Depois de me deixar em casa, Gabriel foi embora. Ele iria ajudar seu irmão na mudança no dia anterior. Estranhei o fato de Guilherme chegar em um dia e no outro já querer estar em sua própria casa, mas não questionei. Não era da minha conta. Nada que envolvia aquele garoto me interessava. Só queria distância dele. E mesmo que ele fosse irmão do meu namorado, esperava que não nos encontrássemos com frequência no futuro. Gabriel já morava sozinho, então raramente encontrava com sua família. Não precisava me preocupar.
Estava tão cansada, física e mentalmente, que só foi deitar na cama que adormeci. Acordei de manhã com alguém batendo na porta e me levantei me arrastando da cama até à porta. Ainda estava meio dormindo quando a abri e fiquei surpresa ao dar de cara com um Gabriel sorridente.
—Bom dia —cumprimentou ele e levantou a bolsa em sua mão —Trouxe o café da manhã.
—Você não iria ajudar seu irmão? —questionei surpresa. Talvez ainda estivesse sonhando?
—Você não vai adivinhar —disse ele animado enquanto entrava em minha casa. Tive uma sensação r**m.
—Acho que não quero adivinhar —comentei fechando à porta antes de me arrastar atrás dele.
—Meu irmão vai ser seu vizinho —continuou ele sem escutar o que havia dito.
—O que? —exclamei finalmente me sentindo acordar completamente. Isso não podia ser verdade.
—Também fiquei surpreso quando ele me contou onde iria morar —disse ele colocando as bolsas em cima da mesa e se virou para mim —Que coincidência, não acha?
—Sim —concordei com um sorriso falso. Eu devo ter feito algo muito r**m em minha vida passada e agora devo está pagando bem caro por isso. Não era possível. Meu vizinho? Sério? —A casa não era de uma tal de Eduarda? Lembro que ela morou aí por um tempo.
—Eles são amigos —explicou ele enquanto retirava as coisas que trouxe de dentro da bolsa e colocava na mesa.
—Só amigos? —me vi perguntado antes que pudesse me impedir e quis me bater. Isso não era da minha conta.
—Isso, eu não sei —respondeu ele com um dar de ombros —O que sei é que se conheceram no primeiro ano que ele chegou no Canada. Eles se deram bem automaticamente já que ambos são brasileiros. Mantiveram contato, mesmo quando ela voltou para cá — me olhou com um sorriso cumplice —Acho que ou a amizade deles é muito forte ou não é apenas uma amizade.
Senti um aperto no peito, um gosto amargo na boca. Quando ele foi embora, não quis manter contato comigo, não quis nem tentar, mas, pelo visto, eu apenas não valia o esforço.
—O que você trouxe? —perguntei mudando de assunto.
Isso não importava mais. Eu não me importava mais. Eu não deveria me importa com o passado. Foi esse passado que me trouxe até Gabriel, que era o homem mais incrível que já conheci. Ele nunca quebraria meu coração. E eu deveria me esforça para que eu não quebrasse o dele.
Depois de tomamos o café da manhã juntos, Gabriel avisou que precisava voltar, já que seu irmão já tinha começando a faxina e estava o acusando de ter fugido do trabalho duro. A casa estava fechada há alguns meses e precisava urgentemente de uma limpeza. Não queria encontrar com Guilherme, não tão cedo, mas minha educação falou mais alto e perguntei se Gabriel queria minha ajuda. Esperava que ele negasse, mas, infelizmente, ele aceitou. Bem que minha mãe costumava dizer: “não ofereça o que não quer fazer”. Então tive que promete que depois de um banho, iria até lá. E foi o que fiz.
Gabriel que abriu a porta para mim e quando encontrei Guilherme, ele apenas me cumprimentou com um aceno de cabeça. Não sei o que esperava. Só não queria que ele parecesse tão calmo perto de mim, quando me sentia tão tensa e preocupada. Sendo que ele foi o único que disse que ainda me amava. Não sabia qual era a droga do meu problema. Ele agir tão normal e natural era melhor. Nossa convivência seria mais fácil dessa forma, já que, aparentemente, quanto mais distância queria dele, mais perto ele ficava. Era melhor aprender logo a não reagir a ele.
Durante às próximas quatro horas, foquei completamente na faxina. Não era uma tarefa muito agradável, mas sempre dava uma sensação de felicidade quando terminava e sentia o cheiro de limpeza. Aquela casa realmente parecia não ver uma boa limpeza há algum tempo. E estava muito satisfeita com o resultado. Apesar de me sentir completamente esgotada.
—Estou morta —comentei enquanto me deitava no chão da sala.
—Tadinha dela —Gabriel comentou sentado ao meu lado —O que posso fazer para te recompensar?
—Uma massagem não seria de todo m*l —comentei pensativa —Minhas costas estão me matando.
—Certo —fez sinal para me deitar de barriga para baixo e eu o obedeci. Ele se sentou sobre minhas pernas.
—Precisa mesmo disso? —questionei o olhando por sobre o ombro e ele sorriu.
—Claro —começou a massagear meus ombros —Agora relaxe.
Fiz o que mandou, deitando a cabeça no chão e fechei os olhos, aproveitando a massagem. Gabriel tinha mãos muito boas. Sua massagem era a melhor. Logo senti meus músculos tensos relaxarem, foi quando ele também ficou mais ousado, passando a mão por baixo da blusa, brincado com o fecho do sutiã, tocando a lateral do meu seio. Quando sentir seus lábios em meu pescoço, abri os olhos.
—Gabriel —o repreendi —Estava fazendo faxina. Preciso de um banho.
—Não me importo —disse ele. Me virei embaixo dele.
—Mas eu me importo —reclamei. Mesmo assim, passei meus braços por seu pescoço —Você nunca fica satisfeito?
—De você? Não —beijou meus lábios —Talvez se te visse todos os dias...
—Você iria enjoar de mim —acusei e ele balançou a cabeça.
—Provavelmente ficaria mais viciado ainda.
—Vocês não estão em casa, sabiam? —empurrei Gabriel para o lado e me sentei, sentido meu rosto esquentar. Tinha esquecido por um momento que não estávamos sozinhos —A casa de Layla fica ao lado.
Olhei para Guilherme, que nos olhava com um sorriso no rosto. Não conseguia identificar se o sorriso era verdadeiro.
—Não estávamos fazendo nada —comentou Gabriel e piscou o olho para mim —Ainda.
Bati em seu ombro, sentido meu rosto fica ainda mais vermelho.
—Bem, eu iria pagar o almoço em forma de agradecimento pela ajuda —continuou ele —Mas se preferirem, podem ir embora.
—Um almoço é o mínimo —disse Gabriel se levantando —Vou pedir comida no meu restaurante favorito —passou as mãos nos bolsos de seu short —Assim que achar meu celular.
—Não se aproveita —disse Guilherme, ao que Gabriel respondeu apenas com um sorriso sacana. Ele com certeza iria se aproveitar.
Gabriel saiu da sala, indo atrás de seu celular e eu abaixei o olhar, focando em minhas mãos. Não sabia o que deveria dizer ou sequer porque me sentia tão culpada. Não estava fazendo nada de errado. Apenas estava beijando meu namorado. Nada de errado nisso.
—Você o ama? —a pergunta foi feita em voz baixa, quase inaudível —O ama como dizia me amar?
—Isso não é da sua conta —falei sentindo a raiva me dominar. Ele não tinha direito de me cobrar nada.
—Claro que é —discordou ele —Ele é meu irmão. Não quero que brinque com os sentimentos dele.
—Como brincou com os meus? —Questionei levantando o olhar para seu rosto. Vi que minhas palavras o atingiram e isso me deixou satisfeita.
—Eu nunca brinquei com seus sentimentos, Layla —negou ele.
—Não foi o que pareceu —senti a magoa em minhas palavras —Você disse que não poderíamos tentar um relacionamento à distância. Foi você que jogou tudo no lixo. Não aja como se tivesse sido eu a que mentiu e enganou.
—Quase 8 anos —disse ele irritado —Você teria me esperado? —não soube o que responder por um momento —Você sabe que não. A prova é exatamente a situação em que nos encontramos.
—Você que não sabe! —discordei dele a raiva brilhando em meus olhos —Não pode saber! Não nos deu uma chance de saber —sentir meus olhos encherem de lágrimas —Eu te amava.
Escutei o barulho de passos se aproximando e abaixei a cabeça, tentando controlar minhas emoções a flor da pele. Odiava aquelas memorias, odiava lembra delas, odiava o garoto na minha frente que continuava as trazendo de volta.
—Tudo bem por aqui? —escutei Gabriel questionar.
O clima estava tão tenso que ele conseguia perceber. Respirei fundo antes de levantar meu olhar para ele. Esperava que não estivesse tão obvio meu abalo emocional.
—Sim —respondi com a voz estranhamente mecânica —Por que não estaria?
—É —concordou Guilherme quando Gabriel olhou em sua direção —Por que não estaria? —ele desviou o olhar —Tenho que resolver umas coisas. Podem pedi o que quiserem para o almoço e pagar com meu cartão.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele saiu. Olhei para Gabriel, com a minha melhor cara de paisagem e questionei:
—O que deu nele?
—Vai saber —deu de ombros olhando por onde seu irmão acabou de sair —Ele está agindo estranho desde ontem. Não deve ser fácil para ele voltar para família depois de tanto tempo, principalmente porque quando foi embora, ele estava brigado com nossos pais.
—Brigados? —perguntei curiosa —Por quê?
—Ele apenas não se entendia com nosso pai, eles viviam brigando, então depois de uma briga particularmente feia, mamãe resolveu mandá-lo para casa da vovó. Logo depois ele conseguiu uma bolsa para estudar no Canada e desde então, essa é a primeira vez que ele volta para casa —seus olhos baixaram para mim —Nossos pais parecem só ter esquecido sobre isso, mas acho que Daniel não se sente igual a eles, tanto que preferiu vim para cá, a casa de uma amiga do que ficar em casa com nossos pais.
—Complicado —foi tudo o que consegui comentar. Agora entendia porque naquela época ele raramente falava de sua família.
—Sim —concordou ele se sentando ao meu lado —De qualquer forma, o que gostaria de comer?