Ainda na terça-feira, Theodore já esperava Gabriel no portão da escola. Ficar sentado na sala de aula o deixara angustiado, enquanto que no pátio podia, ao menos, admirar o pôr-do-sol alaranjado. Contudo era um tanto quanto estranho ficar parado ali com alguns estudantes passando por si o olhando e acenando timidamente.
O ômega olhava em sua volta verificando que não havia nenhuma outra pessoa além dele mesmo por ali, só para ter a certeza de que o aceno para si. E somente então retribuía tão timidamente, arrancando sorrisinhos das pessoas que seguiam seus caminhos.
Estariam rindo dele ou rindo para ele?
Theodore não sabia.
— Boa sorte no concurso, Theodore! — Ousara dizer um rapaz que Theodore reconhecera ser da classe de Lilian, acenando espalhafatosamente para o ômega. — O primeiro ano conta contigo!
O garoto acenava mesmo correndo pela rua, deixando os demais olhando curiosos para o loiro. Reprimira a vontade de encolher os ombros. Não havia se sentido empoderado quando conversara com Sadie mais cedo? Não estava participando do concurso da escola, com o intuito de ajudar o primeiro ano? Se parecesse tão patético só de receber um incentivo de um colega, como poderia trazer a vitória para eles?
Não ousaria.
Theodore erguia a mão e acenava de volta, abrindo um belo e charmoso sorriso.
Baixos gritinhos eufóricos, que foram custosamente contidos pelas garotas, deram margem para que Theodore se tornasse o centro das atenções naquele momento. E para a surpresa do ômega, não fora uma menina que se aproximara dele, e sim um outro garoto. Um garoto alto com o uniforme do time de futebol da escola.
— Eaí, Theodore! Meu irmão é da sala que você está representando. Ele fala bastante de você.
O ômega piscara aturdido com a repentina aparição daquele garoto bonito. Era alto de cabelos loiro acastanhado. Lembrava-se de um menino na sala de Lilian que tinha cabelos daquela cor, fora o mesmo que encontrara no ginásio no domingo. Seria ele o irmão daquele jogador?
— Espero que sejam coisas boas.
O garoto ria divertido assentindo com a cabeça, jogando a mochila sobre o ombro.
— Ele é vice representante de turma, e sempre reclama que a representante tem ideias malucas. Mas parece que dessa vez ela acertou em te recrutar para o concurso.
Oh, certo... Lilian e seus planos estavam ganhando fama pela escola. Apesar de Theodore nunca ter visto algum plano dela dar errado. Um grande mérito da garota.
— Também fiquei surpreso quando ela me convidou, mas admito que é bem divertido.
— É legal perceber sermos capazes de fazer algo que nunca tentamos antes, não é?
Theodore arregalava os olhos sutilmente para aquele garoto. Ele fitava o horizonte parecendo se inspirar nos céus para lhe dizer aquela frase. Até seu coração batera acelerado concordando com aquilo.
Era imensamente prazeroso descobrir ser bom em algo. Apesar de Theodore não ter feito nada de mais até então. Mudou um pouco o seu visual, e se sentia diferente por conta disso. Era tão prazeroso encontrar esse novo eu, que Theodore queria desvendar a si próprio cada vez mais.
Um sorriso fofo surgia em seus lábios, e junto do cheiro característico de ômega, o jogador de futebol o encarava levemente ruborizado.
— É muito legal mesmo. Sou muito grato pela turma do seu irmão em proporcionar essa experiência para alguém como eu.
— Já tinha ouvido alguns rumores a seu respeito, mas nunca imaginei que você seria tão gente boa.
Ah, pobre Theodore. Seu coração acelerou empolgado mais uma vez.
Estaria ele fazendo mais um amigo?
Ah, que alegria! Um amigo! E ele parecia ser tão bacana, fácil de conversar. Queria muitos amigos, Theodore ansiava cada vez mais ter uma vida estudantil como os filmes que tanto adorava. Amigos que compartilhassem qualquer situação. Amigos de verdade.
Finalmente Theodore poderia fazer amigos, além de Nico e Gabriel, naquela escola.
A felicidade estava estampada em seus olhos azulados. Sua alegria tão genuína fazia o jogador de futebol soltar uma risada alta divertida ao estender a mão em sua direção.
— Sou Lucas, é um prazer te conhecer melhor, Theodore.
O ômega segurara a mão do jogador a apertando levemente em cumprimento.
— Digo o mesmo.
A aura entre aqueles dois era tão gostosa repleta de felicidade, que somente se rompera quando o jogador de futebol sentira uma presença pesada e aterrorizante vindo atrás de Theodore. Olhando sobre o ombro, Lucas era o mais novo alvo do olhar frio de Gabriel que havia recém chegado.
Um arrepio passara pela espinha de Lucas, sentindo seus instintos implorarem para irem embora. No entanto, suas pernas congelaram no lugar.
— Theo!
Theodore não soltara a mão de Lucas quando virou-se para trás e encontrara Gabriel lhe dirigindo um sorriso amável. O ômega, só de vê-lo tão belo usando o uniforme de treino, liberou mais do seu cheiro em pura empolgação de ver aquele alfa.
— Gabriel! Hoje você demorou.
— Recebi uma mensagem do Milles pedindo pra gente levar alguma coisa para eles comerem, e tava separando uma grana...
Os olhos amendoados de Gabriel foram para as mãos dos dois híbridos que ainda estavam encostadas. Furtivamente o alfa rosnara, fazendo Lucas desfazer o toque e acenar nervoso para Theodore.
— Conversamos melhor outro dia, Theodore. Foi daora te conhecer.
Theodore acenava para o mais novo amigo e sorria largamente.
— Certo, até mais!
Finalmente sozinhos, Gabriel fora ao lado de Theodore olhando sua mão direita. Era aquela que estava, agora, com o cheiro de outro alfa. Respirando fundo antes de ter a atenção do loiro novamente em si, Gabriel fora para o lado esquerdo de Theodore o puxando pelo pulso.
— Vamos, se não vai ficar muito tarde.
— Ah... Sim, certo. O que devemos levar mesmo?
— Provavelmente algo leve, não?
Os dois rapazes subiram a rua em direção a loja de conveniência, onde compraram cabelo de anjo e alguns vegetais para fazer uma sopa. Eles conversavam normalmente, apesar de Theodore ainda ter guardado em sua mente o ocorrido de Thunder.
Queria perguntar.
Mas ao mesmo tempo, temia a resposta.
Além disso tinha a situação de Sadie... Pelos céus, como conseguia sorrir para Gabriel quando sua cabeça parecia entrar em erupção de tanta coisa que o preocupava?
Até que ponto deveria dar tanta atenção para coisas como aquelas? Não seria melhor ignorar? Ou apenas observar até tudo se resolver por conta própria? Talvez não precisasse se esforçar tanto quanto imaginava.
Perdido nos próprios pensamentos, Theodore despertava dos mesmos quando sentira algo quente segurar a sua mão esquerda. Olhando para ela, corava em notar que Gabriel havia entrelaçado seus dedos.
— Já que não tem ninguém na rua, está tudo bem em andarmos assim até a casa do capitão, não é?
Theodore olhara em volta concordando com o alfa.
— Acho que sim.
— Finalmente posso segurar sua mão desse jeito. — Suspirava Gabriel, arrancando olhares curiosos do loiro. — O treino foi muito intenso hoje sem o capitão e sem o Milles. Me senti sozinho.
Coçando a nuca, Theodore baixara os olhos receoso ao questionar.
— Alguém comentou alguma coisa da história?
— Me perguntaram o que eu achava. Foi bem como você previu, eles ficaram receosos que você aparecesse por lá.
Não ficara surpreso em saber daquilo. Theodore sempre imaginara que quanto mais se expusesse enquanto ômega na escola, maiores seriam os receios de outros garotos. Só esperava que isso não o afastasse do time de vez, pois aí ficaria sozinho boa parte do dia.
Ir para a escola e voltar para casa sem poder conversar com Nico e Gabriel. Só poderia ir assistir as partidas das arquibancadas, sem poder preparar o almoço nutritivo para os dois.
Seria afastado deles. Poderiam se ver só nos finais de semana... E olhe lá! Provavelmente Theodore se sentiria solitário como nunca se sentira antes.
— Vai ficar tudo bem, não é? — Murmurava o rapaz erguendo a cabeça ao se aproximar da casa de muro baixo. — Um passo de cada vez.
— Ei! — Gabriel parara de andar repentinamente, ainda segurando a mão de Theodore. — Estou com você. Pode confiar em mim.
— Eu confio.
As bochechas de Theodore ganharam um tom rosado adorável, e Gabriel não se aguentara em aproximar-se do ômega para beijar suas bochechas. Um beijo simples e rápido, mas que fazia um coração enlouquecer dentro do peito.
Aquele ômega olhava apaixonado para aquele alfa. Apertava seus dedos aos de Gabriel, tentando conter a euforia. Queria pular em seus braços. Queria sentir seus beijos e carinhos. Queria ficar cada vez mais perto de Gabriel.
Eram tantos desejos, que seu cheiro o denunciava prontamente para o ficante.
Gabriel, por sua vez, diminuíra a distância entre eles para poder beijar Theodore. Acariciou suas bochechas com as pontas dos dedos, e aproveitara a calmaria daquele entardecer para ter o primeiro beijo do dia.
Oh sim, os meninos m*l tiveram tempo juntos naquela terça-feira. Talvez fosse por esse motivo que o alfa parecesse tão impaciente em ficar sozinho com o seu ômega. Mas tivera de se conter, pois ainda havia uma coisa para fazerem.
Visitar o capitão e, talvez, impedir que a terceira guerra mundial acontecesse.
「 • • • 」
Theodore conhecia bem a casa de Nicolas, e por isso não fizera cerimônias para entrar e deixar as compras no balcão da cozinha. Contudo, no instante em que eles passaram na sala, Gabriel imediatamente tirara um lenço de sua bolsa e a usara para cobrir o nariz do loiro.
Havia um cheiro muito intenso ali.
Os dois garotos trocaram olhares. Theodore segurara o lenço e seguira pelo corredor até o último quarto onde a porta estava aberta. Ali ele e Gabriel puderam encontrar a origem daquele cheiro forte.
E se surpreenderam.
Milles estava escorado na cama de Nicolas, com a cara de poucos amigos segurando Nicolas sentado em seu colo. Completamente largado ali, como se estivesse em êxtase puro. Já o capitão, dormia como um bebê com a cabeça em seu ombro, e a ponta do nariz tocando o pescoço do alfa.
Que cena inédita!
Os dois rapazes entreolharam-se completamente confusos do que viam ali. Gabriel tocara o ombro do ficante, em uma mensagem silenciosa de que tentaria entender a situação em seu lugar.
O alfa dera alguns passos dentro do quarto, tendo Milles rolando apenas os olhos em sua direção. Empertigado, Gabriel aproximou lentamente lutando bravamente contra aquele cheiro tão intenso. Agachou-se perto, olhando curiosamente para aquela combinação surpreendente.
— Ahn... O que tá rolando?
Milles movera os lábios sem que sua voz saísse direito. Gabriel olhara por cima do ombro para Theodore, que não contivera a sua curiosidade e adentrara no quarto indo direto para a janela verificando se a mesma estava aberta. Sua última saída para lidar com o cheiro fora ligar o ventilador de teto do quarto, e ainda assim demorou um tempo para dispersar o cheiro ali presente.
Somente então Theodore se agachara do outro lado de Milles, inclinando-se para questioná-lo novamente e ouvir sua resposta. A voz do alfa estava baixíssima e rouca, precisando o loiro inclinar-se com o ouvido quase colado em sua boca para ouvir apropriadamente.
— Tirem ele daqui!
— Ok, Gabriel vamos colocar Nico na cama.
— Certo.
Os dois rapazes tiveram uma grande dificuldade em desprender as mãos de Nicolas do uniforme de Milles. Segurando os ombros e as pernas, os dois conseguiram levar o sonolento Nicolas até a cama, onde Theodore tivera todo o cuidado de ir buscar a coberta jogada na sala para levar até o quarto e cobrir o melhor amigo. Enquanto isso Gabriel verificava o melhor amigo, tentando compreender o que raios poderia acontecido.
— Por que tá desse jeito, cara? O que aconteceu?
Milles apertava os olhos com as pontas dos dedos, suspirando cansado tentando se sentar direito no tapete. Não respondera a pergunta de imediato, parecendo atordoado demais. Gabriel não ousara questionar novamente, afastando-se para dar espaço suficiente ao amigo.
— Consegue se levantar? Quer água ou comer alguma coisa? — Perguntava Theodore para Milles, parecendo preocupado.
O alfa concordara com a cabeça quando a água fora mencionada, e Theodore fora de imediato para a cozinha buscar. Ao retornar para o quarto, o cheiro já havia sido dispersado o suficiente para que o lenço fosse deixado de lado. E então estendera o copo de água para Milles, que pegara com a mão trêmula.
Assistiram silenciosamente o alfa beber água sedento, escapando alguns fios de água por seu queixo. Terminado de matar a sede, Milles piscara algumas vezes e balançara a cabeça parecendo recompor de sua consciência.
— Que merda.
— Tá melhor?
— ‘Tô’ cara. p**a merda...
— Por acaso brigaram até se cansarem?
— Preferia.
Gabriel analisara o estado do amigo que era, em poucas palavras, deplorável. Sua camisa estava completamente amassada, assim como os cabelos loiros. Os primeiros botões abertos mostrando o peitoral e o ombro, onde havia ali uma mordida.
Arregalando os olhos ao notar, Gabriel virou-se para Theodore ganhando sua atenção imediata. Com discrição apontara com o queixo em direção daquela mordida, percebendo o rosto do ômega ficar pálido.
Milles, apesar de cansado, notara que os dois poderiam ter visto e suspirara baixo.
— Ele me mordeu.
— Mordeu... Como? Não quer dizer aquela mordida. — Questionava Theodore com um sorriso receoso no rosto.
— Que fome...
— Sabe que horas chega a mãe do capitão? — Perguntava Gabriel curioso.
— Costuma chegar por volta das dez da noite, por quê?
— Devemos fazer a sopa então.
Theodore espreitava os olhos confuso com a mudança repentina de assunto. Gabriel apontava com a cabeça em direção do amigo que estava ali sentado, e então ficara clara a situação. Precisavam tirar Milles do quarto.
— Vamos pra cozinha então, vou precisar de ajudar pra ficar pronto mais rápido.
Theodore e Gabriel se levantaram e ajudaram Milles a ficar em pé, o que fora difícil já que ele era um pouco mais alto e pesado que eles. Ainda mais com o alfa jogando seu peso sobre seus ombros, tendo ainda dificuldades para manter o equilíbrio.
A preocupação era certeira. Theodore não conseguia imaginar o que teria acontecido para que aqueles dois terminassem naquela situação. Que tipo de mordida era aquela no pescoço de Milles? Teria sido Nicolas quem o fizera? E o seu amigo, por acaso, também teria uma em seu corpo?
As perguntas eram tantas que chegava a ficar zonzo.
Arrastando Milles até a cozinha, os dois garotos o sentaram em uma cadeira e lhe serviram outro copo d’água. Mantendo-o em seu campo de visão, Theodore pegara uma panela e enchera de água, enquanto Gabriel já lavava alguns legumes e vegetais para cortar.
— Pode nos contar o que aconteceu? Talvez possamos te ajudar.
Theodore sentira Milles exitar em falar sobre o assunto, e por isso usara um tom calmo para ele. Enquanto cuidava da sopa junto com Gabriel, descascando e deixando alguns vegetais para ferver, o ômega tinha sua atenção no atleta alto. Como um singelo sinal de conforto.
Parecera dar certo, pois, o alfa apoiou-se na mesa olhando Theodore diretamente.
— Nos beijamos.
A faca que descascava uma batata parou repentinamente quando Theodore erguera os olhos para Milles.
— Oi?
— Ele ficou me provocando desde que eu cheguei. Tenho limites, e...
— Ah merda, esqueci desse detalhe. — Xingava Theodore, surpreendendo o ficante que o olhava curioso. — Foi m*l, Milles. Me esqueci por completo de te avisar disso.
— Disso o quê, Theo?
— Quando Nico fica doente, ele parece uma criança manhosa. Tipo a minha irmã.
— Você tem uma irmã? — Surpreendia-se Gabriel.
— Sim, ela é pequena ainda.
— Você chama isso de detalhe? E ainda me esqueceu de avisar? — Vociferou Milles.
— É que eu estou acostumado já. — Apressou-se em explicar o ômega, voltando a descascar a batata. — Prefiro pensar que é uma personalidade que ele esconde pra... Se proteger. Ou melhor dizendo, que esse seria o verdadeiro Nico?
— Daquele jeito? Tem certeza? Porque a impressão que eu tive é que prefiro levar bolada na cara do que encarar aquele... Pivete.
Meneando a cabeça acompanhando o raciocínio, Gabriel não ousara dar risada. Apesar de querer. Não conseguia imaginar o quão terrível era Nicolas enquanto doente.
— Um professor disse uma vez que quando ficamos doentes, nossas classes sobressaem. — Explicava Gabriel sabiamente, para a admiração de Theodore. — Será que o instinto ômega do capitão é oposto de sua personalidade?
— Se for isso, eu tenho pena de você Biel.
Theodore arqueara a sobrancelha para Milles.
— Não é assim que funciona! Eu sou um amor de pessoa de qualquer jeito.
Milles fizera uma careta.
— Foi o que Jake disse.
O olhar direto de Gabriel arrepiava Milles, e o alfa imediatamente arrependeu-se de ter mencionado seu primo. Choramingando, o alfa mais alto acariciava a própria barriga que roncava esfomeada.
— Então, vocês ficaram... Isso quer dizer que você também acha que o Nico é...
Theodore parara de falar, subitamente nervoso em tocar no assunto. Nicolas lhe confidenciara achar que Milles era sua alma gêmea, mas não comentara sobre aquilo ser um segredo. Quer dizer, não seria óbvio manter aquilo em segredo?
Afinal... Era Milles Mckenzie!
O irmão mais velho de Sadie Mckenzie.
O atacante do time de vôlei.
Aquele que já lhe direcionou palavras espinhosas e sorrisos maliciosos por saber que era um ômega.
Um galinha que nunca parava com uma garota para namorar sério. Tendo um fã clube inteiro só pra ele.
Não seria óbvio manter em segredo as impressões de Nicolas?
Mas... Era nítido que Nicolas estava balançado por aquele alfa. No domingo à noite, o seu amigo comentou o beijo que havia acontecido no vestiário do ginásio. Theodore ficara tão surpreso que não deixara o amigo em paz até saber os detalhes.
E fora tão surpreendente ver Nicolas completamente perdido.
Não fazia ideia em como descrever suas sensações.
Theodore vira, naquela vez, o seu melhor amigo corar.
Mas sem, jamais, ousar dizer a verdade sobre o que sentira.
Se eles se beijaram, e o próprio Milles afirmava aquilo... Não seria um sinal de que ele também cogitaria que Nicolas fosse sua alma gêmea?
— Ele comentou alguma coisa contigo?
Theodore espreitou os olhos.
— Fale você primeiro. Dependendo do que rolou eu não abro o bico.
Milles estalara a língua, e Gabriel rira baixo cuidando do macarrão, se divertindo em ouvir aquela conversa.
— Na quadra de vôlei, naquele dia que ele me beijou eu senti alguma coisa — Começara Milles, desviando o olhar para o copo d’água vazio sobre a mesa. — Algo dentro da minha cabeça berra, como um alarme de incêndio, dizendo que o capitão é a causa de toda a bagunça. Quer dizer... É assim que se descobre a sua alma gêmea?
Theodore finalmente terminara sua batalha com as batatas, e as cortara jogando em um pequeno prato. Livre o suficiente para encarar Milles, o ômega analisou atentamente cada expressão visível em seu rosto. Avaliou até que ponto poderia falar ou não.
Até sentir um aperto em seu ombro.
Olhando para trás, deparou-se com o sorriso gentil e calmo de Gabriel.
Ok, seu ficante estava lhe dando sinal verde de que o assunto poderia ser conversado civilizadamente. Poderia questionar Gabriel mais tarde sobre os detalhes.
— Você acha que ele é a sua alma gêmea? — Questionava com cautela, vendo Milles concordar com a cabeça silenciosamente. — Isso explicaria o motivo de Nico ter agido... Desse jeito. Ele nunca tentou me atacar quando fica doente, sempre dorme.
Milles bufara revirando os olhos.
— Eu sabia. Até doente ele quer fazer minha vida um inferno.
— Mas o que me deixa curioso é isso aí no seu ombro. — Apontava Gabriel com a ponta da faca, longe é claro, em direção do ombro do amigo. — É aquela mordida? De ligação?
O “x” da questão era aquela. Theodore estava muito curioso em saber a resposta.
Quando um híbrido mordia outro híbrido, uma ligação se formava. Preciosa e indestrutível, era o que tornavam um só. Theodore sonhava com o dia em que seria mordido pela pessoa que amava, ao mesmo tempo tinha medo.
E se acabasse atado a alguém horrível?
Por isso não ousava sonhar demais. Uma coisa era viver um belo romance de verão, trocando beijos e carícias transbordando amor. Outro era dividir um laço interno entre dois híbridos, onde até mesmo pensamentos poderiam ser compartilhados.
Sendo assim, saber que alguém mordera uma pessoa era um evento tão grandioso quanto descobrir uma gravidez ou a morte de alguém.
— Sim, ele me mordeu pra criar uma ligação.
Gabriel e Theodore deixaram os talheres caírem diante do espanto. Encaravam estupefatos para Milles, que acariciava a mordida com as pontas dos dedos parecendo incrédulo.
— Que merda.
— Olha a boca! — Repreendia Theodore, fazendo Gabriel comprimir os lábios. — Ok... Ok. Um passo de cada vez. Ahn, você mordeu o Nico também?
— Mas é claro que não. Eu tava lúcido na hora.
— Menos m*l.
A conversa fora interrompida subitamente quando o casal focou, por um instante, nos ingredientes que preparavam. Ao mesmo tempo, um cheiro adocicado se tornara presente. A linguiça gigante e branca aparecera mais uma vez na sala, para o terror de Milles. Porém, somente ele percebera a sua presença, já que Gabriel chamara Theodore para verem a sopa e lhe davam as costas.
Queria gritar por socorro. Queria fugir. Mas estava estupidamente fraco para se mover.
A coberta caíra ao chão, e Nicolas engatinhara pelo chão se escondendo debaixo da mesa. No mesmo instante Theodore voltara a se aproximar da mesa, pegando os legumes e vegetais que havia cortado para jogá-los na panela da sopa.
Percebendo o pesado cobertor caído no meio da sala, o ômega arqueara a sobrancelha olhando em volta procurando a presença do amigo. Encarara Milles, percebendo ele olhar fixamente para o colo.
Inclinando a cabeça, vira algo debaixo da mesa. Imediatamente Theodore cutucara Gabriel, o fazendo olhar para o mesmo lugar, ficando perplexo.
— Ele tá ali? — Theodore assentira silenciosamente — O que devemos fazer?
— Milles. Milles. Milles. — Chamara em sussurro repetidas vezes, até o alfa o olhar — O que ele tá fazendo?
— Me encarando. Vou ter pesadelos com ele, Biel. Me salve.
— Você disse que ele sempre dorme, não é Theo? Se ele comer a sopa, mas muito mesmo... Será que ele capota?
Theodore se agachou apoiando os braços nos joelhos. A visão era inédita ao ponto do loiro querer tirar foto para mostrar ao amigo mais tarde. Nicolas estava com a cabeça apoiada na coxa de Milles, o encarando atentamente sem se mover.
Agachando-se ao lado de Theodore, Gabriel suspirava cansado.
— Ele tá parecendo aqueles gatos que arranha a nossa cara quando a gente toca neles, mas que também nos arranham quando não damos atenção.
— Acho que o Milles vai ter que ceder, só por hoje. — Murmurou o ômega para o ficante.
E então Theodore sussurrou o ardiloso plano que pensara naqueles poucos minutos. A situação era tão deplorável e fora do controle, que o ômega elogiara a si mesmo por ter encontrado alguma saída para o problema.
Levantando-se para cuidarem da sopa, os dois já colocavam o plano em ação. Gabriel sussurrou algumas ideias para o melhor amigo, compreendendo o medo dele quando também se tornara alvo dos olhos escuros, sonolentos e vigilantes.
Aquele capitão era alguém assustador, até mesmo doente.
A sopa, enfim, fora servida. Milles tomara três pratos da sopa, esfomeado devido a energia gasta com a mordida. Nicolas também se sentara para comer a sopa, ficando perto de Milles o encarando sem piscar.
Fora a cena mais tenebrosa.
Enquanto isso, Gabriel e Theodore arrumaram a cama do capitão e jogaram a mochila e o skate de Milles pela janela. Deixaram fácil para o plano seguir.
— Você vai ficar bem lidando com ele? — Questionava Gabriel, preocupado.
— Mas é claro.
O plano fora colocado em ação.
Theodore e Gabriel permaneceram na sala assistindo televisão depois de terem lavado a louça. Milles seguira para o quarto, tendo Nicolas no seu encalço segurando a barra de sua blusa e bocejando sonolento.
Aguardaram meia hora até irem nas pontas dos pés para o quarto do capitão, onde viram Milles deitado na cama com os olhos fechados e um Nicolas ao seu lado, agarrado ao alfa dormindo encolhido. Assim como Theodore imaginara, o seu melhor amigo sentia a necessidade de dormir com o cheiro do seu alfa.
Pelos céus, como azucrinaria o seu amigo pelo resto da vida só com aquele episódio.
Os dois retornaram para a sala e ficaram por ali até às oito da noite. Fora o momento em que o alarme tocara no celular de Gabriel, alto o suficiente para que Milles escutasse. Theodore se levantou do sofá e fora para o quarto do amigo, ajudando Milles a se desvencilhar do capitão dorminhoco.
O sono de Nicolas estaria pesado o suficiente para ele não notar a ausência de Milles. Certo, etapa um concluída.
Colocando o travesseiro em que o alfa estava deitado no seu lugar, Theodore cobrira o amigo enquanto Milles seguia nas pontas dos pés para pular a janela e fugir.
Somente quando Gabriel passara na frente da janela lançando uma piscadinha charmosa em sua direção, Theodore poderia respirar aliviado de que o seu plano de fuga dera certo.