. —Tem certeza que acha isso? —questionei me mexendo em seu colo —Sabe o que eu acho? —passei os braços pelo seu pescoço —Que seu corpo não concorda contigo. —Layla —gemeu ele e sorri. —É quase 22:00 —respondi enquanto dava beijos leves em seus lábios —Não tem ninguém na rua —desci minhas mãos por seu peito, parando na barra de sua camisa e a puxei para cima. Ele me permitiu tirá-la —As janelas estão fechadas e ninguém consegue ver o que estamos fazendo —precisava toca-lo, senti-lo —E eu quero você, Gabriel. Aqui e agora —o beijei, mordendo levemente seu lábio inferior —Me faça sentir bem. “Me faça esquecer” —essa parte não falei em voz alta, apenas pensei. Eu não iria deixar Guilherme estragar mais uma coisa boa na minha vida. Eu não o deixaria estragar meu relacionamento com Gabriel. Não permitiria isso, porque eu o amo. Eu amo Gabriel. Eu tenho que amá-lo.
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