Respingos=> part I.

1207 Words
Dário O ronco grave e agressivo da Ducati Panigale V4 SP2 Speciale rasga o silêncio da madrugada de Nova York como uma lâmina. Não é apenas um som — é um aviso. A vibração sobe pelo asfalto, atravessa os pneus, escala o chassi e se aloja no meu corpo como uma descarga elétrica perfeitamente calculada. A noite está cúmplice. Cerca de vinte e sete graus, céu limpo, estrelas tímidas disputando espaço com as luzes da cidade. As ruas quase vazias me pertencem. Inclino o corpo levemente para frente e giro o punho direito. A resposta é imediata. A moto reage como um animal treinado para matar: feroz, obediente, precisa. Cada troca de marcha é sentida no estômago, cada aceleração comprime meu peito contra o tanque de fibra de carbono. O vento bate no meu capacete e tenta me arrancar da máquina, mas eu não cedo. Nunca cedo. Faço a primeira curva em alta, joelho aberto, corpo pendendo no ângulo exato. O asfalto passa a centímetros de mim. Sinto o atrito invisível da física trabalhando ao meu favor. Controle absoluto. Domínio total. A Panigale canta sob mim, e eu degusto cada vibração como se fosse um privilégio reservado a poucos. Este modelo não existe para o mercado comum. Foram produzidas menos de cinquenta unidades no mundo. Cada peça numerada, cada ajuste feito à mão. Dinheiro compra muitas coisas — mas isso aqui exige algo além: acesso, poder, respeito. Ou medo. Endireito a moto e acelero novamente. O mundo vira um borrão. As luzes se esticam, os prédios se curvam ao meu redor. Nesse instante, não existe passado, nem futuro. Só a estrada, o motor e eu. Deslizo os dedos da mão esquerda por um instante, sentindo a textura da luva de couro reforçado, e abaixo rapidamente o olhar. A arma repousa firme na coldre preso à minha coxa — fria, silenciosa, tão parte de mim quanto a moto entre minhas pernas. Minhas duas grandes paixões sempre coexistiram bem. Reduzo gradualmente a velocidade ao me aproximar do condomínio na West 57th Street, próximo ao Central Park. A transição da agressividade para o controle é suave, quase elegante. Giro o acelerador com precisão cirúrgica, aciono os freios de carbono-cerâmica e deixo a Panigale ronronar em submissão enquanto adentro a garagem subterrânea. A máquina se cala, mas a adrenalina ainda corre quente nas veias. Perfeito. Vou intensificar o tom visceral, entrando mais fundo na cabeça dele — raiva, controle, poder, tensão física — e lapidar a linguagem para ficar mais cortante, sem perder sofisticação. Também ajusto o foco da cena do vídeo para o impacto psicológico, não para a descrição gratuita, deixando tudo mais denso e ameaçador. O meu apartamento é um organismo vivo. Amplo, silencioso, imponente. As janelas de quinze metros, do chão ao teto, transformam Manhattan em um quadro permanente, frio e distante. Três pisos conectados por uma escada em espiral que mais parece um eixo — tudo converge para o centro. Para mim. Com meu pai ainda cuidando diretamente dos negócios do cartel, tive liberdade para recalcular rotas. Vir para os Estados Unidos não foi fuga; foi estratégia. Afastei-me do alcance direto dos olhos que sempre me vigiaram, mesmo quando fingiam não ver. Aqui, consegui enxergar mais longe — três movimentos à frente daqueles que tentavam empurrar o cartel de Cali para novas frentes sem entender o tabuleiro. Estou expandindo conexões. Há décadas somos um império, e impérios que não se adaptam apodrecem. O mercado exige visão ampla, mãos longas e ausência de hesitação. Mantemos os produtos ilícitos fluindo, mas infiltramos nossos tentáculos em setores legítimos — alimentos, transporte, logística. Negócios legais operados com métodos ilegais. A fachada perfeita. Meu objetivo é imprimir nossas digitais nos países bálticos, dominar o fornecimento de insumos e entorpecentes na Eurásia e assumir, de forma integral, o setor imobiliário e de segurança privada na América. Este último já está em andamento há cinco anos. As engrenagens giram sem ruído. Tudo flui. Nada me escapa em Cáli. Uma cobrança atrasada, um acordo m*l costurado, uma disputa territorial disfarçada — tudo chega até mim. Sempre chega. Ao me mudar, abdiquei do espetáculo da escolta ostensiva. Sessenta homens não passam despercebidos em Manhattan. Trouxe apenas os essenciais. Os leais. Alejandro, meu braço direito. Arvin, precisão encarnada, um atirador moldado pelo clã. E mais alguns poucos seguranças. Cinco, no máximo. Javier não aprovou. Aceitou. Meu pai não é apenas sangue — é doutrina. Foi ele quem me ensinou o peso da responsabilidade, quem me esculpiu à força para assumir o império que carrega há anos. Aos vinte e oito, reconheço minha falha mais perigosa: o autocontrole. Ele nem sempre responde quando é chamado. Há situações específicas que atravessam minha pele como farpas. Incômodos que despertam algo primitivo. E quando isso acontece, minhas reações não pedem permissão. São rápidas. Definitivas. Nenhuma das lembranças que me vêm à mente terminou bem para quem estava do outro lado. Desembarco da moto. O elevador sobe em silêncio. Meu corpo pede um banho quente e álcool suficiente para entorpecer os pensamentos. Observo Arvin — postura impecável, olhar atento, tensão contida. Um homem treinado para identificar ameaças antes mesmo que elas existam. Alejandro faz a varredura antes de eu entrar. Procedimento padrão. Sempre dois homens no prédio. Quando me aproximo, tudo é revisado: garagem, corredores, cada cômodo. — Tudo certo, senhor. Assinto. — Podem se retirar. Fecho a porta atrás de mim, afrouxando a gravata. Finalmente só. Esses momentos são raros. E sagrados. Um charuto cubano. Um destilado forte. Música clássica preenchendo o espaço. É quando o mundo respira — porque o d***o se ausenta por alguns instantes. Caminho pelo apartamento, retiro a pistola do cós e subo ao segundo piso. O banho quente desfaz a tensão superficial, mas não alcança o que está enraizado. Deito-me, o corpo cede rápido. A mente, nunca. Aprendi cedo a dormir leve. Meu pai chamava de treinamento. Eu chamava de sobrevivência. Invasões noturnas, mãos no pescoço, sacos sobre a cabeça, ar negado. Água gelada era misericórdia. Desde então, qualquer ruído me desperta. O vibrar no travesseiro me arranca do torpor. Minha mão encontra o metal frio da pistola antes do celular. Reflexo condicionado. Pisco, foco a visão. O nome na tela faz algo se contrair dentro de mim. Javier. Quatro da manhã. Nada bom. Atendo. — Hola, papá. ¿Qué sucedió? Ele responde com falsa casualidade, sondando meu humor. Está inquieto. Sinto isso na pausa, no estalar da língua. — Te envié algo. Comprueba. Coloco a ligação em espera. Abro a mensagem. O vídeo carrega. E o mundo perde densidade. Reconheço Ravana no mesmo instante. A exposição, o descontrole, a ausência total de noção do que representa. Uma humilhação pública. Não apenas para mim — para o nome, para o clã, para tudo o que construímos. Minha mandíbula trava. O celular range sob a pressão dos meus dedos. Fecho o vídeo antes que termine. Respiro fundo. Uma vez. Duas. A dor lateja atrás dos olhos. Massageio a testa, tentando conter o que insiste em emergir. Retomo a ligação e caminho até as janelas abertas. Nova York continua ali, indiferente, iluminada, viva. — O que tem a me dizer sobre isso, papá? Minha voz sai baixa. Controlada. Mas o céu escuro sabe: isso não vai ficar assim.
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